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Rogério de Freitas Cunha – o homem que transformou o mutirão em cidade

No aniversário do Guará, revisitar a história da cidade é também lembrar das pessoas que ajudaram a tirá-la do papel. Entre esses nomes, um dos mais importantes é o de Rogério de Freitas Cunha, personagem central na criação do mutirão que deu origem a uma das experiências urbanas mais marcantes do Distrito Federal.
Foi Rogério quem idealizou e impulsionou o modelo de construção coletiva que ajudou a formar o Guará. Em um período em que Brasília ainda organizava sua expansão e buscava alternativas para abrigar trabalhadores transferidos para a capital, ele enxergou no mutirão uma solução prática, humana e inovadora. Mais do que erguer casas, a proposta buscava formar uma comunidade.
Antes de assumir funções ligadas diretamente ao projeto, Rogério de Freitas Cunha já falava sobre o sonho de promover em Brasília um grande mutirão habitacional. Na época, mantinha contato frequente com Wadjô da Costa Gomide, que depois viria a ser prefeito do Distrito Federal. Os dois já haviam trabalhado juntos, quando Rogério ocupava o cargo de chefe dos subprefeitos e Wadjô era subprefeito do Núcleo Bandeirante.
Em conversas anteriores à criação do Guará, Rogério compartilhava a ideia de implantar um modelo habitacional coletivo que também pudesse incorporar soluções modernas para a época, inclusive o uso da informática, área pela qual tinha grande interesse. Mais tarde, já à frente da administração do Distrito Federal, Wadjô retomou esse plano e confiou a Rogério a missão de ajudar a colocá-lo em prática.
Foi assim que, como superintendente da Novacap, Rogério Freitas Cunha passou a executar o projeto que se tornaria uma das bases da história do Guará.


Um sonho em meio à descrença
O começo, no entanto, não foi simples. Havia resistência, desconfiança e pouca gente acreditava que o projeto pudesse dar certo. A proposta parecia ousada demais para muitos, inclusive dentro do próprio governo. Rogério, porém, não recuou.
O mutirão, para ele, era mais do que uma solução administrativa. Era um ideal. Acreditava que a construção coletiva poderia unir esforço popular, planejamento urbano e senso de comunidade. O local escolhido para o projeto foi a área onde estava a Vila Guará, considerada estratégica por sua proximidade com a região de trabalho de muitos futuros moradores.
Para dar início ao processo, Rogério reuniu interessados dentro da Novacap e selecionou os primeiros participantes. A adesão cresceu rapidamente. À medida que o mutirão avançava, mais pessoas queriam participar. O que começou com um grupo reduzido logo despertou o interesse de muitos trabalhadores em busca da casa própria.
O mais marcante, segundo relatos da época, era o espírito coletivo que tomava conta da experiência. Os participantes não apenas trabalhavam juntos, mas também sugeriam mudanças, propunham melhorias e ajudavam a adaptar o projeto às necessidades reais de quem viveria ali. As casas e a própria dinâmica da ocupação foram sendo transformadas também a partir das contribuições dos pioneiros.
Era, ao mesmo tempo, uma obra física e uma construção social.

A cidade sonhada a cidade possível
Com o crescimento do mutirão, Rogério passou a enfrentar dificuldades políticas e administrativas. O projeto havia ganhado dimensão e visibilidade, e isso também trouxe tensões. Autor e principal executor da ideia, ele acabou se afastando da Novacap antes de ver plenamente consolidada a cidade que ajudou a idealizar.
Depois disso, foi para os Estados Unidos estudar informática, outra de suas grandes paixões. Quando retornou ao Brasil, encontrou um Guará diferente daquele que havia imaginado. Parte de sua concepção original havia sido alterada ao longo do processo. O ideal de uma cidade com forte integração entre os moradores e com um comércio plenamente voltado às necessidades locais, segundo ele, sofreu modificações.
Ainda assim, sua marca permaneceu. O papel de Rogério de Freitas Cunha na origem do Guará é incontornável. Seu nome está ligado a uma visão de cidade construída com participação, trabalho coletivo e senso de pertencimento.
Rogério morreu em 1985, quando atuava na Divisão de Informática do Tribunal de Contas do Distrito Federal. Partiu cedo, mas deixou um legado profundo. Sua trajetória se confunde com um dos momentos mais importantes da formação do Guará: o instante em que um projeto urbano começou a ganhar forma com as mãos e a esperança de seus próprios futuros moradores.
Em 2026, quando o Guará celebra mais um aniversário, lembrar de Rogério de Freitas Cunha é reconhecer que cidades não nascem apenas de decisões oficiais ou de obras planejadas em gabinete. Elas também nascem da obstinação de pessoas que acreditam em ideias coletivas e se dispõem a transformá-las em realidade.

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