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Mobilização em defesa do Parque do Guará

Tentativa de inclusão de Reserva Biológica na capitalização do BRB provocou indignação e reação de moradores e lideranças da cidade

A tentativa de inclusão de duas áreas que formam a Reserva Biológica (Rebio) do Guará no pacote de salvamento do BRB provocou indignação e, principalmente, um sentimento de pertencimento por parte dos moradores da cidade pelo pulmão verde de 340 hectares, que, até então, não era tão evidente. Assim que a primeira versão do projeto chegou à Câmara Legislativa e foi tornada pública pela imprensa, com a inclusão das duas áreas do Guará e do Centro Administrativo (Centrad) como garantia de capitalização e de empréstimo para cobrir o rombo provocado pela desastrada negociação entre o BRB e o Banco Master, uma verdadeira corrente de indignação se espalhou por grupos de WhatsApp, Facebook e Instragram locais, mobilizou lideranças comunitárias e políticas, num movimento que a comunidade guaraense tinha pouco visto. Essa forte mobilização levou o governo a retirar as duas áreas da segunda versão que foi apresentada e aprovada pela Câmara Legislativa, mas não aplacou a indignação do morador e até teve seu lado positivo ao despertar nele essa curiosidade em conhecer o que é a Reserva Biológica e a importância do Parque Ezechias Heringer, o Parque do Guará, para o equilíbrio do meio ambiente em que vive.
Além das críticas acaloradas nas redes sociais, a defesa do parque mobilizou políticos com ligação direta e indireta com o Guará, até porque é mais um tema para ser explorado na campanha política que está se aproximando. E, por parte das lideranças comunitária, ressuscitou o Fórum em Defesa do Parque do Guará, que estava dormindo há algum tempo.

Guaraense usa pouco seus parques
Embora seja a região administrativa fora do Plano Piloto mais contemplada em quantidade de parques no Distrito Federal, a população guaraense pouco usufrui do que dispõe. Os três parques da cidade, Ezechias Heringer, ou Parque do Guará, Parque Denner (entre o Polo de Moda e o condomínio Bernardo Sayão), e Bosque dos Eucaliptos (entre as QEs 38, 42, 44, 52 e 56) são pouco frequentados, em parte por falta de melhor estrutura, por medo da falta de segurança, mas, principalmente, por desinformação sobre o que elas oferecem.
Muitos dos moradores da cidade ainda preferem se deslocar para o Parque da Cidade (no Plano Piloto), o parque da Água Mineral, ou caminhar no calçadão do Guará II, onde o risco de contaminação é muito maior por causa da quantidade de praticantes de caminhada se esbarrando, sem contar o gás carbônico ingerido, proveniente dos carros que circulam em volta.
A estrutura oferecida pelo Parque do Guará pode ser considerada boa e aos poucos está sendo usufruída pelos moradores, que estão aumentando o hábito de jogar na quadra de esportes, levar os filhos para brincar no parque infantil ou correr e caminhar na pista de caminhada, implantadas através de parcerias com a iniciativa privada. Além da pista com calçamento apropriado para o pedestre, existe também uma trilha por terra, onde pode se apreciar a vegetação do parque. Mas a quantidade de pessoas que usa essa estrutura ainda é pouca pelo que ela oferece e pela demanda da cidade por mais espaços de lazer e saúde.

Fruto de compensação ambiental
Essa estrutura do Parque do Guará melhorou bastante nos últimos anos, fruto de acordos de compensação ambiental negociados entre o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e incorporadoras que construíram ao lado do parque, na área conhecida como Park Sul, ou Setor de Oficinas Sul, entre o Carrefour, Casa Parque e Viplan. Dinheiro público praticamente nada foi investido lá ainda.
Entretanto, a maior parte do Ezechias Heringer não tem condições de ser usufruída pelos usuários, porque envolve a parte que era ocupada por cerca de 70 chacareiros que estavam lá há mais de 30 anos e que foram desalojados no governo Rodrigo Rollemberg depois de tolerados por governos anteriores. Com a retirada, a mata está sendo naturalmente recomposta, mas o mato alto impede a circulação além das pistas de caminhada.
O Parque Ezechias Heringer teve sua área aumentada de 304 para 346 hectares como compensação pela liberação da Área 28-A, ao lado do ParkShopping, para que o governo pudesse vendê-la à iniciativa privada. A nova área do parque incorpora uma zona de amortecimento do impacto ambiental da cidade, próxima ao Cave, atrás do 4º Batalhão de Polícia Militar, e ao longo da via de acesso à QE 46, já cercada.

