Há quem escolha um lugar para morar. E há quem tenha a própria história escrita pelas ruas onde nasceu. Para a arquiteta, urbanista e professora Natália Maria de Souza, o Guará é esse lugar. Filha de uma família que chegou à cidade em 1977, ela cresceu acompanhando a transformação da região e construiu uma relação que vai muito além do endereço: é um vínculo de pertencimento, memória e afeto.
Natália estudou no Colégio Rogacionista e no Centrão, viveu a infância nas quadras da cidade e viu o Guará crescer ao mesmo tempo em que crescia com ele. Hoje, como arquiteta, observa as mudanças urbanas com um olhar técnico, mas também com a sensibilidade de quem conhece cada canto da cidade desde pequena. Ela reconhece a evolução, embora admita sentir saudades de um Guará mais horizontal, com prédios baixos e uma paisagem mais próxima daquela que marcou sua infância.
Apesar das transformações, ela acredita que a cidade preserva aquilo que considera sua maior qualidade: a essência de uma cidade acolhedora. O comércio tradicional, onde muitos comerciantes conhecem gerações inteiras de moradores, o convívio entre vizinhos e a sensação de segurança e tranquilidade fazem com que o Guará mantenha um jeito de cidade do interior, mesmo estando no coração do Distrito Federal.
Outro motivo de orgulho é a presença constante das áreas verdes. Caminhar pelos parques, pela orla e encontrar árvores espalhadas pela cidade faz parte da rotina de Natália. Ela também faz questão de reconhecer o papel da comunidade na preservação desses espaços, lembrando que muitas conquistas só foram possíveis graças à mobilização de moradores que nunca deixaram de defender o patrimônio ambiental do Guará.
A vida cultural também ocupa um espaço importante em sua relação com a cidade. Ela destaca a tradição da Feira do Guará, os encontros de carros antigos, a Rua do Lazer — que acompanhou desde os primeiros eventos, quando ainda era conhecida como Rota 156 — e a identidade construída em torno da cultura reggae, que, segundo ela, traduz bem o espírito leve, acolhedor e comunitário dos moradores. Natália lembra, inclusive, que já participou dessas iniciativas vendendo artesanato, reforçando seu envolvimento com a vida cultural da cidade.
As raízes familiares ajudam a explicar esse sentimento. Foi no Guará que seus pais construíram a vida, criaram os filhos e estabeleceram a história da família. Também foi ali que Natália fez amizades que conserva até hoje, conheceu o marido e consolidou sua trajetória pessoal e profissional.
O amor pelo Guará é tão grande que acabou eternizado em uma tatuagem. No braço, ela carrega a imagem de um lobo-guará, símbolo da cidade e da ligação que mantém com suas origens. Para Natália, independentemente de onde a vida possa levá-la no futuro, o Guará sempre será o lugar onde sua história começou — e para onde sua memória sempre irá voltar.
