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Como é a vida sem CELULAR NAS ESCOLAS

Comunidade de escolas públicas e particulares do Guará analisa as mudanças no comportamento de alunos após a proibição obrigatória de uso dos aparelhos em período de aulas

Por Elsânia Estácio

O sinal toca e os alunos seguem para a sala de aula sem os celulares nas mãos. A cena, que antes parecia difícil de se imaginar em muitas escolas, passou a ser realidade desde janeiro, quando entrou em vigor a Lei 15.100/2025, sancionada pelo presidente Lula, que proíbe o uso de aparelhos eletrônicos por estudantes nas redes pública e privada. A medida reforça a Lei Federal 14.846/2024, que já restringia os dispositivos apenas às atividades pedagógicas autorizadas. O objetivo é combater a dispersão causada pelo uso constante do celular, que vinha comprometendo a atenção, o rendimento escolar e a convivência entre os alunos.

“Notei mais atenção da minha filha nas matérias e maior interação com os colegas. A ausência do celular abriu espaço para o pensamento se expressar”, avalia Paloma Alves da Rocha, moradora do Guará e mãe de uma aluna do sétimo ano do CEF 10.

Os primeiros efeitos da medida já aparecem na rotina escolar. De acordo com relatório divulgado pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), com as percepções de professores, gestores e demais profissionais da educação básica de todas as Coordenações Regionais de Ensino (CREs) do DF, 85% reconhecem algum nível de impacto positivo, sendo que 45% apontam uma melhoria significativa e 40% identificam melhorias parciais. Apenas 11,7% afirmaram não perceber nenhuma mudança, enquanto 2,8% consideraram que a contribuição foi pequena, com relatos de tensão e resistência entre os estudantes. Outro dado importante é que 41% dos alunos apresentaram reações emocionais negativas diante da ausência do celular.
Além dos aspectos relacionados à aprendizagem, as relações sociais também foram impactadas. Segundo o mesmo levantamento, 46,7% dos profissionais relataram aumento no diálogo, fortalecimento dos vínculos e maior interação entre os estudantes durante os intervalos. Entre os temas apurados, destaca-se a percepção dos docentes sobre os efeitos da proibição dos celulares na aprendizagem e nas relações sociais dos estudantes, além do engajamento durante as aulas.

Elizabeth Neves, diretora do CEF 10. explica que “quando
o celular é usado de forma indevida, é recolhido. Só os responsáveis podem retirá-lo”, explica
Para o professor Lucas Aryel, a ausência
dos celulares trouxe debates mais críticos e
perguntas mais profundas em sala de aula

Experiências nas escolas do Guará
No Colégio Projeção, no Guará II, a adaptação à nova regra exigiu paciência e diálogo, como lembra o coordenador pedagógico Ricardo Lima. “O início foi desafiador, mas aos poucos mostramos à comunidade escolar os ganhos que a norma poderia trazer. Hoje as reclamações diminuíram e notamos avanços significativos”, afirma. O coordenador disciplinar Márcio Soares também observa mudanças perceptíveis na rotina escolar.

Segundo ele, os professores passaram a ter maior domínio da dinâmica em sala e o número de distrações caiu bastante, facilitando o processo de ensino-aprendizagem. “A ausência de interrupções constantes tem feito o tempo render mais”, explica. Já o professor de redação Lucas Aryel destaca que a qualidade das discussões em sala também melhorou. “As perguntas dos alunos ficaram mais profundas. Antes, muitos recorriam a aplicativos e inteligência artificial para respostas rápidas e superficiais. Agora, o conhecimento é construído coletivamente, com mais criticidade”, aponta.
No Centro de Ensino Fundamental 10 (QE 46) do Guará II, a diretora Elisabeth Caetano Neves avalia que a resistência maior veio dos estudantes, mas que o processo tem avançado. “Os alunos perceberam a diferença no aprendizado quando deixam o celular de lado e muitos já colaboram com a regra. Entre os pais, não houve oposição direta, mas ainda enfrentamos situações em que ligam para os filhos durante as aulas. Nesses casos, recolhemos o aparelho e explicamos à família a importância de não interromper a rotina escolar”, avalia.

“O celular oferece estímulos imediatos. A aprendizagem exige foco e continuidade. O segredo é propor atividades criativas e coletivas”, defende Welton Dias de Lima, pedagogo.
O coordenador Ricardo Lima lembra que a adaptação à lei exigiu paciência e diálogo

Elisabeth ressalta que os resultados são visíveis. Segundo ela, hoje os estudantes interagem mais entre si, voltaram a frequentar a biblioteca, jogar xadrez e outros jogos, e participam mais das aulas. “Antes, os intervalos eram marcados por fileiras de estudantes isolados, cada um no seu celular. Agora, eles conversam, brincam e participam mais. Dentro de sala, também estão mais atentos, questionadores e dispostos a interagir com os professores”, relata. A vice-diretora da escola Michele Evangelista de Barros explica que a adaptação foi feita com diálogo e organização. Segundo ela, primeiro os professores foram orientados a cobrar o cumprimento da lei em sala de aula e, em seguida, as famílias e alunos foram informados sobre as medidas da escola. “Se o celular toca ou é usado de forma indevida, recolhemos e guardamos em um cofre na direção, só sendo devolvido aos responsáveis. A regra é clara: o aparelho deve permanecer desligado ou no silencioso, guardado na mochila, e só pode ser utilizado em atividades pedagógicas autorizadas pelo professor”, explica.

 

“A ausência de interrupções constantes reduziu distrações e fez o tempo em sala render mais”, destaca Márcio José Magalhães de Souza, assistente de direção e coordenador disciplinar.