Parque Denner sofre com a falta de segurança
Com apenas 2,7 hectares, o Parque Dener foi criado para preservar uma nascente e um lago remanescentes da implantação do Polo de Moda e do condomínio Bernardo Sayão, e oferece boas opções para uso, mas o aumento do tráfico e do consumo de drogas dentro de sua área afasta os frequentadores, principalmente à noite, mas pode ser usado com segurança durante o dia. Embora pequeno, o parque oferece uma razoável estrutura, composta por uma pista de caminhada, equipamentos de ginástica e uma quadra de esportes.
A Administração Regional do Guará, responsável pela administração do parque, promete investir na construção de uma sede para abrigar vigilantes e pessoal de conservação, controlar o acesso, e construir uma trilha em volta da cerca, para estimular o uso pelo população em volta.

Bosque dos Eucaliptos ainda sem estrutura
Uma área de 30 hectares que deveria ter sido transformada num parque vivencial e ecológico para atender a uma população de cerca de 20 mil habitantes, ainda não oferece estrutura para uso. Por enquanto, o que existe lá é o que restou da degradação provocada por invasões antigas e ações de carroceiros e consumidores de drogas, e cerca de 1.200 mudas de plantas nativas, plantadas por voluntários.
Mas o governo promete finalmente investir na revitalização do Bosque dos Eucaliptos, começando pela aplicação de recursos disponíveis no Instituto Brasília Ambiental (Ibram), no valor de R$ 880 mil, que será usado para o cercamento – a cerca antiga foi toda furtada – e a criação de estrutura mínima para uso dos moradores.

 

Reativado o Fórum Permanente em Defesa do Parque

Tentativa de privatização da Rebio desperteu lideranças
comunitárias para a necessidade de se organizar para evitar novas surpresas. Lideranças cobraram fiscalização, aplicação do plano de manejo e proteção da Reserva Biológica do Guará

Moradores, lideranças comunitárias e participantes históricos da defesa ambiental do Guará se reuniram na noite de terça-feira, 3 de março, em frente à Administração Regional, para retomar o Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará. Convocado em caráter emergencial, o encontro teve como objetivo reorganizar a mobilização diante de tentativas de privatização, como a do Rebio, de invasões, degradação e pressões por mudanças legais que possam atingir o Parque Ezechias Heringer e a Reserva Biológica do Guará (Rebio), áreas apontadas como estratégicas para a proteção de nascentes e para o equilíbrio climático da região.
Logo no início, a produtora cultural Jussara Almeida, presidente do Clube do Blues de Brasília e moradora do Guará desde a década de 90, destacou o clima de reencontro entre antigos defensores da área e defendeu que a retomada do fórum se traduza em decisões práticas. Jussara também propôs ações de aproximação da comunidade com o parque, incluindo uma caminhada organizada no próprio Ezechias Heringer, com famílias e atividades que incentivem o pertencimento. “Uma caminhada no próprio parque do Guará. As pessoas conhecerem o parque. Vamos passar um dia no parque”, sugeriu. Para ela, a retomada do fórum deve caminhar junto com articulação institucional, como uma ida à Câmara Legislativa para cobrar providências.
Um dos principais resgates históricos do encontro foi feito por Waterman Gama Dias, que relatou a mobilização iniciada em 2009 quando, segundo ele, o parque teve sua integridade ameaçada por ocupações e por propostas no planejamento urbano da época. Ele afirmou que a organização comunitária ajudou a consolidar a situação jurídica da unidade. “Nós conseguimos legalizar o parque, é o parque mais legítimo de Brasília: ele tem escritura registrada em cartório, tem poligonal, tem plano de manejo, tem conselho gestor”, declarou. Para Gama, a reativação do fórum é uma resposta necessária à pressão recorrente sobre uma área que ele classificou como alvo de cobiça imobiliária, por estar entre regiões valorizadas e próxima ao fim da Asa Sul.
Gama também defendeu que o debate vá além da contestação de propostas que ameacem o parque e inclua cobranças por infraestrutura e presença do poder público. Segundo ele, o parque segue degradado e com carência de equipamentos, apesar do aumento de frequentadores. “Nós estamos aproveitando o momento para nos organizar novamente e reivindicar melhorias. O administrador desse parque é o IBRAM”, afirmou, ao citar a necessidade de atuação do órgão na manutenção e fiscalização. Ele ressaltou ainda a importância ambiental do local ao mencionar as nascentes e o papel do parque no microclima do Guará. “O Guará está adensado. E esse parque é nossa salvação”, disse.
A líder comunitária Juliana Regina Krause, integrante do Coletivo Mulherau e presidente do PCdoB no Guará, relatou que a discussão ganhou sentido pessoal ao envolver sua família. Ela contou que o filho, Ernesto, reconheceu o tema e reagiu ao convite para o encontro. “Mãe, esse parque é o nosso parque? É o parque que a gente frequenta? A gente precisa fazer alguma coisa”, relatou. Juliana afirmou que a preservação do parque se conecta à perda de áreas verdes no Guará e à necessidade de garantir retorno social quando espaços públicos são pressionados por interesses privados. “Toda vez que a gente está em risco, toda vez que o governo precisa negociar, qual é o lugar que eles colocam? O nosso parque”, afirmou.

