Em 29 de julho de 1987, era oficialmente entregue a primeira etapa das chamadas Quadras Econômicas Lúcio Costa (QELC), um projeto habitacional idealizado pelo urbanista Lúcio Costa e implementado durante o governo de José Aparecido de Oliveira. Localizada ao lado da EPTG, entre o Plano Piloto, o Guará e Taguatinga, a quadra foi concebida para oferecer moradia a servidores públicos, comerciários e trabalhadores de baixa e média renda em locais estratégicos e de fácil acesso ao trabalho.
A proposta arquitetônica previa a mistura de classes sociais por meio da distribuição de apartamentos de 30 e 60 metros quadrados, intercalados nos mesmos blocos. Os menores eram destinados à população de baixa renda, enquanto os maiores recebiam famílias de renda intermediária. Cada bloco compartilhava um “quintal comum” com equipamentos públicos como creche, escola, área de lazer, ambulatório e feira livre. O objetivo era promover a convivência comunitária e reduzir os custos com transporte coletivo, aproximando a moradia dos eixos de deslocamento do DF.
Segundo a pesquisadora Vanessa Cardoso, no artigo “A significância cultural e o caso das Quadras Econômicas Lúcio Costa” (2019), o projeto teve origem em uma proposta de Lucio Costa para Salvador (BA) na década de 1970, adaptada para o DF no contexto do documento “Brasília Revisitada”. Ela destaca que as quadras foram pensadas como experimento urbano, buscando oferecer moradias de baixo custo com qualidades urbanas semelhantes às das Superquadras: blocos com pilotis, arborização, comércios locais e espaços de convívio. Ainda segundo Cardoso, “o projeto das QELC carrega valores históricos, estéticos e urbanísticos que justificam seu interesse patrimonial, mesmo fora do perímetro tombado de Brasília”. A autora aponta ainda que as quadras representam uma experiência singular de urbanismo democrático, ao tentar promover a equidade social por meio do espaço físico e da arquitetura.
Para Vanessa Cardoso, a proposta das QELC incorporava a preocupação com a escala do pedestre, o acesso universal, a integração entre espaços de uso público e a noção de vizinhança. Ela ressalta que o projeto se opunha ao modelo segregador das grandes periferias urbanas e buscava uma solução integrada ao cotidiano do morador, com incentivo à autonomia dos núcleos habitacionais e à apropriação coletiva dos espaços.
Também a pesquisadora Candice de Albuquerque Tomé, em sua dissertação de mestrado “As quadras econômicas Lúcio Costa: um caso de habitação popular no Distrito Federal” (2009), oferece uma análise ainda mais detalhada sobre a gênese, implantação e evolução das quadras. Tomé aponta que o projeto se insere em um contexto de transição entre o modelo modernista clássico e os desafios urbanos dos anos 1980. Ela afirma que a proposta das QELC era uma forma de “urbanismo de resistência”, ao tentar manter os princípios fundadores de Brasília — como racionalidade, convivência e integração paisagística — mesmo fora da área tombada.
Segundo Candice Tomé, o próprio Lucio Costa reconhecia os limites da proposta, mas via nela um caminho possível para democratizar o acesso à cidade planejada. A autora destaca que o projeto sofreu alterações substanciais em sua execução, como a eliminação de pilotis em parte dos blocos, o fechamento de áreas originalmente previstas como livres e a construção de equipamentos comunitários em número inferior ao planejado. Ainda assim, para Tomé, as QELC representam uma das poucas tentativas concretas de aplicação dos princípios modernistas em habitação de interesse social no Distrito Federal.
A pesquisadora analisa também o processo de apropriação do espaço pelos moradores, destacando a ambiguidade entre a proposta oficial e o uso real. Ela observa que a flexibilização do projeto original, embora descaracterize parcialmente o desenho urbanístico, também revela a vitalidade e a resiliência da comunidade. “As práticas cotidianas reinventam o espaço”, escreve. “A permanência dos moradores e a adaptação dos usos demonstram que a quadra segue sendo um lugar de vida, não apenas de moradia”.
PARTE DO PROJETO BRASÍLIA REVISITADA
A proposta das quadras econômicas aparece originalmente no documento “Brasília Revisitada”, escrito pelo próprio Lúcio Costa entre 1985 e 1987 como atualização e diretrizes para o futuro da capital. No capítulo VII do relatório, dedicado ao tema “Habitação”, ele escreve: “Medidas deverão ser tomadas de modo a assegurar a permanência, dentro do Plano Piloto, das camadas menos favorecidas da população (…) e um dos meios mais eficazes de conseguir isto seria através da construção, em pontos adequados, de pequenos blocos de apartamentos econômicos — pequenos, porém dotados das mesmas qualidades ambientais das superquadras: arborização, silêncio, acesso fácil, escolas, comércio local, e, naturalmente, transporte.” Essa diretriz influenciou diretamente a concepção das QELC, que aplicaram tais ideias de forma experimental, fora do Plano Piloto, mas dentro da lógica de urbanismo integrador defendida por Costa.
