Hamilton Zen – Artista plástico, músico, ator, diretor e confeiteiro. Um precursor da cultura do Guará e do Distrito Federal

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No registro de nascimento ele é Hamilton Silva da Cruz, mas decidiu ser Hamilton Zen na arte, na música, na culinária e na vida, “Zen se tornou minha identidade, só não sou zen (pessoa tranquila) quando o assunto é política – eu tenho minha ideologia e eu me pareço com aquilo que acredito”, define. No Guará desde 1972, ele se lembra de uma cidade muito bonita desde aquela época, até então sem prédios, ruas de terra e um grande cerrado com sua vegetação peculiar. Mesmo com a mudança que o progresso trouxe ao longo dos anos, Hamilton ainda se encanta com o nosso Guará. “Mas a evolução precisa acontecer, faz parte da vida”, resigna-se.
Como artista plástico, serígrafo, desenhista e pintor, Hamilton Zen desenvolve seu ofício no ateliê que leva o seu nome localizado na QE 34 do Guará II. O artista não sabe dizer exatamente como ou quando a arte de desenhar ganhou destaque em sua vida, mas relata que aos 6 anos de idade um simples desenho feito em sala de aula foi parar na parede da sala do diretor da escola. “Não dá pra dizer como acontece, é um dom da minha família, meus tios são desenhistas, inclusive o tio Francisco Chagas é uma grande inspiração, porque desde menino me encantava com sua habilidade. Minhas duas filhas (Indira da Cruz e Paula Rosa Santana) são grandes artistas e desenhistas também”, revela.

Saraus
Um dos momentos de maior entusiasmo do artista é quando durante suas participações em saraus que acontecem por todo DF ele pode demonstrar sua arte ao vivo no projeto Arte Movimento. Hamilton leva o material necessário para os seus traçados e ali, junto do público, executa sua arte ou “dom” como ele define. Muitas vezes a obra é vendida no próprio evento que dura aproximadamente de três a quatro horas. O artista foi convidado para expor seus trabalhos em uma exposição para artistas plásticos e grafiteiros que acontecerá em junho na LBV (Legião da Boa Vontade) na Asa Sul.
Como ator e diretor, ele já atuou em Goiânia na UFG (Universidade Federal de Goiás) e na Universidade Católica. É o criador do grupo de teatro da igreja Divino Espírito Santo e encenou recentemente a Via Sacra que emocionou a todos os presentes na última sexta-feira da Paixão, onde fez o papel de Jesus. “É marcante na vida de um ator, ver mais de 3 mil pessoas acompanhando a encenação e os rostos emocionados, lágrimas – trabalhar com a fé das pessoas é algo inesquecível”, diz o ator.
Outra obra teatral de bastante impacto social produzida por Hamilton e que em breve voltará aos palcos é a peça “Oh Pátria Mamada Idolartrada, Salve-se” que retrata a vida do trabalhador comum tal como ela é. Os temas futebol, carnaval, sexo e dinheiro e suas alienações são retratadas em forma de mímica e causam um impacto tão grande na mente dos espectadores que mesmo quem a assistiu há 25 anos ainda comenta o efeito positivo da peça. “É uma crítica aos costumes da sociedade e ao mesmo tempo uma chamada para acordarmos e nos unirmos – basta ver o que está acontecendo no Brasil atualmente. No sarau Tribo das Artes usamos uma frase que é muito verdadeira e tudo que faço é baseado nela: “Não basta fazer arte, ela tem que incomodar”, ressalta o artista.

Música
Como músico desempenha as funções de baterista, percussionista e gaiteiro. Foi baterista da banda de rock guaraense Sapiens e em 2014 ganhou o concurso cultural Brasília Independente promovido pela Rede Globo Brasília. Hoje em dia, faz parte da banda Felipe Zucco e Bluesband. O grupo foi criado há dois anos e se apresenta em eventos, saraus, casas noturnas e bares, levando o melhor do hard rock e blues.
Como ativista cultural desde 1978, Hamilton tem dedicado parte de sua vida em prol desse tema. De 2011 a 2013 esteve na Gerência da Cultura do Guará. “Tenho boas lembranças dessa época, pois pudemos praticar a cultura e a arte, apesar da limitação que um cargo público tem,. O dinheiro que vem do Governo Federal ou das emendas é pouco diante de tantos projetos que podem ser executados. Dá um pouco de frustração estar numa posição administrativa e ao mesmo tempo não poder fazer tudo o que se tem para fazer, é uma posição delicada”, pondera o ativista. Ele é também vice-presidente do Conselho de Cultura do Guará, há cinco anos.

Confeiteiro
Como confeiteiro, por mais inusitado que pareça, Hamilton também utiliza do seu dom artístico para o ofício. Tudo começou em 1985, quando ele estava à procura de emprego e foi chamado por uma famosa rede de hipermercados. A vaga era para a padaria, e ele não hesitou diante do desafio. No teste, precisava desenhar no bolo de aniversário alguns personagens infantis com chocolate temperado, algo que nunca tinha feito, mas executou a tarefa com a aprovação do chefe da seção – um italiano especialista na arte da confeitaria.
Mas antes de confeitar era preciso entender o processo para fazer os bolos, tortas etc. e assim Hamilton passou três meses aprendendo tudo sobre confeitaria e a arte de fazer produtos de qualidade. Só depois de aprender a fazer os próprios bolos foi que ele começou a decorá-los com os mais diversos temas, sabores, cores, imagens e tamanhos. Chegou a ser chefe do departamento quando o chef italiano se mudou de cidade. Em seu primeiro dia no cargo recebeu outro grande desafio, uma encomenda para fazer 350 quilos de bolo. O pedido foi entregue e agradou muito o cliente. Em outro momento, Hamilton também foi o responsável pela decoração do bolo de casamento da filha do ex-presidente José Sarney.
“Não tenho grandes sonhos para o futuro, para mim cada dia, cada trabalho é a realização dos meus sonhos. Quanto mais tempo você vai vivendo aquele tipo de prática talvez já sejam os sonhos se realizando. Eu vivo no processo de realização de cada um deles e um dia que sabe acontece algo mais grandioso”, conclui o artista e precursor cultural.

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