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Da mercearia às vozes do cordel

A história de uma amizade potiguar que atravessou o tempo e se firmou mais ainda no território brasiliense-nordestino: Crispiniano Neto, Chico de Assis e Policarpo

Amigos de juventude de Policarpo, Crispiniano Neto e Chico de Assis se unem no repente que vai contar, em versos e música, uma trajetória que começa no interior do Rio Grande do Norte e expressa em Brasília a história de milhares de nordestinos que fizeram da capital federal a sua casa.
“Quero um ovo de codorna pra comer.” A cantoria ficou guardada na memória de Policarpo desde os tempos de menino em Santo Antônio, no agreste. Não era exatamente um ovo de codorna. Eram balinhas redondas, conhecidas assim pelas crianças da cidade. Para comprá-las, Policarpo ia ao comércio da família de Joaquim Crispiniano Neto, o Crispim, como o chama até hoje. “Eu amava ir lá. A gente chegava cantarolando: ‘quero um ovo de codorna pra comer’”.
Décadas depois, aquela memória pequena de uma cidade do interior reaparece em outra forma de contar histórias: o cordel. Crispiniano Neto e o repentista Chico de Assis estão preparando um cordel musicado sobre a trajetória de Policarpo. Mais que uma homenagem, o trabalho reúne três potiguares e uma história comum a muitos nordestinos: gente que saiu de sua terra, percorreu outros caminhos, fez a vida em novos lugares e continuou carregando consigo a cultura de onde veio.
Crispim era mais velho. Policarpo, o caçula da família, aproximou-se primeiro da casa dos Crispiniano pela amizade com um dos irmãos do poeta, o Zé.

Os percursos se reaproximaram
Quando Policarpo foi para Mossoró estudar agronomia, identificou a vida familiar que lhe servia de referência. Crispiniano também havia estudado agronomia na antiga Escola Superior de Agricultura de Mossoró, atual Ufersa.
Foi nessa época que compreendeu melhor quem era aquele homem que conhecia desde Santo Antônio. “Quando fui para Mossoró ele já tinha uma história política muito intensa. E a atuação cultural era outra fonte de orgulho para mim e para todo Santo Antônio, pela força que o cordel tem para nós.”
A política fez parte da caminhada dos dois. Mas Crispiniano encontrou também outra maneira de falar do povo, de seus conflitos, personagens e esperanças: a poesia popular.
Crispiniano construiu uma obra reconhecida da poesia potiguar. É membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, da Academia Norte-Rio-Grandense de Literatura de Cordel e da Academia Mossoroense de Letras. Sua produção reúne mais de uma centena de folhetos e livros, e alcançou leitores dentro e fora do Rio Grande do Norte.

Chico de Assis, também interiorano potiguar, fez de Brasília seu território do repente

Política e cultura andam juntas
Em 2008, Crispiniano lançou Lula na literatura de cordel, contando sua vida em versos. O poeta foi reconhecido pela Fundação Perseu Abramo como uma espécie de biógrafo popular, pelo registro de uma parte da história política brasileira.
Depois de Santo Antônio e Mossoró, onde iniciou sua militância política, Policarpo partiu para viver em Brasília, onde começou a militância sindical, trazendo o Nordeste na bagagem. Foi onde encontrou outro potiguar que lhe acrescentaria mais tempero na jornada:
Era Chico de Assis, também interiorano, nascido em Alexandria. Chegado em 1994, ele fez de Brasília seu território do repente, do cordel, da cultura popular nordestina; professor e ativista cultural.
Começou a escrever versos aos 10 anos, aprendeu viola aos 13 e, aos 18, já era repentista profissional. Há mais de quatro décadas, a cantoria é ofício e vida. Em Brasília, Chico também atua na formação de novas gerações, com apresentações e oficinas de rima, poesia e cordel em escolas do Distrito Federal.
Agora, Chico de Assis e Crispiniano Neto compõem o cordel, cantado e musicado, que vai contar a história do amigo de infância.
Vão cantar essa história geograficamente longe do Nordeste, mas num território absolutamente impregnado e construído pela cultura nordestina: na Brasília que é uma das cidades mais nordestinas do país, abraçando aqui todos os estados da região numa voz transformadora, poderosa, revolucionária.
Aponta especialmente para Ceilândia, que é onde está a maior população do DF. Mas a população nordestina é maioria, na maioria do quadradinho. Fato atestado por pesquisa distrital por amostra de domicílios.
A viola aqui criou raízes. Com o cordel e o repente:

— A Viola e o Repente
Neste Planalto Central
são a cultura da gente
No Distrito Federal — provoca Chico.

— Neste Planalto Central
Do Guará a Planaltina
Policarpo é o deputado
Da cultura nordestina! — retruca Crispiniano.

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