A população idosa do Guará reflete uma tendência que se repete em todo o Distrito Federal: o envelhecimento progressivo da sociedade. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), elaborado com base na PDAD/2011, os idosos — pessoas com 60 anos ou mais — representam uma fatia significativa da população guaraense e trazem consigo características únicas que diferenciam a região das demais.
O Guará se destaca por ter a maior proporção de mulheres idosas entre todas as regiões administrativas do DF. Elas representam 61,9% dos idosos da cidade, superando a média distrital, que é de 56%. Essa realidade está diretamente relacionada à maior expectativa de vida das mulheres, fenômeno que se repete em diversas localidades, mas é especialmente marcante no Guará. Embora o estudo não traga o número absoluto de idosos na região, é possível situar o Guará entre as RAs de perfil intermediário, com percentual semelhante ao de Taguatinga (18,3%) e Gama (18,5%), bem acima das regiões de ocupação mais recente como Estrutural (3,2%) e Itapoã (4,4%).
Entre os idosos do Guará, 18,5% dos homens e 14,8% das mulheres possuem ensino superior completo. São números que indicam um nível de formação acima da média das regiões periféricas, mas ainda distante dos patamares observados em locais como o Lago Norte (74,2%) e o Lago Sul (72,4%). Em relação à renda, os dados não detalham a média específica do Guará, mas indicam que os idosos da região apresentam situação intermediária, com destaque para o fato de que 93% dos homens com mais de 60 anos são chefes de domícilio — um dos maiores índices do DF.

15% continua no mercado de trabalho
No aspecto do trabalho e da ocupação, o estudo aponta que 14,9% dos idosos do DF ainda estão no mercado de trabalho. No Guará, esse percentual acompanha a média, com participação relevante de idosos em atividades econômicas ligadas ao comércio e aos serviços, setores tradicionais da região. Outro dado que chama atenção é o acesso à saúde: 51,6% dos idosos guaraenses possuem plano de saúde privado, índice superior ao de muitas regiões e atrás apenas do Plano Piloto (84,8%) e do Lago Sul (90,7%).
Para o educador social e escritor Everardo de Aguiar Lopes, idealizador do “Ecoenvelhescência: Festival da Longevidade”, os dados confirmam o que ele já vinha observando na prática. “Ainda bem que essa nova pesquisa bate muito com o que eu venho dizendo há dois anos. O Guará é a região administrativa com maior possibilidade de ser a primeira a desenvolver uma Pedagogia ética intergeracional. Os números que confirmam ter mais mulheres nos ajudam neste sentido, porque as mulheres participam mais e interagem melhor socialmente. Estou de pleno acordo com essa pesquisa também neste item”, afirmou.
Segundo ele, a estrutura urbana do Guará também favorece essa construção: “O Guará reúne as melhores condições por contar com bons equipamentos públicos e locais de interação social que são orgulho da população: a Feira do Guará, duas estações de metrô, pracinhas, hospital, SESC, Casa de Cultura atuante e uma boa rede de restaurantes e cafés. Esse ambiente urbano é essencial para fortalecer as relações entre gerações”, defendeu.
O perfil traçado pelo IPEDF reforça a importância de políticas públicas voltadas ao envelhecimento ativo, com foco em saúde, mobilidade, inclusão digital e acesso à cultura e ao lazer. No caso do Guará, onde há uma proporção significativa de mulheres idosas e uma boa infraestrutura urbana, essas ações ganham ainda mais potencial. A tendência de envelhecimento da população impõe desafios crescentes à administração pública, mas também oferece oportunidades: a valorização da experiência dos idosos e sua inclusão nas decisões comunitárias são caminhos promissores para o fortalecimento do tecido social guaraense.
Mobilização pela melhoria do atendimento ao idoso
Carta aberta, assinada por moradores, profissionais e entidades parceiras, reivindica a criação de mais espaços no Guará para a terceira idade.
