No aniversário do Guará, o que estamos celebrando?

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O Guará completa neste sábado, 5 de maio, 49 anos de sua inauguração (ainda que esta tenha acontecido no dia 21 de abril de 1969, mas é assunto para outra ocasião), 49 anos de sua inauguração como cidade do Distrito Federal, ou Região Administrativa. Um ano antes, o Setor Habitacional de Indústrias e Abastecimento, nascido de um mutirão foi depois povoado por dezenas de programas habitacionais do Governo Federal, autarquias e até das Forças Armadas. A cidade mudou muito desde então, junto com o país e com a capital da República, que havia sido inaugurada há pouco tempo.
As mudanças na cidade se aceleraram nos últimos anos dez. Em alguns aspectos, essas mudanças causaram estranhamento na população e prejuízo no estilo de vida outrora estabelecido. As alterações das legislações urbanísticas foram as principais causadoras dessas mudanças. Outro agente responsável por alterações indesejadas foi a negligência, e em alguns casos, a conivência, do governo com a invasão de áreas públicas e a deturpação do zoneamento da cidade. Ainda assim, nem todas as mudanças foram ruins. Em alguns setores, o Guará desenvolveu-se bem e ordenadamente, promovendo-se como cidade boa para se morar e atraindo moradores novos de várias regiões do Distrito Federal, alavancando o preço dos imóveis e diversificando significativamente seu comércio interno.

Novos prédios
A mudança mais significativa, sem dúvida foi o boom imobiliário causado pela votação do Plano Diretor Local no fim de 2006. Brechas na legislação permitiram o avanço vertical dos prédios em frente ao Setor de Oficinas (AE2) e QE 40, e uma nova área residencial no Setor de Oficinas Sul (SOF Sul), iniciando um longo processo de gentrificação que dura até hoje. A gentrificação é quando, em um processo de revitalização de uma área urbana, uma classe economicamente mais favorecida passa a ocupar o espaço de uma comunidade ali estabelecida anteriormente. Essa ação é bem clara no Guará, principalmente no embate entre os moradores dos nobres prédios residenciais e os tradicionais ferros-velhos, que ali estão instalados há anos. Quando os prédios foram construídos, as oficinas mecânicas, lojas de eletrônicos e toda sorte de estabelecimento comercial funcionava na AE 2A, QE 40 e SOF Sul, mas agora, aos poucos, são substituídas por padarias, lanchonetes e restaurantes, para atender aos novos moradores. Quem resiste sofre com as constantes reclamações dos novos moradores, que não admitem morar ao lado de carros desmontados para conserto, ainda que sejam anteriores aos elegantes apartamentos.
Situação ainda pior é o do Polo de Moda, hoje um grande setor residencial prestes a ser regularizado pela Lei de Uso e Ocupação do Solo. Criado para ser um grande polo comercial e industrial, com vocação para a indústria têxtil, para competir com nossos vizinhos goianos, os longos anos sem infraestrutura básica, incentivos fiscais e sequer transporte público adequado aos trabalhadores inviabilizou a maioria das fábricas de roupas. Com isso, os proprietários acabaram aos poucos dividindo seus prédios em pequenos apartamentos de quarto e sala.
Outro processo que acontece até hoje sem incomodar a fiscalização, são os prédios em construção na margem da pista de ligação do Guará com o Núcleo Bandeirante. Os anos de negligência criaram um problema sem volta – ou legaliza-se ou demole-se tudo. Como dificilmente o governo tomará uma medida tão impopular, extremada e que causará prejuízo a tantos pequenos empresários, o Polo de Moda ainda sofrerá muito com o adensamento não planejado. A área é onde mais acontecem crimes no Guará, por conta de sua configuração urbana.

Invasões
As invasões de área pública fazem parte da história do Guará. Começaram com o avanço das grades em frente às casas, continuaram com o cercamento dos prédios residenciais, a ocupação dos becos e o fundo das casas viradas para o calçadão. Depois, vieram os quiosques e a ocupação do Parque Ezechias Heringer. Muito pouco foi feito para combater essas invasões. Aliás, pelo contrário, em troca de apoio político e vantagens indevidas, políticos ao longo dos anos negociaram leis para legalizar essas invasões. Hoje, os becos, fundos ampliados, grades avançadas e estacionamentos de prédios residenciais no Guará I estão legalizados, assim como a ampliação dos lotes comerciais que avançaram sobre a área pública e outras deturpações do projeto original.
O poder público, em alguns casos, foi um grande incentivador, quando, por exemplo, ajudou na distribuição de quiosques pelo Guará, sob o pretexto de regularizá-los. Pessoas que nunca teriam o direito a um quiosque, segundo a lei que entrou em vigor em 2009, como, por exemplo, funcionários comissionados da própria Administração Regional até então, receberam quiosques em áreas nobres com o compromisso de apoiar campanhas eleitorais. Até mesmo uma rua comercial, ao longo da linha do trem, na QE 40, foi criada com esse objetivo.
Ainda há o risco dos comércios em residências serem multiplicados com a aprovação iminente da Lei de Uso e Ocupação do Solo como está proposta. Mesmo sem este instrumento, a própria Administração distribuiu Licenças de Funcionamento para estabelecimentos onde não poderiam funcionar. Há restaurantes funcionando em residências em várias quadras do Guará sem a documentação necessária, com a documentação emitida por gestões passadas e mesmo com o conhecimento dos erros, os titulares atuais se recusam a tomar providências. São essas distorções que tem causado tantos problemas aos moradores da cidade.