Nos anos 1990, a área recebeu o projeto da Vila Tecnológica, implantado pelo governo do DF com apoio de institutos de pesquisa, que previam a construção de casas sustentáveis com materiais recicláveis. A ideia era que a vila servisse de laboratório de novas tecnologias aplicadas à habitação social, com reuso de água, captação de energia solar e técnicas construtivas de baixo impacto. No entanto, com o tempo, os moradores modificaram as casas, descaracterizando o experimento original.
Entre os desafios enfrentados pelas QELC, estavam também os conflitos entre as intenções do projeto urbanístico e as demandas práticas da população. A proposta de banheiros coletivos nos apartamentos menores foi abandonada, e a tipologia dos blocos foi alterada. Ao longo do tempo, os espaços originalmente pensados como coletivos foram sendo privatizados ou descaracterizados, como no caso dos jardins centrais que perderam seu uso comunitário.
ALTERAÇÕES COM O TEMPO
Ainda assim, a quadra Lúcio Costa conseguiu preservar parte de sua identidade original. O bairro foi asfaltado, recebeu iluminação, escolas, creche, equipamentos de lazer e um centro de convivência para idosos — o primeiro do Brasil. A creche comunitária, fundada por Joana de Jesus, conhecida como “Jô do Lúcio Costa”, atendeu centenas de crianças com apoio da própria comunidade. A liderança de moradoras como Jane Godoy, que coordena atividades da terceira idade, também ajudou a manter viva a vocação comunitária da quadra. É importante destacar também o trabalho da Associação de Moradores da Quadra Lúcio Costa (Ampluc), presidida atualmente por Patrícia Calazans.
Hoje, 38 anos depois de sua fundação, a quadra Lúcio Costa simboliza a capacidade de adaptação e resistência de um projeto urbano que, mesmo transformado, continua sendo lar e referência para milhares de moradores do Guará. Mais do que um bairro, é um testemunho vivo da utopia modernista de Lúcio Costa — uma tentativa de fazer do urbanismo uma ferramenta de inclusão e convivência.
Vila Tecnológica seria um projeto experimental. Que não deu certo
Em março de 2000, o governador Joaquim Roriz anunciava a criação de um projeto inovador e revolucionário para testar técnicas econômicas de construção, a ser implantado ao lado da quadra Lúcio Costa, também resultado de um experimento de habitação comunitária do governador José Aparecido.
De acordo com o projeto anunciado por Roriz, a Vila Técnológica iria testar construções em fibras vegetais, casca de arroz, cutícula de café, serragem, blocos de entulho de obras, painéis de isopor e outras técnicas em experiência no mercado. O mais promissor seria o de blocos de concreto construído com restos de obras, desenvolvido por uma empresa brasiliense. Para a execução do projeto, 14 empresas se apresentaram para participar da experiência.
Durante a assinatura da ordem de serviço para o início da obra, em tendas montadas onde é hoje a quadra, a então secretária de Desenvolvimento e Habitação, Ivelise Longhi lembrava que o projeto iria baratear o custo das habitações populares em até 40% e seria estendido a outros assentamentos habitacionais que o governo pretendia implantar. Pelo contrato, as 14 empresas teriam 120 dias para concluir as casas, mas apenas algumas conseguiram cumprir o acordo no prazo e outras abandonaram as obras inacabadas ou entregaram incompletas.
Projeto abandonado
Dois anos depois de anunciado o projeto inovador, que teria sido baseado em projeto semelhante desenvolvido em Curitiba, a Vila Tecnológica tinha a metade das casas construídas e outras iniciadas com as técnicas prometidas. O projeto havia em parte fracassado como foi idealizado, porque algumas construções apresentavam defeitos e apresentavam riscos aos seus ocupantes no futuro.
Como havia a promessa da casa própria aos servidores públicos, o governo resolveu entregar as casas como tinham sido construídas e permitir que cada morador fizesse as reformas como quisesse. Além das 85 casas com técnicas ecológicas, foram entregues mais 18 lotes a outros servidores.
Sem os resultados esperados, o próprio governador Joaquim Roriz e seu sucessor Cristovam Buarque abandonaram a ideia de estender o projeto de técnicas inovadoras de construção a outros assentamentos. De vila tecnológica, o conjunto tem apenas a denominação.
