Por Aline Diniz
Quem frequenta o Parque Ezequias Hering erconvive com um problema que se arrasta há anos na entrada do Guará. Para chegar ao parque, às paradas de ônibus, às residências próximas ou aos locais de trabalho, pedestres precisam atravessar uma via de tráfego intenso utilizando uma única faixa, localizada em um trecho onde moradores apontam excesso de velocidade e pouca visibilidade.
A reportagem esteve no local no dia 30 de julho e acompanhou o movimento de pedestres e veículos. De um lado, crianças, idosos, trabalhadores, atletas e famílias aguardam uma oportunidade para cruzar a pista. Do outro, motoristas que chegam pela EPGU entram no Guará em um trecho no qual a elevação da via dificulta a visualização de quem está na faixa.
A situação é alvo de reclamações antigas da comunidade, que cobra uma solução capaz de reduzir o risco de atropelamentos e colisões. Entre as alternativas defendidas estão a construção de uma passarela, a instalação de semáforo para pedestres e a implantação de dispositivos de redução de velocidade.
Mobilização atravessa gerações
Moradora da região há 36 anos, Maria do Amparo acompanha o problema desde que chegou ao Guará. Segundo ela, a dificuldade aumenta nos horários de maior movimento. “É uma maratona atravessar. Principalmente nos horários de pico. Depois das 18 horas é quase impossível”, relata.
Amparo afirma ter presenciado as consequências da insegurança no trecho ao longo das últimas décadas. Segundo a moradora, acidentes e atropelamentos continuam ocorrendo, principalmente nos períodos da manhã e da tarde. Ela também relata colisões envolvendo vários veículos.

Há mais de 15 anos, Amparo participa de mobilizações para cobrar providências. Nesse período, diz ter encaminhado ofícios, participado de abaixo-assinados e de uma comissão de moradores, além de reuniões com o Detran-DF e o Conselho Comunitário de Segurança e contatos com parlamentares.
A presença constante de crianças entre os usuários da travessia aumenta a preocupação. “Aqui circulam muitas crianças. É um transtorno atravessar com elas. Já houve atropelamento de criança. O que queremos é apenas que façam alguma coisa para melhorar nossa situação”, diz.
A reivindicação ganhou uma proposta concreta em 2017, quando o arquiteto Sidônio Porto elaborou um anteprojeto de passarela suspensa para o local. Segundo ele, a ideia surgiu diante dos relatos de atropelamentos e das características da via.
“A travessia para pedestres naquele trecho é muito perigosa em função da largura da autopista, da velocidade dos carros e da pouca visibilidade dos motoristas causada pela elevação da pista”, explica.
Sidônio afirma que buscou desenvolver uma estrutura funcional e integrada às características arquitetônicas de Brasília. Na avaliação do arquiteto, uma passarela proporcionaria mais segurança, conforto e rapidez para quem precisa cruzar a via.
O anteprojeto chegou a ser divulgado, mas não avançou para a etapa de análise técnica. Segundo Sidônio, a informação recebida à época foi de que a proposta teria sido bem aceita, mas não teria seguido adiante por falta de recursos. “Não houve uma apresentação técnica para aprovação porque o processo não teve continuidade”, afirma.
Enquanto uma solução definitiva não é implantada, o arquiteto considera que medidas intermediárias poderiam ajudar a reduzir os riscos, como a instalação de sinalização eletrônica junto à faixa de pedestres. Ele ressalta, entretanto, que intervenções permanentes precisam considerar o conjunto da circulação urbana da região.
Mesmo anos depois de elaborar a proposta, Sidônio afirma que permanece disposto a contribuir caso o projeto volte a ser discutido. “Gostaria muito de projetar algo importante para a cidade. É muito importante termos alguém na área política interessado em patrocinar uma obra de grande importância para quem mora na região”, diz.
A preocupação não se restringe aos moradores mais antigos. Frequentador do Parque Ezequias Heringer e morador da QE 17, Eduardo Pimentel considera que a faixa existente não atende às condições do trecho. “A faixa parece ter sido feita para dar errado”, resume.
Segundo ele, o volume de veículos e a velocidade dos automóveis dificultam a travessia. Eduardo defende, como alternativa de curto prazo, a instalação de um semáforo associada a algum mecanismo de redução de velocidade. “Pode até deixar o trânsito um pouco mais lento, mas salvar vidas é mais importante. Um semáforo com redutor de velocidade ou até um quebra-molas ajudaria bastante”, afirma.
Na avaliação do morador, parte do fluxo elevado ocorre porque o trecho é utilizado como ligação por motoristas que circulam entre a EPGU, Águas Claras e a EPTG, aumentando a movimentação na entrada do Guará.
O risco também faz parte da rotina de quem trabalha na área. Funcionário do Sesi instalado dentro do parque, João Rodrigues utiliza a faixa todos os dias, na ida e na volta do trabalho. “Eu atravesso essa pista todos os dias, sempre com muita insegurança”, relata.
João conta que um colega de trabalho foi atropelado sobre a faixa e sofreu fraturas no braço e no pé, além de um corte profundo. Para ele, o episódio demonstra que a sinalização existente não é suficiente para garantir a segurança dos pedestres.
“Nem sempre os carros param. Muitas vezes os motoristas não conseguem ver o pedestre a tempo ou passam em velocidade muito alta, o que dificulta a parada”, afirma. Na avaliação do trabalhador, uma passarela seria a alternativa mais eficiente porque permitiria separar o fluxo de pedestres do trânsito de veículos sem criar novas interrupções em uma via já movimentada.
Órgãos são cobrados por solução
Procurada pela reportagem, a Administração Regional do Guará informou que acompanha as reivindicações relacionadas ao trecho desde o início de 2023 e que já encaminhou solicitações ao Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal e ao Detran-DF, órgãos responsáveis por questões relacionadas à engenharia e à fiscalização do trânsito.
A Administração informou ainda que não dispõe de levantamento próprio sobre a quantidade de acidentes registrados no local, uma vez que esses dados são produzidos pelos órgãos de trânsito e de segurança pública.
Em relação ao anteprojeto elaborado por Sidônio Porto em 2017, o órgão afirmou que a proposta não chegou a ser oficialmente protocolada. Segundo a Administração, uma nova solicitação será encaminhada ao Detran-DF para reforçar a necessidade de uma solução para a travessia, além do pedido de aumento da fiscalização no trecho.
Enquanto as propostas não avançam, a rotina permanece praticamente inalterada para quem precisa cruzar a pista diariamente. A faixa de pedestres continua sendo o principal ponto de ligação entre a QE 19 e o Parque Ezequias Heringer, em uma área utilizada por moradores, trabalhadores e frequentadores de um dos principais espaços públicos de lazer do Guará.
Depois de mais de 15 anos de mobilização, a comunidade espera que a discussão resulte em uma intervenção permanente. Para os usuários da travessia, a reivindicação deixou de ser apenas uma questão de mobilidade urbana e passou a representar, sobretudo, uma cobrança por mais segurança.