Para boa parte dos torcedores que acompanharam o Clube de Regatas Guará desde a década de 1970, Jânio Pinto é considerado o jogador mais habilidoso da história do clube e talvez do futebol brasiliense, apesar de não ter conquistado títulos locais expressivos ou projeção nacional no Brasil. Canhoto, técnico, inteligente, com bom passe e exímio cobrador de faltas, Jânio marcou época com o lobo da colina ao lado de Luis Fernando, Barão e Niltinho, entre outros históricos que vestiram a camisa do clube. Mas, essa projeção local não o levou à a ter oportunidades em outros centros, como Rio, São Paulo e Minas, por exemplo. Se por aqui o reconhecimento foi limitado, no Equador ele se tornou um dos nomes mais respeitados do futebol do país, primeiro como jogador e depois como técnico.

Nascido em Volta Redonda (RJ), Jânio chegou a Brasília ainda criança, em 1960. Começou a jogar futebol nos campos de terra da Asa Sul e foi descoberto por Ercy Rosas, técnico do Brasília, que o levou para uma peneira. Em 1975, jogando uma preliminar do Guará, chamou atenção com três gols e foi contratado. Estreou na Copa do Brasil, contra o Bahia, e viveu grande fase com o clube, sendo campeão do Torneio Seletivo de 1979, que classificou o Guará para o Campeonato Brasileiro, e vice-campeão candango de 1981.
Em 1982, foi negociado com o Taguatinga, que pagou três milhões de cruzeiros – maior transação do DF até então. Passou ainda por clubes como São Bento, Noroeste, Londrina, Gama e Tiradentes. A partir de 1986, sua carreira tomou rumos internacionais com a ida para o Equador, onde se destacou no América de Quito, LDU e Barcelona de Guayaquil. Em 1988 foi artilheiro e craque do campeonato nacional pela LDU, com 18 gols, e no ano seguinte foi campeão equatoriano pelo Barcelona, sendo também o artilheiro da equipe com 14 gols. Também passou pelo Delfin antes de tentar carreira na Europa, jogando na Bélgica em 1990.
Em 1991, sofreu com uma pubalgia, lesão pouco conhecida na época. Depois de recuperado, voltou ao Guará em 1992 e 1993, encerrando a carreira como jogador. No ano seguinte, iniciou sua caminhada como treinador no Comercial de Planaltina durante o Campeonato Brasiliense de 1996. Em seguida, passou por Brazlândia, Desportiva Bandeirante e Clube de Regatas Guará, onde comandou os juniores e o time principal em 1999. Em 2000, aceitou voltar ao Equador, país onde havia se destacado como jogador e que se tornaria palco de sua consolidação como treinador.
Rei dos acessos no futebol equatoriano
Desde então, construiu uma carreira de sucesso fora do Brasil. No Equador, comandou equipes como Panamá, Juvenil de Quinindé, Milagro Sporting, Sociedad Deportiva Aucas, Macará, Imbabura e Independiente Del Valle. Foi nesse período que ficou conhecido como o “rei dos acessos”.
Seu maior feito ocorreu ao aceitar o desafio de fundar e comandar o Deportivo Azogues, clube criado em 2005 na cidade de Azogues, a mais de 400 km de Quito. Jânio montou a equipe do zero, recrutando 14 jogadores de Guayaquil e realizando testes com outros atletas. Em um feito histórico, levou o clube à primeira divisão nacional em apenas dois anos, conquistando a terceira divisão no segundo semestre de 2005 e a segunda divisão na metade de 2006. Virou herói local, mas foi demitido em meio a uma fase ruim na elite.
Em 2009, levou o Independiente José Terán (hoje Independiente Del Valle) à primeira divisão. Jânio também atuou como conselheiro na implantação do complexo desportivo do clube, que hoje é uma das potências do futebol sul-americano, com participações frequentes em Libertadores e Sul-Americana.
Seis títulos provinciais e projeto em Jipijapa
Jânio Pinto soma cinco acessos e seis títulos provinciais nas competições estaduais do Equador. O último foi conquistado em Loja, com o Libertad de Loja, onde também levou o clube ao acesso para a Série B. Em 2025, comandou o Saruma Futebol Clube, também da província de Loja, mas os resultados não foram os esperados. “Fizemos um campeonato regular, principalmente por falta de recursos”, conta.
Para a temporada de 2026, Jânio já tem novo compromisso firmado. “Acertei contrato desde o ano passado com o time da província de Manabí, da cidade de Jipijapa. O time se chama Jipijapa Futebol Clube. A cidade já foi uma das mais importantes do Equador, conhecida antigamente pela exportação de café. Agora estamos com esse novo projeto e a meta é subir o time à Série B”, afirma.
Nos anos em que ficou afastado das quatro linhas, especialmente durante e após a pandemia, Jânio se manteve atuante no meio esportivo como comentarista em rádios e televisões locais. “Foi um período difícil para todo mundo. Mas segui trabalhando como comentarista. Mesmo fora do campo, é importante continuar dentro do futebol”, destaca.
Desejo de voltar ao Brasil
Apesar do sucesso alcançado no futebol equatoriano, Jânio não descarta a possibilidade de retornar definitivamente ao Brasil. “Estou pensando em algum momento regressar ao Brasil. Tenho muitos amigos lá, mas aqui também tenho amigos e familiares. A ideia é voltar no próximo ano, caso as coisas não saiam como o esperado. Mas se conseguirmos o título e mais um acesso, aí sim há uma grande chance de permanecer mais tempo no Equador”, conta, enquanto curte férias com os familiares no Guará.