Bons tempos aqueles em que o Estádio do Cave era a principal atração das manhãs de domingo no Guará. Em uma época sem internet e sem transmissões internacionais na televisão, os jogos do Clube de Regatas Guará eram o principal programa de lazer para quem gostava de futebol. Assistir ao Lobo da Colina jogar significava reencontrar amigos, reunir pais e filhos e ocupar as arquibancadas vestindo as cores preta, amarela e branca, em um ambiente marcado por convivência e identidade local.

O clima era de festa. Enquanto a torcida gritava o tradicional “lôôôbôôô…”, vendedores ambulantes circulavam com churrasquinhos e bebidas, e o estádio se transformava em ponto de encontro da cidade. No intervalo das partidas, o público acompanhava os sorteios comandados pelo locutor oficial Heleno Carvalho, que distribuía rapadura, queijo, brindes oferecidos pelos feirantes da Feira do Guará e até bicicletas para as crianças, estratégia que ajudou a atrair famílias e formar uma nova geração de torcedores.
Pode-se dizer que o Clube de Regatas Guará revolucionou a forma de aproximar a torcida do futebol brasiliense, então incipiente e semi-amador. Em um cenário dominado por clubes mantidos por mecenas, pouco preocupados com público ou identidade, o Guará apostou na presença popular e construiu uma relação direta com a comunidade. Ao lado de Gama e Ceilândia, era um dos poucos times com torcida própria, registrando médias entre 1,5 mil e 3 mil pessoas por jogo no Cave, número elevado para a realidade do Distrito Federal à época.
Reforços e conquistas
Dois fatores alimentaram essa paixão: a localização estratégica do estádio, ao lado da Feira do Guará, e a política dos dirigentes de reforçar o elenco com jogadores conhecidos do futebol brasileiro, mesmo em fim de carreira. Vestiram a camisa do Guará nomes como Beijoca, Ailton Lira, Dema, Mauro e Ataliba entre o fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, seguidos por Josimar, Nunes e Lela, além de Éder Aleixo e Lúcio, em 1996. O clube também contou com técnicos consagrados, como Djalma Santos e Brito, campeões mundiais pela Seleção Brasileira.
Esse projeto esportivo manteve o Guará entre os principais clubes do futebol local durante anos. Antes de conquistar o Campeonato Brasiliense de 1996, o primeiro e único de sua história, o Lobo da Colina foi quatro vezes vice-campeão entre 1990 e 1995 e figurou com frequência entre os primeiros colocados. Também disputou a terceira divisão do Campeonato Brasileiro e chegou a participar da Copa do Brasil, quando enfrentou o Internacional no Estádio Mané Garrincha.
Começo do fim
A trajetória de alegria, no entanto, começou a ruir a partir de ingerências políticas, terceirizações malsucedidas e sucessivos problemas administrativos. Licenciado em 2013, o clube acabou definitivamente desfiliado da Federação Brasiliense de Futebol em 2016, encerrando suas atividades após quase seis décadas de existência. Endividado, o Guará perdeu patrimônio significativo, incluindo o terreno onde hoje está a Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante, e o direito sobre o Clube de Vizinhança do Guará I.
Fundado em 1957, antes mesmo da inauguração de Brasília, o Clube de Regatas Guará era considerado um dos grandes do futebol local, ao lado de Brasília, Tiradentes, Taguatinga e Gama. Seu desaparecimento representou não apenas o fim de um time, mas a perda de parte da memória esportiva da cidade.
Para os torcedores mais saudosistas, não há hoje perspectiva concreta de retorno do Lobo da Colina aos gramados. A única possibilidade seria a criação de um novo clube que herdasse o nome, as cores e parte da torcida, hipótese diretamente ligada à regularização do Estádio do Cave, processo que se arrasta há mais de uma década.
Estádio, só ruínas A decadência do clube foi acompanhada pela deterioração do próprio estádio. Tentativas de reforma e de transformação do Cave em arena multiuso fracassaram após erros de projeto, abandono de obras e falta de recursos. Posteriormente, a proposta de concessão do complexo à iniciativa privada também não avançou, travada entre diferentes órgãos do governo e o Tribunal de Contas do Distrito Federal.