
A circulação de novos vídeos de brigas entre adolescentes voltou a preocupar pais, moradores e educadores do Guará. O caso mais recente ocorreu na tarde de quinta-feira, 30 de abril, em frente ao Centro de Ensino Fundamental 2, na QE 7 do Guará I, após o fim das aulas. As imagens mostram duas estudantes envolvidas em uma agressão nas proximidades da escola, atrás de uma parada de ônibus, enquanto outros jovens assistem à cena.
A confusão teria começado depois de um desentendimento entre as adolescentes. A briga precisou ser interrompida por pessoas que passavam pelo local e por outras jovens que presenciaram a briga. O episódio se soma a uma sequência de registros semelhantes divulgados nas redes sociais, envolvendo estudantes e jovens em diferentes pontos do Guará nos últimos meses.
A Coordenação Regional de Ensino do Guará informou que os pais das duas alunas envolvidas foram chamados à Diretoria da escola para tratar sobre o assunto e para que providências sejam tomadas para evitar que casos semelhantes voltem a acontecer, mesmo fora do ambiente interno escolar.
A Secretaria de Estado de Educação respondeu ao Jornal do Guará, através de nota, “que a situação envolvendo estudantes do Centro de Ensino Fundamental 2 do Guará I ocorreu fora do ambiente escolar, após o término das aulas.
A equipe gestora da unidade tomou conhecimento do caso e realizou contato com os responsáveis ainda no mesmo dia. A escola dará continuidade ao acompanhamento na próxima segunda-feira, com atendimento das estudantes pelo Serviço de Orientação Educacional.
Os responsáveis informaram que não houve necessidade de atendimento médico. A Secretaria reforça que repudia qualquer forma de violência e segue atuando preventivamente para garantir um ambiente escolar seguro e acolhedor”.
Casos se repetem
A preocupação da comunidade aumentou nos últimos meses diante da repetição de episódios de violência em portas de escolas, praças e áreas públicas. Vídeos registrados no Guará I e no Guará II mostram jovens combinando confrontos, assistindo às agressões e, em alguns casos, incentivando as brigas. Moradores relatam sensação de insegurança e cobram maior presença das autoridades, especialmente nos horários de entrada e saída dos estudantes.
Um dos vídeos que gerou grande repercussão mostra jovens se agredindo em uma área verde entre o Edifício Consei e a QE 19 do Guará II, em uma espécie de luta improvisada, acompanhada por outros adolescentes. Em outro vídeo, um estudante foi agredido nas proximidades do Centro Educacional 1, entre as QEs 34 e 36. Também houve relatos de brigas na região do Polo de Moda, na QE 40, onde moradores relatam que grupos de jovens têm se reunido em áreas públicas, provocando temor entre famílias e comerciantes.
A lembrança de casos graves envolvendo adolescentes e jovens no Distrito Federal reforça o alerta. No Guará, a comunidade ainda recorda a briga entre estudantes do Colégio Rogacionista, na QE 38, ocorrida em setembro do ano passado, quando um aluno precisou de atendimento médico após ser agredido na saída da escola. O episódio teve grande repercussão e levou pais e moradores a cobrarem medidas preventivas mais firmes.
Influência das redes
Especialistas em comportamento juvenil apontam que a exposição constante de vídeos de agressões nas redes sociais pode estimular a repetição desse tipo de conduta. A busca por visibilidade, a pressão de grupos e a ausência de limites claros são fatores que agravam o problema. Para educadores, a prevenção depende da participação conjunta das famílias, das escolas e do poder público, com acompanhamento mais próximo da rotina dos adolescentes, inclusive no ambiente digital.
A psicóloga clínica e jurídica Andreia Calçada avalia que a formação da empatia e da responsabilidade passa pela mediação dos adultos. Segundo ela, crianças e adolescentes precisam compreender que seus atos têm consequências e que a violência não pode ser tratada como brincadeira ou espetáculo. A especialista também alerta para a necessidade de os pais acompanharem o conteúdo consumido pelos filhos na internet, onde vídeos de agressões muitas vezes circulam com comentários de incentivo ou deboche.
Ações nas escolas
Para enfrentar o problema, as secretarias de Educação e de Segurança Pública firmaram, em março, uma parceria para ampliar ações de prevenção à violência e promoção da cultura de paz nas escolas públicas do Distrito Federal. No Guará, cerca de 400 estudantes do ensino médio participaram de atividades ligadas à iniciativa, que inclui palestras, apresentações educativas e ações formativas sobre bullying, cidadania, direitos humanos, segurança no trânsito e convivência escolar.
Entre os programas previstos estão o Turminha Mais Segura, voltado aos anos iniciais do ensino fundamental, e o Programa Formativo de Promotores de Segurança Cidadã, direcionado a estudantes do ensino médio. A proposta é fortalecer a escola como espaço de diálogo e formar jovens capazes de atuar como multiplicadores de práticas de respeito e prevenção à violência.
A Coordenação Regional de Ensino do Guará também desenvolve ações específicas nas unidades da cidade. De acordo com a coordenadora regional, Karine Silva Pereira Rodrigues, o programa Vem Comigo oferece mentoria a professores e busca ampliar a conscientização dos alunos contra o estímulo à violência no ambiente escolar. A iniciativa começou no Centro de Ensino Médio 1, na QI 7, e está sendo estendida ao CEF 1, na QI 4, e ao CEF 8, na EQ 13/15.
Karine afirma que a violência no entorno das escolas também preocupa a Regional de Ensino. Segundo ela, a orientação às direções é identificar estudantes envolvidos em brigas e chamar as famílias para que acompanhem de perto a situação. Para a coordenadora, a internet tem contribuído para dar visibilidade e, em alguns casos, estímulo a esse comportamento, o que torna ainda mais necessária a participação dos pais e responsáveis.
Reflexos na comunidade
A sequência de episódios de violência tem provocado apreensão entre comerciantes, moradores e famílias da cidade. Em regiões próximas às escolas e áreas de convivência, moradores relatam mudança na rotina, principalmente nos horários de saída das aulas e durante encontros de grupos de adolescentes em praças e estacionamentos. Muitos afirmam evitar determinados locais no período da noite ou quando há grande concentração de jovens.
Para comerciantes do Guará, além da sensação de insegurança, as confusões também afetam o movimento em áreas próximas aos colégios e espaços públicos. Alguns relatam preocupação com a possibilidade de confrontos mais graves e cobram maior presença de policiamento preventivo e ações educativas permanentes.
Educadores destacam que o ambiente escolar também sofre impactos indiretos das brigas divulgadas nas redes sociais. Em muitos casos, conflitos iniciados na internet acabam sendo levados para dentro ou para o entorno das escolas, exigindo mediação constante das equipes pedagógicas. Professores e orientadores afirmam que o acompanhamento emocional dos estudantes se tornou um dos principais desafios enfrentados pelas unidades de ensino.
Além das ações de conscientização já iniciadas, escolas da cidade vêm reforçando conversas com alunos e famílias sobre convivência, respeito e uso responsável das redes sociais. A preocupação é evitar que a exposição de vídeos de agressões estimule novos episódios ou transforme a violência em forma de entretenimento entre adolescentes.