A visão das famílias sobre as novas regras
Entre os pais e alunos, a mudança também gerou reflexões distintas. Para Paloma Alves da Rocha, moradora do Guará e mãe de Luiza Alves Lima, 12 anos, aluna do 6º ano do CEF 10, a experiência tem mostrado resultados positivos. Paloma conta que notou mais atenção da filha às matérias e maior interação com os colegas. “Isso elevou algumas notas no boletim, embora também tenha surgido um aviso de conversa paralela. Creio que seja consequência da falta do aparelho na mão. Com a atenção livre, o pensamento encontra mais portas para ser expresso. Coube a mim e meu marido pontuar esse aspecto e aguardar o próximo boletim”, relata. Mas a estudante Luiza tem uma visão crítica sobre a aplicação da regra. “Eu mesma fiquei muito tempo sem aparelho, mas percebi que, mesmo com o celular, é possível prestar atenção na aula. Se ele atrapalha, então os professores poderiam buscar formas de tornar as aulas mais atrativas, de um jeito que desperte interesse. Assim, não teríamos que lidar com esse problema”, afirma.
Já Pedro Henrique Leão, 17 anos, aluno do 9º ano do CEF 10 considera positiva a restrição do uso de celulares dentro das escolas, apontando que a medida contribuiu para reduzir distrações e aumentar a concentração nas aulas. “Quando começou essa regra, percebi que seria melhor para os alunos. Muitos deixavam de estudar para ficar no celular, jogando em sala, e isso atrapalhava o professor’, avaliou o estudante, que também é representante de turma. O pai de Pedro, Clayson Leão, compartilha da mesma visão. Ele defende que o celular é útil em situações específicas, mas não deve ser usado em sala de aula. “Sou contra o uso de celular em sala. Ainda sou da moda antiga e acredito que, apesar de ser importante para a comunicação, dentro da escola não há necessidade, porque tira totalmente a concentração. Tenho total confiança no meu filho e sei que ele se comunica comigo quando precisar”.
No Colégio Projeção, a estudante Laís Silva Marques, do 3º ano do Ensino Médio, também destacou que os impactos da medida tem seus prós e contras. “O único contra é que às vezes a gente quer ouvir música no intervalo ou ver um vídeo e não é permitido. Mas os prós são muitos, a falta do celular aumenta a interação entre a turma, o foco nas aulas e diminui a ansiedade de estar mexendo nele durante o tempo de aula. Isso faz com que muitos alunos se dediquem mais, principalmente nas matérias em que têm dificuldade”, relata. A mãe da estudante, Brenda Silva Gomes, avalia que a mudança estimula hábitos mais saudáveis. “Acho super válido porque visa aumentar o foco nas aulas, a socialização, a prática de atividades físicas e o uso da criatividade. Sempre que vejo matérias sobre o tema, ouço relatos de crianças e adolescentes admirados por se sentirem melhor sem o aparelho”.

Representante de turma e estudante do 9º ano no CEF 10, Pedro Henrique Leão considera positiva a proibição do celular nas escolas e destaca a melhora na concentração e no ambiente de aprendizagem.
Estudante do 3º ano do Ensino Médio no Colégio Projeção, Laís Silva Marques avalia que a ausência do celular em sala trouxe mais foco, interação com os colegas e dedicação aos estudos.
Com olhar crítico sobre a nova regra, Luiza Alves Lima, 12 anos, aluna do 6º ano do CEF 10, acredita que o desafio está em tornar as aulas mais atrativas, mesmo com a proibição do celular.

Impactos no desenvolvimento
A educadora parental e pós-graduada em neuropsicologia, Bianca Schroeder, lembra que os impactos do uso excessivo de telas vão além da escola. “O uso prolongado compromete a interação social, prejudica a criatividade, afeta o sono e pode até gerar sintomas semelhantes a transtornos como TDAH. Mesmo desligado, o celular exerce a pressão de que algo pode estar acontecendo. Isso atrapalha o foco, especialmente entre adolescentes”, explica. Segundo ela, pais e educadores devem estar atentos a sinais como queda no rendimento escolar, irritabilidade, dificuldades de socialização e até comportamentos agressivos. “É um comportamento semelhante à dependência química, em que a ausência da dopamina liberada pelas telas provoca sintomas de abstinência”,.

O olhar pedagógico
Para o pedagogo Welton Dias de Lima, o celular é uma ferramenta ambígua. Ele reconhece o potencial do recurso, mas ressalta que, no cotidiano escolar, sua presença tem provocado mais dispersão do que aprendizagem. “Muitos professores relatam dificuldade em manter a atenção dos estudantes quando o aparelho está presente. Não se trata apenas de proibir, mas de ensinar o uso consciente”, avalia. Welton identifica três desafios principais no processo de adaptação: a resistência dos estudantes, a falta de alternativas atrativas para ocupar o tempo ocioso durante os intervalos e o alinhamento com as famílias, que muitas vezes veem no celular uma forma de segurança e comunicação com os filhos. Para ele, os resultados positivos dependem também da criatividade do professor em propor metodologias diferenciadas. “O celular cria uma concorrência desigual com o professor, porque oferece estímulos imediatos, enquanto a aprendizagem exige foco e continuidade”, analisa.
Como alternativa, o pedagogo defende práticas de educação desplugada, com jogos, oficinas culturais, debates e projetos colaborativos. “Quando o aluno participa de atividades criativas e coletivas, não sente falta do aparelho. O segredo é transformar o tempo sem celular em oportunidade de aprendizagem, convivência e desenvolvimento humano”.

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