Início Geral GUARÁ NAS ELEIÇÕES – Santo de casa não faz milagre

GUARÁ NAS ELEIÇÕES – Santo de casa não faz milagre

Mais uma vez, os eleitores do Guará distribuíram a maior parte de seus votos entre candidatos de outras cidades do Distrito Federal. Dos 17 nomes ligados à cidade que disputaram as eleições de 2026, apenas dois conquistaram mandatos, repetindo uma dificuldade histórica de transformar a identidade local em representação política

Mesmo com mais de 130 mil eleitores, de acordo com o Tribunal Regional Eleitoral – 152 mil oficiais, incluindo a Região da Estrutural, o Guará mais uma vez descarregou a maior parte dos seus votos nos candidatos “estrangeiros”, em detrimento dos moradores da cidade. O resultado das eleições de 4 de outubro voltou a mostrar que o sentimento de bairrismo, tão presente em outras manifestações da vida comunitária, tem pouca influência nas escolhas eleitorais de uma parcela expressiva da população guaraense.
Dos 11 candidatos moradores do Guará que disputaram vagas na Câmara Legislativa, somente Dayse Amarilio (PSB) se elegeu, com 3.084 votos na 9ª Zona Eleitoral, o suficiente apenas para ajudar sua eleição pelo quociente eleitoral, mas com 2.494 menos do que Max Maciel (PSol), que não tem nenhuma história com o Guará, o que prova que o voto do guaraense foi mais ideológico, a segmentos profissionais e culturais do que em defesa dos interesses da cidade.


O maior exemplo dessa falta de bairrismo foi a votação recebida pela blogueira Zuleika Lopes, candidata a deputada distrital, que teve apenas 492 votos na 9ª Zona Eleitoral mesmo com mais de 80 mil seguidores em seu Blog da Zuleika, que tem sido o principal canal de ouvidoria dos moradores do Guará quando precisam denunciar falta de segurança, fazer denúncias, reivindicações e postar flagrantes. A comunidade guaraense também não reconheceu o legado do ex-administrador regional e ex-deputado distrital Alírio Neto, ainda o recordista de votação para distrital no Guará com 6.400 votos nas eleições de 1998, representado agora pela sua esposa Sandra Bacelar, que recebeu apenas 327 votos na 9ª Zona Eleitoral.
Na disputa para deputado distrital, os 11 candidatos do Guará somaram apenas 7.386 votos na 9ª Zona Eleitoral. Para efeito de comparação, Max Maciel (PSOL) conquistou sozinho 5.578 votos dos eleitores guaraenses. O dado chama atenção porque a votação conjunta dos 11 candidatos do Guará superou a de Max Maciel em apenas 1.808 votos.


A própria Dayse Amarilio, única representante do grupo guaraense eleita para a Câmara Legislativa, recebeu 3.084 votos dos eleitores guaraenses, ficando na sexta posição entre os 24 deputados distritais eleitos na contagem dos votos locais. À sua frente apareceram Max Maciel, Múcio (PSB), Gabriel Magno (PT), Estefane Sampaio (Republicanos) e Keka Bagno (PSOL) com mais votação no Guará. Do mesmo partido de Dayse, Múcio Botelho, 6º deputado eleito mais votado, recebeu 3.905 votos na 9ª Zona Eleitoral, ou, mais de 800 votos do que ela, mesmo sem qualquer histórico de relação com o Guará. Gabriel Magno conquistou 3.220, Estefane Sampaio obteve 3.177 e Keka Bagno somou 3.148 dos eleitores guaraenses.
A preferência por candidatos de outras regiões também apareceu em outros nomes com votação expressiva, como Chico Vigilante (PT), com 3.031 votos, Roosevelt Vilela (PL), com 3.023, e Eduardo Pedrosa (União Brasil), com 2.721.

Nem os conhecidos escaparam
O desempenho dos candidatos locais mostra que nem mesmo uma trajetória política conhecida no Guará foi suficiente para assegurar uma votação expressiva na própria região. Rodrigo Delmasso (Republicanos), ex-deputado distrital e um dos nomes com maior identificação política com a cidade, recebeu 1.760 votos na 9ª Zona Eleitoral. Em 2022, havia conquistado 3.745 votos no mesmo território. A redução de aproximadamente 53% contribuiu para que terminasse a eleição na condição de suplente, apesar dos 14.642 votos obtidos em todo o Distrito Federal.
Entre os outros candidatos locais, a votação foi ainda mais modesta. Fabiano Trompetista (PT) recebeu 606 votos, Zuleika do Blog (DC) conquistou 492 e Sandra Bacelar (PSD) obteve 327. Marcelinho Carioca (Republicanos) somou 227 votos, Lau de Paula (Avante) recebeu 215 e Dennis Web (PSB) alcançou 209. Wilson Amigão (Avante), com 195 votos, Paulo Mineiro (Novo), com 178, e Pastora Allana (Democrata), com 93, completaram a relação dos candidatos a deputado distrital ligados ao Guará.
A baixa votação de boa parte desses nomes revela que o vínculo com a cidade, por si só, não assegura competitividade eleitoral. Mesmo candidaturas que concentraram a maior parte de seus votos na 9ª Zona não conseguiram alcançar números expressivos no conjunto do DF. Embora tenham encontrado na área do Guará sua principal base de apoio, a votação foi insuficiente para colocá-los em condições de disputar efetivamente uma cadeira.

