Por Aline Diniz
Mais do que uma data simbólica, o mês de março se consolidou como um período de reflexão e mobilização em torno dos direitos, das conquistas e dos desafios enfrentados pelas mulheres na sociedade. Inspirado pelo Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o período amplia discussões sobre igualdade de oportunidades, reconhecimento social e combate à violência de gênero.
No Guará, a proposta é transformar o mês inteiro em um momento de celebração e conscientização. Informações repassadas pela administração regional indicam que a cidade preparou uma programação especial ao longo de março, com atividades gratuitas voltadas ao bem-estar, à saúde e à integração social das mulheres.
A agenda reúne encontros culturais, ações educativas e iniciativas voltadas à qualidade de vida feminina em diferentes faixas etárias. Entre os destaques está uma série de encontros de dança voltados ao público da terceira idade, realizados nos dias 3, 10, 17 e 24 de março, no CCI e na Casa da Cultura do Guará II, com expectativa de participação de 100 pessoas por edição. A proposta é estimular o movimento, a convivência e o envelhecimento ativo.

Outra iniciativa é o projeto Ativamente 360°, que promove encontros dedicados ao cuidado integral das mulheres. As atividades incluem rodas de conversa, práticas físicas, palestras e ações voltadas à saúde emocional e mental, incentivando a autoestima, a troca de experiências e o fortalecimento da rede de apoio entre moradoras da região.
Encerrando a programação, no dia 29 de março será realizada uma grande ação ao ar livre, reunindo serviços de saúde, atividades culturais e oficinas terapêuticas. A expectativa é de que cerca de duas mil pessoas participem do evento, que contará com aferição de pressão arterial, vacinação, consultas oftalmológicas e atividades como bordado e outras práticas de expressão cultural.
Segundo o administrador regional, a programação foi pensada para ampliar o reconhecimento social das mulheres e estimular sua participação ativa na comunidade. “Essa programação reforça nosso compromisso com a promoção da saúde, bem-estar e protagonismo feminino. Queremos que todas as mulheres se sintam acolhidas, valorizadas e motivadas a participar dessas atividades que unem cuidado, cultura e diversão”, afirmou.
Educação e formação para a igualdade
A valorização das mulheres também passa por mudanças culturais que começam dentro das famílias e se fortalecem na escola. Para a educadora parental Bianca Schroeder, o mês de março é um convite para que as mulheres resgatem sua identidade e reflitam sobre seu papel na formação das próximas gerações.
“Para mim, o mês da mulher é um momento de olhar para dentro. Muitas vezes, a maternidade abafa vozes poderosas dentro de nós e passamos a ser apenas ‘a mãe de alguém’. É preciso lembrar que somos mulheres com desejos, sonhos e identidade”, afirma.
Em seu trabalho com famílias, Bianca observa que o exemplo dado pelos pais é determinante para a construção de relações mais igualitárias no futuro. “O exemplo é o melhor professor. O que você faz fala muito mais alto do que o que você diz”, destaca.
Ela também percebe mudanças no comportamento das famílias, especialmente na divisão de tarefas domésticas e na educação de meninos e meninas. “Muitas mães têm se preocupado em ensinar aos filhos atividades que antes eram consideradas ‘coisa de mulher’. Há um movimento maior para formar adultos capazes de se virar sozinhos, independentemente do gênero”, explica.
Na educação, o debate sobre os direitos das mulheres também ganha força. Para a diretora escolar Cynara Martins, a escola pública desempenha um papel fundamental nesse processo.
“A escola pública tem um papel essencial na formação de cidadãos conscientes e respeitosos. É nesse espaço que muitos estudantes começam a refletir sobre direitos, igualdade e justiça social”, afirma.
Segundo ela, o tema pode ser abordado de forma transversal no cotidiano escolar. “Promover debates, rodas de conversa e atividades educativas ajuda os estudantes a compreender a importância do respeito, da empatia e das relações baseadas na igualdade”, explica.
A diretora observa que as novas gerações demonstram maior abertura para discutir essas questões. “Hoje percebemos que os estudantes estão mais abertos ao diálogo e demonstram maior consciência sobre temas como respeito e igualdade”, diz.
Arte, acolhimento e redes de proteção
Outro eixo fundamental do debate sobre o Mês das Mulheres é o enfrentamento à violência de gênero. A jornalista e fotógrafa Ísis Dantas tem contribuído para essa discussão por meio da arte.
Moradora do Guará, ela é autora da exposição fotográfica “Marias”, em cartaz no Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região. A mostra reúne retratos e histórias de mulheres que conseguiram romper o ciclo da violência doméstica.
Segundo Ísis, o projeto nasceu a partir de sua própria experiência de vida. “Quis transformar essa dor em algo que ajudasse outras mulheres a ressignificarem suas histórias”, relata. Ao reunir dezenas de depoimentos, ela buscou destacar não apenas a dor, mas também a superação.
“Quis mostrar mulheres reais, com cicatrizes, mas donas de si. Apesar das dores, há muita vida após a violência”, afirma. Para a fotógrafa, a arte tem um papel essencial na conscientização social. “A arte, a comunicação e a educação são essenciais nesse processo. Precisamos investir em uma educação que promova respeito e igualdade”, ressalta.
No campo jurídico e institucional, o fortalecimento das redes de apoio também é considerado fundamental para que vítimas consigam romper ciclos de violência. A advogada e presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica, Adriana Sousa, destaca que o mês de março amplia a visibilidade do tema, mas o desafio permanece ao longo de todo o ano.
“Apesar de avanços importantes, como a Lei Maria da Penha, ainda precisamos melhorar a aplicação das leis, ampliar os serviços de atendimento às vítimas e investir em prevenção e educação”, afirma. Segundo ela, muitas mulheres ainda encontram obstáculos para denunciar.
“Medo do agressor, dependência emocional ou financeira e falta de informação sobre direitos são fatores que ainda dificultam que muitas vítimas rompam o ciclo da violência”, explica.
Para Adriana, a atuação conjunta de familiares, instituições e sociedade é essencial. “As redes de apoio oferecem acolhimento e orientação, ajudando a mulher a não enfrentar essa situação sozinha e a reconstruir sua vida com mais segurança”, destaca.
Ao reunir ações culturais, iniciativas de saúde e debates sobre educação e direitos, o Mês das Mulheres no Guará busca ir além das homenagens simbólicas. A proposta é ampliar a reflexão coletiva sobre igualdade, respeito e valorização feminina.
Mais do que celebrar conquistas históricas, março também se consolida como um convite para olhar para o presente e construir, de forma coletiva, caminhos que garantam mais dignidade, segurança e oportunidades para todas as mulheres.