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Uma escola de campeões

Equipes de vôlei do Guará, criadas pelos irmãos Paula e Cláudio Pequeno, conquistam dois ouros e um bronze em competição nacional. Projeto já formou milhares de jovens atletas em diferentes regiões do país

As equipes femininas de voleibol da Escola Nacional de Esporte e Cultura (ENEC), que funciona no Colégio Rogacionista, no Guará, voltaram de Uberlândia, em Minas Gerais, com três medalhas conquistadas na Supertaça Minas Gerais de Voleibol de Base, disputada entre 10 e 13 de outubro. As meninas do Guará foram campeãs nas categorias sub-15 e sub-19 e conquistaram o bronze na sub-17, enfrentando equipes de clubes e escolas de várias regiões do país, algumas com tradição na formação de atletas. A delegação contou com 45 jogadoras, 15 em cada categoria, e conseguiu colocar todas as equipes no pódio.

Cláudio Pequeno, fundador e coordenador da ENEC: “Sempre tivemos o sonho de formar atletas e cidadãos que pudessem ter o mesmo benefício que nós tivemos, saindo do Guará através do esporte para ganhar o mundo”.

Foi a segunda participação da escola na competição. No ano passado, a ENEC disputou o torneio com duas equipes, sub-15 e sub-17, e conquistou uma medalha de ouro, além do prêmio de melhor jogadora da competição, concedido à atleta Bia. Os resultados confirmam a evolução de um projeto que tem suas raízes no Guará e nasceu da experiência de dois irmãos que fizeram do voleibol parte de suas vidas: a bicampeã olímpica Paula Pequeno e Cláudio Renato Marques Pequeno, responsável pela administração e coordenação das atividades da escola.
Paula é um dos nomes mais importantes da história do voleibol brasileiro. Nascida em Brasília, em 1982, foi bicampeã olímpica com a seleção brasileira feminina, conquistando o ouro nos Jogos de Pequim, em 2008, e Londres, em 2012. Atuando como ponteira, teve uma carreira de destaque em clubes brasileiros e na seleção, sendo eleita a melhor jogadora dos Jogos Olímpicos de Pequim, reconhecimento que a colocou entre as grandes atletas da modalidade no mundo. Apesar da carreira internacional, sua história com o esporte começou no Guará, onde passou boa parte da infância e da adolescência. Foi também nessa cidade que Cláudio cresceu e teve suas primeiras experiências com o voleibol.

Paula é um dos nomes mais importantes da história do
voleibol brasileiro. Nascida em Brasília, em 1982, foi bicampeã
olímpica com a seleção brasileira feminina, conquistando o ouro nos Jogos de Pequim, em 2008, e Londres, em 2012

Das ruas do Guará
para o mundo
A família morou na região da Guariroba, numa época em que algumas ruas ainda não tinham asfalto. A mãe, que também praticava esportes, costumava colocar uma rede na rua para que os filhos e os vizinhos jogassem. A convivência com o esporte desde pequenos acabou determinando o caminho dos irmãos. Depois de morar no Guará por algum tempo, Paula deixou Brasília aos 14 anos para seguir carreira em São Paulo. Cláudio, que também praticava voleibol, mudou-se aos 21 anos para acompanhar a irmã e permaneceu próximo da trajetória profissional dela. Durante esse período, acumulou experiências com treinadores, preparadores físicos e dirigentes de grandes equipes brasileiras.
“Mesmo longe, mantínhamos o sonho de voltar ao Guará para desenvolver um projeto que oferecesse a outras crianças as oportunidades que tiveram. A ideia começou a tomar forma em 2011, ainda em São Paulo, com a organização de cursos de capacitação destinados a professores de educação física e treinadores”, conta Cláudio Pequeno. As atividades envolviam voleibol, futsal e preparação física, em parceria com profissionais ligados a clubes de destaque nacional, como Osasco e Corinthians.

João Vitor Costa Viana, treinador da ENEC: “A gente sempre fala que, se não sair um atleta, sai um cidadão formado”.

Em 2014, Paula retornou a Brasília para assumir a posição de capitã do Brasília Vôlei. Cláudio também voltou, decidido a colocar em prática o projeto das escolas de voleibol que os dois vinham planejando. A parceria com o Colégio Rogacionista começou em 2015. A instituição cedeu espaços para os treinamentos e passou a apoiar a formação dos atletas, inclusive com a concessão de bolsas de estudo. O projeto também ganhou a adesão do Grupo Projeção e de outras instituições de ensino, expandindo suas atividades para diferentes regiões do país.
Inicialmente voltada exclusivamente ao voleibol, a iniciativa passou a oferecer outras modalidades esportivas e adotou o nome Escola Nacional de Esporte e Cultura (ENEC). Em sua fase de maior expansão, chegou a atuar em 16 colégios de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Joinville. Em 2018, reunia aproximadamente dois mil alunos em 14 unidades. Segundo Cláudio, mais de 10 mil crianças e adolescentes já passaram pelas atividades da escola ao longo de sua trajetória.