Na Câmara Federal,
a situação se repete
A distribuição dos votos também ficou evidente na disputa para deputado federal. Fábio Felix (PSOL), que não integra o grupo de quatro candidatos a deputado federal moradores do Guará, foi o mais votado na 9ª Zona Eleitoral, com 15.697 votos. O número superou a votação conjunta dos quatro candidatos ligados à cidade que concorreram ao mesmo cargo – Izalci Lucas (PL), eleito com 88.056 votos no Distrito Federal, recebeu 6.737 na região. Roberto Policarpo (PT), que ficou na suplência, obteve 2.354 votos. Coronel Moreno (PP) recebeu 352, enquanto Emílio Kerber (Novo) conquistou apenas 96. Somados, os quatro candidatos alcançaram 9.539 votos na 9ª Zona Eleitoral, número 6.158 votos inferior ao desempenho individual de Fábio Felix.
A diferença mostra que a preferência regional não esteve necessariamente associada ao local de residência ou à trajetória dos candidatos. Fábio Felix também mantém vínculos com o Guará, mas sua força eleitoral ultrapassa os limites da cidade.
Na eleição para o Senado, o cenário não foi diferente para os moradores do Guará. Professor Guilherme Amorim (UP) recebeu 963 votos na Zona 009, enquanto Zanata (PSTU) obteve 236.

O voto não tem endereço
A preferência dos eleitores por candidatos de outras cidades não constitui, por si só, um problema eleitoral. O Distrito Federal funciona como uma única circunscrição para a escolha de deputados distritais, federais e senadores, e todos os candidatos podem buscar votos em qualquer região administrativa.
Além disso, a escolha de um representante envolve diferentes fatores, como identificação partidária, posições políticas, atuação parlamentar, propostas de campanha e reconhecimento público. O local de residência é apenas um dos elementos que podem influenciar a decisão do eleitor.

Falta identidade
O resultado, entretanto, levanta uma questão importante para o Guará: até que ponto a cidade consegue construir uma representação política comprometida com suas demandas específicas?
Em outras regiões do Distrito Federal, a identificação territorial costuma fazer parte do discurso e da organização das campanhas. No Guará, os resultados de 2026 mostram que essa ligação não foi suficiente para produzir uma votação concentrada nos candidatos locais.
Também é preciso considerar que o sistema proporcional não transforma automaticamente os mais votados em eleitos. O desempenho dos partidos e das federações interfere diretamente na distribuição das cadeiras. Dayse Amarilio, por exemplo, conquistou a última vaga da Câmara Legislativa pelo cálculo das sobras eleitorais, apesar de ter recebido a menor votação nominal entre os 24 eleitos.
Portanto, a dispersão do eleitorado não explica isoladamente o resultado das candidaturas guaraenses. A capacidade de organização partidária, a competitividade dos candidatos e a formação de bases eleitorais em outras regiões também são determinantes.

Uma representação limitada
O Guará chega ao fim das eleições de 2026 com dois representantes ligados à sua história, mas apenas uma deputada distrital efetivamente moradora da cidade entre os eleitos considerados neste levantamento. Izalci Lucas, embora tenha vínculos antigos com a região, não reside atualmente no Guará.
A situação reforça uma característica recorrente da política local: a cidade participa das eleições com um número significativo de candidaturas, mas encontra dificuldades para converter essa participação em mandatos.
O fato de os eleitores distribuírem seus votos entre representantes de diferentes regiões não significa necessariamente falta de compromisso com o lugar onde vivem. Pode indicar, também, que as candidaturas locais ainda não conseguiram apresentar propostas, trajetórias e articulações políticas capazes de conquistar a confiança de uma parcela maior da população.
A expressão popular segundo a qual santo de casa não faz milagres encontra, mais uma vez, correspondência nos números das urnas. O Guará continua elegendo alguns representantes com vínculos com a cidade, mas a maior parte de suas candidaturas termina a disputa sem mandato.
O desafio vai além de estimular o bairrismo. Envolve construir lideranças reconhecidas pela população, fortalecer a relação entre representantes e comunidade e transformar as demandas locais em projetos políticos capazes de competir em todo o Distrito Federal.

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