Reativação do Fórum é liderada por Klécius Oliveira, com a ajuda de lideranças com forte ligação com o Parque

Plano de manejo, invasões e papel do poder público
Jefferson Maximino Pinto, morador nascido e criado no Guará e integrante do fórum, afirmou que o debate precisa ser entendido como defesa do meio ambiente do bairro como um todo, incluindo a Rebio. “Não é só o parque, é o meio ambiente, o Guará também é o nosso meio ambiente, onde a gente vive”, afirmou. Ele avaliou que o risco atual envolve áreas com grau ainda maior de proteção ambiental e alertou para mudanças graduais que podem abrir caminho para flexibilizações futuras.
Jefferson também retomou a defesa de estratégias para aumentar a presença de moradores no entorno do parque, como forma de uso público e monitoramento social. Ele voltou a citar a ideia de uma ciclovia ou ciclofaixa conectada ao parque, proposta discutida em etapas anteriores do movimento. “A população vai estar lá, caminhando, andando de bicicleta e vigiando isso tudo”, afirmou.
O encontro teve relatos de moradores que acompanham de perto situações de ocupação irregular. Getúlio Cardoso Pereira , líder comunitário da QE 5 do Guará I, disse que vive ao lado da Rebio na Área 29 e descreveu o acompanhamento de casos de invasão, com sucessivas comunicações a órgãos públicos. “A nossa reserva biológica tem que ser protegida”, afirmou. Getúlio também lembrou que a regularização do parque foi fruto de mobilização coletiva e cobrou atuação efetiva de órgãos de fiscalização. “Nós temos que nos unir e fazer força para que o IBRAM e o DF Legal realmente trabalhem, não fique só na conversa”, declarou. Ele criticou ainda a falta de estrutura para o encontro, que aconteceu do lado de fora. “É uma grande vergonha nós estarmos aqui no meio da rua”, disse.
A presidente da Associação de Moradores do Setor Lúcio Costa, Patrícia Calazans, ampliou a discussão para o conjunto de áreas verdes da região, incluindo parques vizinhos e a própria Rebio. “A minha defesa hoje não é só pelo Parque Ezechias Heringer, não só pelo Parque dos Eucaliptos, não só pelo Parque Denner, mas por todo o bioma do Guará”, afirmou. Para ela, o episódio que motivou a convocação do encontro deve ser tratado como alerta e precisa ser melhor divulgado entre frequentadores e moradores. “Era para estar lotado. O morador do Guará vive numa bolha”, criticou.
Patrícia também citou preocupação com ocupações no chamado Setor de Chácaras, ao redor do Lúcio Costa, e avaliou que a expansão urbana pressiona diretamente a Rebio. Ela mencionou que a reserva funciona como regulador térmico da região e se soma ao papel das nascentes na formação do Córrego Guará. “Nós temos um refrigerador natural, que é a Rebio. Se não fosse isso, imagina o calor”, afirmou. Ao propor os próximos passos, ela sugeriu que o fórum incorpore explicitamente a reserva no nome e no escopo de atuação. “Que esse fórum passe a abarcar não só fórum do Parque do Guará, mas fórum do Parque e Rebio Guará, para abraçar todo esse bioma”, declarou.
Ao final do encontro, os participantes defenderam que a reativação do fórum seja acompanhada de uma agenda de encaminhamentos, com novas reuniões, comunicação mais ampla com a população e cobrança de políticas de preservação e infraestrutura. A avaliação predominante foi de que o parque e a Rebio seguem vulneráveis a invasões e a pressões por mudanças legais, o que exige acompanhamento contínuo da comunidade e resposta efetiva do poder público.

Administração não cedeu auditório
No final do encontro, o coordenador do movimento, Klécius Oliveira, criticou a decisão da Administração Regional de não ter cedido o auditório da sede para a reunião das lideranças para tratar da defesa do Parque. “A alegação é que o auditório estava em obras, que, aliás já tinham sido anunciadas como concluídas. Não se trata aqui de política, como eles imaginaram, mas de interesse dos moradores da cidade”, afirmou.

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