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“Minha cadeira tem asas” – A história de superação de Estevão Lopes, atleta paralímpico do Guará

Por Elsânia Estácio

Em 2012, aos 33 anos, sua vida mudou drasticamente após ser atingido por uma bala perdida, mas foi no esporte que ele encontrou um novo propósito de vida. De uma vida tranquila como advogado em Brasília, chegou a referência internacional no esporte paralímpico. Assim pode ser resumida, mas jamais limitada, a trajetória de Estevão Lopes, 45 anos, nascido e criado no Guará, que transformou uma tragédia pessoal em um exemplo inspirador de superação, inclusão e propósito.
A lesão medular, provocada pela bala, deixou Estevão paraplégico, encerrando uma rotina até então comum de trabalho, lazer e viagens. O processo de reabilitação foi para ele um momento de luto. “Foi um período de aceitação que não é fácil, mas superei. Vi que eu tinha dois caminhos: me fazer de vítima ou encarar essa realidade. E aí eu vi que era possível viver numa cadeira de rodas”, conta.
Mas o que parecia o fim, foi, na verdade, o início de uma nova trajetória, marcada pela superação, pelo esporte e por uma missão de vida que transcende medalhas. “Me tornei atleta de alto rendimento. Hoje pratico remo paralímpico, paracanoagem e vela adaptada”, conta. “Ele vivia de um jeito e, de repente, passou a viver de outro. O esporte foi o início de tudo na vida dele, para a superação dele”, completa a mãe, Dorcilia Maria, do início da transformação.
Foi no Hospital Sarah Kubitschek que o atleta Estevão teve sua primeira vivência com os esportes adaptados, e, desde então, se tornou um multiatleta no remo, vela e ciclismo adaptado. “O Sarah tem uma parte muito importante que eu chamo de vivência esportiva. De forma lúdica, eles mostram os diferentes esportes que você pode praticar. Quando entrei num barquinho adaptado, percebi que isso iria fazer parte da minha vida para sempre”.

“Queremos mostrar que esses espaços e modalidades, muitas vezes vistos como elitizados, são para todos. O importante não é formar atletas de alto rendimento, mas formar cidadãos. Se de mil, um virar atleta, ótimo. Mas o impacto está na autoestima, na transformação de vida”.

Tecnologia e superação:
a entrada no Projeto EMA
Em meio a busca por mais independência, Estevão foi convidado a participar do projeto Empoderando Mobilidade e Autonomia (EMA), da Universidade de Brasília, que utiliza eletroestimulação para permitir que pessoas com paralisia pedalem com as pernas. “Me ligaram dizendo: ‘É um projeto que, através da eletroestimulação, você vai conseguir até pedalar’. Eu pensei: ‘Pedalar? Eu não mexo sequer um dedinho! Mas resolvi testar e me surpreendi. Vi que era possível pedalar!”, diz ele.
O coordenador do EMA, Roberto Baptista, conta que a entrada de Estevão Lopes no projeto foi estratégica. “Na verdade, fomos atrás dele, porque é extremamente carismático e tem uma capacidade única de motivar toda a equipe, desde engenheiros, fisioterapeutas e voluntários. A participação em competições é um bônus, mas o principal é o impacto real na vida das pessoas”.

Segundo Roberto Baptista, a iniciativa tem como foco melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência por meio da tecnologia assistiva. “O projeto EMA tem dois pilares fundamentais: facilitar o cotidiano de quem vive com deficiência e compensar com tecnologia, as limitações fisiológicas causadas por lesões ou condições motoras”, explica.

Conquistas internacionais e um legado local
Desde que se tornou atleta paralímpico, Estevão participou de competições em mais de 30 países e destacou-se na Cybathlon, também conhecida como Olimpíadas Biônicas. Esse evento, realizado a cada quatro anos, reúne pessoas com deficiências para competir em seis categorias, utilizando tecnologias assistivas de ponta.
Estevão é o único atleta da América Latina a competir e o único no mundo a participar por três vezes consecutivas. “Tenho um carinho especial por essa competição. Ela mostra tecnologias em ação, e não só em congressos científicos”, afirma.
Segundo o coordenador do projeto EMA, o formato competitivo do Cybathlon permite ver, na prática, o funcionamento de tecnologias assistivas, que antes só eram discutidas em ambientes acadêmicos. “A iniciativa do Cybathlon, a troca de informação era feita através de congressos científicos. Então você não tinha muito a perspectiva de você ver em ação as principais tecnologias. O Cybathlon força isso com esse formato de competição”, explica Roberto Baptista.
Para Estevão, o principal motivo de ter entrado no projeto EMA é que a tecnologia não vai parar só nele. “Vai chegar à senhora que sofreu uma lesão medular e está em casa, querendo apenas qualidade de vida. O projeto tem esse sentido”.
Motivado a multiplicar o que aprendeu, em 2016 Estevão fundou, ao lado do amigo Dudu Freitas a Capital do Remo, uma das maiores escolas de esportes náuticos adaptados da América Latina. Sediado no Lago Paranoá, o projeto desenvolve iniciativas como o Luz no Lago e o Vela para Todos, que visam quebrar barreiras e democratizar o acesso aos esportes náuticos para pessoas com deficiência.

Uma vida com propósito
Além de atleta, advogado e educador físico, Estevão hoje coordena o Projeto EMA, que utiliza estimulação elétrica funcional para permitir que pessoas com paralisia voltem a pedalar com as pernas. “De voluntário virei usuário, de usuário virei piloto, e hoje sou um dos coordenadores. Foi um divisor de águas na minha vida.”
Com uma trajetória marcada pela superação e pelo reencontro com o propósito de vida, Estevão reflete sobre tudo o que viveu. “Hoje, mesmo sendo cadeirante, minha vida é mil vezes melhor do que antes. E não porque era ruim, mas porque era sem propósito. Minha cadeira não tem rodas. Minha cadeira tem asas.”
A quem enfrenta desafios semelhantes, ele deixa uma mensagem forte e otimista. “Não existe limites para nós. O querer é poder. A gente só não dá jeito para a morte. No resto, a gente consegue superar. Eu sou a prova viva disso.”

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