Autonomia política
Boa parte das questões levantadas aqui, por negligência ou anuência do poder público na cidade, se dá pela perda gradual da autonomia política do Guará nas últimas décadas. Aos poucos, a Administração Regional do Guará foi desaparelhada e afastada do gabinete do governador até transformar-se em um mero cartório de recebimento de documentos e reclamações. Sem orçamento que dê conta de custear a si própria, a Administração depende do envio de recursos através de emendas parlamentares de seu padrinho político, hoje o deputado e morador do Guará Rodrigo Delmasso. Por uma opção de seu gabinete, as emendas enviadas ao Guará não são executadas pela Administração, mas por outros órgãos, como a Secretaria de Obas, a Secretaria de Educação, a Novacap e outros, com os recursos enviados por descentralização orçamentária. Sendo assim, a Administração do Guará é hoje apenas um órgão de representação política do deputado, esvaziada, inclusive, de representatividade na cidade.
O órgão, que outrora representava o Governo do Distrito Federal, perdeu muito seu prestígio e importância, principalmente por não conseguir mais concretizar os anseios da população. Nos dois últimos anos, o Guará não recebeu nenhuma obra viária importante, que não seja as de urbanização, como a colocação de meio-fios, recuperação de calçadas e recuperação de pracinhas. Essas obras, na visão da comunidade, são uma obrigação de governo, e já não servem para medir a competência dos governantes e parlamentares.

Pontos Positivos
Apesar dos incômodos gerados pela ocupação desordenada em vários pontos da cidade, o Guará tem bastante a comemorar com seu crescimento. A cidade viu uma melhora significativa na oferta de bens e serviços nos últimos anos. É latente o crescimento do setor gastronômico e de lazer. Os bons restaurantes saíram do shopping e chegaram às ruas. Aliás, os guaraenses saíram às ruas. Os eventos de praça e a céu aberto multiplicaram-se e resgataram o sentimento bairrista na comunidade. Especialmente nos meses de seca, são vários eventos abertos por final de semana para curtir de graça. Eventos familiares, organizados por guaraenses, sem ou com muito pouca ajuda do poder público. Os restaurantes da cidade mantêm-se lotados, os bares bem frequentados, as quadras, as igrejas, e até mesmo a rua foi apropriada pelos moradores.
Ainda não conseguimos retomar o Cave, porque mais uma vez o Estado o deixou de lado. Porém, desta vez, há pelo menos uma esperança de reativar todo o complexo através da parceria com a iniciativa privada, para, enfim, entregar algo à altura da população do Guará.
A expansão do Guará II finalmente saiu. A imensa área vazia, cortada por ruas e fios desde 2009, quando o então governador Arruda anunciou a Cidade do Servidor, começou a ser tomada por construções. Serão cerca de 1700 construções a mais no Guará, desta vez em local apropriado, feito para isso, o que vai alavancar a economia local, da loja de materiais de construção aos restaurantes e mercados, passando pela mão de obra ociosa da cidade.
Ainda que com poucos avanços, dois pontos devem ser sempre lembrados no futuro: foram nestes três anos que o Parque do Guará foi desocupado e a Escola Técnica foi entregue. São duas conquistas importantes, qianda que parciais. No Parque Ezechias Heringer é preciso que o governo cumpra sua promessa de investir o dinheiro que vai ganhar ao vender os lotes na área 28-A, ao lado do ParkShopping, todo no Parque do Guará para que a cidade possa usufruir de uma área de lazer e preservação. A Escola Técnica, que será orgulho da cidade por gerações, é um avanço na educação da cidade, mas outros são necessários. É preciso universalizar o acesso, principalmente para as mães que precisam trabalhar, investindo em creches. É preciso melhorar a estrutura física das escolas, para que acompanhem a dedicação dos profissionais da Secretaria de Educação lotados na cidade. E é preciso oferecer oportunidades de ensino superior público mais próximo de casa para os moradores do Guará.

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