A Rede Social do Guará, formada por representantes de instituições públicas e organizações da sociedade civil, lançou recentemente uma Carta Aberta reivindicando a criação e ampliação de serviços voltados ao atendimento e cuidado da população idosa no Guará e regiões próximas. A iniciativa, que conta com a adesão de moradores, profissionais e entidades parceiras, é dirigida à Câmara Legislativa do Distrito Federal, Administração Regional do Guará, Conselho do Idoso do DF, Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), Departamento de Polícia do DF (DPDF), Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDES) e Secretaria de Estado de Saúde (SES).
A Rede Social do Guará, que atua há 17 anos, é uma rede colaborativa com o objetivo de fortalecer ações de promoção da qualidade de vida da população, prevenir situações de violência, garantir direitos e articular serviços ofertados no território. Entre seus objetivos estão unir esforços para efetivação de políticas públicas, trocar experiências e compartilhar informações, propor ações de prevenção e enfrentamento às diversas formas de violência, além de apoiar iniciativas que ampliem direitos e acesso a serviços socioculturais para públicos prioritários, como mulheres, crianças/adolescentes e idosos.
As reuniões da rede ocorrem mensalmente, toda primeira terça-feira, no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), e contam com encontros adicionais de estudo de caso ao longo do mês, com o objetivo de atender de forma mais eficaz a população do Guará. A rede é composta por representantes de diversas instituições, incluindo Conselhos Tutelares do Guará e do SIA, UBS, MPDFT, CRAS, CREAS Núcleo Bandeirante, PROVID – PMDF, CEPAV Primavera, CAPS AD, Direito Delas – SEJUS, Hospital Regional do Guará (HRGU), Coordenação Regional de Ensino do Guará, GEAMA/SEJUS, TJDFT, Fiocruz Brasília, APAE Guará, Centro Santo Aníbal, entre outros serviços e organizações da sociedade civil.
Maioria da população do Guará é de idosos
Segundo dados do PDAD 2024, a população urbana do Guará é de 142 mil habitantes, sendo 54,4% mulheres. Em 2021, a população idosa (60 anos ou mais) representava 18,54% da população, percentual próximo ao do Plano Piloto, que tinha 18,59% de idosos. O Informe Demográfico do IPEDF (2024) projeta que a população do DF crescerá até 2042, chegando a cerca de 3.118.159 habitantes, e que em 2070, a população idosa do DF representará cerca de 40% do total. Esses números evidenciam a necessidade urgente de implementar e ampliar serviços voltados à população idosa, especialmente em regiões onde o crescimento desse grupo é expressivo, como o Guará.
A Carta Aberta da Rede Social do Guará contextualiza a situação demográfica local e o isolamento social enfrentado por muitos idosos, especialmente mulheres. Ela destaca que os serviços atualmente existentes, como os Centros de Convivência do Idoso (CCI) localizados no Complexo Administrativo e Vivencial (Cave), próximo à Administração Regional, e na região do Lúcio Costa, estão subutilizados, e que a demanda por serviços de convivência e acolhimento continua alta.
Diante desse cenário, a Rede reivindica a ampliação de serviços essenciais para a população idosa, incluindo: criação de um Centro Dia para Idosos no território do Guará; criação de um Centro de Convivência voltado à execução do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo; ampliação de vagas em unidades de acolhimento para idosos sem vínculos familiares ou comunitários; e reforço das equipes dos serviços voltados para pessoas idosas, incluindo UBS, CRAS e CREAS.
Violência na família
A rede ressalta que, embora a prioridade seja o fortalecimento de serviços de base territorial, como o Centro Dia e o Centro de Convivência, a ampliação de vagas de acolhimento permanece essencial, pois muitos idosos sofrem violência no âmbito familiar, e o acolhimento pode ser a única proteção viável no momento. A expectativa da Rede é que, com a oferta adequada de serviços de base territorial, a demanda por acolhimento seja gradualmente reduzida.
A iniciativa da Rede Social do Guará evidencia o papel da comunidade organizada na defesa de políticas públicas inclusivas e de qualidade, buscando garantir direitos e promover a qualidade de vida e proteção da população idosa. A mobilização da população e o engajamento na assinatura da Carta Aberta são considerados passos fundamentais para fortalecer e ampliar o atendimento desse grupo prioritário.
A população pode acessar e assinar a Carta Aberta por meio do link:
https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR153943