Anne Lira Machado, de 12 anos, e Alice Lobo Macedo, de 14, encontraram no voleibol uma oportunidade de fazer amizades, desenvolver habilidades e sonhar com o futuro no esporte.

Treinamento e formação
Depois da pandemia, a direção decidiu reorganizar o projeto e concentrar mais esforços na qualidade dos treinamentos e na preparação de equipes para competições. O Guará permaneceu como a principal referência da escola, com atividades no Colégio Rogacionista e em outra unidade que reúne os atletas selecionados para disputar torneios. Atualmente, a ENEC conta com aproximadamente 150 alunos de voleibol no Guará, desde crianças que estão começando a praticar o esporte até adolescentes que integram as equipes de competição. As atividades podem começar aos seis anos, com turmas divididas por faixa etária e nível técnico.
Os treinamentos são realizados três vezes por semana, com duração de uma hora e meia cada, além de amistosos, torneios e outras atividades. Dependendo da programação, os participantes podem acumular cerca de 35 horas mensais de prática esportiva. Cláudio explica que a proposta é oferecer uma formação mais completa desde o início, com disciplina, preparação física, desenvolvimento técnico e participação em competições. Os alunos que apresentam maior evolução podem ser selecionados para as equipes que representam a escola em torneios locais e nacionais.
O trabalho é desenvolvido por profissionais com experiência no voleibol competitivo, incluindo ex-atletas que atuaram em clubes brasileiros e estrangeiros. Um deles é João Vitor Costa Viana, ex-jogador profissional com passagens por Botafogo, Blumenau e Sesi, além de equipes da Espanha, Portugal, Alemanha e França. Depois de encerrar a carreira nas quadras, ele passou a trabalhar na formação de jovens atletas e integra a equipe da ENEC há aproximadamente um ano e meio.
João Vitor acompanhou as jogadoras na competição em Uberlândia e considera que as medalhas representam o resultado da dedicação das atletas e da evolução do trabalho desenvolvido pela escola. Para o treinador, porém, as conquistas esportivas representam apenas uma parte dos objetivos do projeto. Ele considera que a prática regular do voleibol contribui para a formação pessoal dos alunos, desenvolvendo disciplina, responsabilidade, convivência e capacidade de trabalhar em equipe. Segundo ele, muitos pais relatam mudanças positivas no comportamento dos filhos depois que começam a frequentar as atividades, incluindo melhorias no desempenho escolar e na convivência familiar.

“Eu acho que é muito bom para a coordenação motora, para saber como lidar com as amizades, com a união”, conta Anne Lira Machado, de 12 anos

Novas gerações
nas quadras
Entre os alunos que descobriram no voleibol uma atividade importante em suas vidas estão Anne Lira Machado, de 12 anos, e Alice Lobo Macedo, de 14. Anne começou a jogar por influência da irmã e das amigas do prédio onde mora. Com aproximadamente dois anos de prática, atua como líbero, posição especializada na defesa e na recepção. Com 1,41 metro de altura, não considera a estatura uma dificuldade para participar do esporte. Para ela, o voleibol tem contribuído para melhorar a coordenação motora, fortalecer as amizades e aprender a conviver com vitórias e derrotas.
Alice começou há cerca de dois anos e meio, também incentivada pelas amigas. No início, não conhecia bem a modalidade e não demonstrava tanto interesse, mas o apoio recebido dos treinadores fez com que continuasse. Hoje, já considera a possibilidade de seguir carreira no esporte. As experiências das duas mostram que a escola não trabalha apenas com jovens que pretendem se tornar atletas profissionais. Muitos começam por diversão ou pela convivência com os colegas e acabam encontrando no voleibol uma atividade que contribui para seu desenvolvimento.
Embora a formação de atletas de alto rendimento esteja entre os objetivos futuros da ENEC, Cláudio reconhece que essa etapa exige investimentos elevados. Atualmente, o projeto é mantido principalmente com recursos privados, mensalidades e parcerias com instituições de ensino. No Colégio Rogacionista, os alunos da própria escola pagam mensalidade de R$ 189 para participar dos treinamentos. Para estudantes de outras instituições, o valor é de R$ 209. Também são oferecidas bolsas para jovens que apresentam interesse e condições de desenvolvimento, mas não dispõem de recursos financeiros.

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