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A Pilastra: referência em arte no Guará

Espaço cultural se aproxima dos dez anos com novos projetos, formação de artistas, geração de renda, maior aproximação com moradores do Guará e planos para ampliar a atuação na música

por Vinicius Neves

A poucos meses de completar dez anos de atuação desde que se instalou em seu primeiro endereço no Guará II, A Pilastra — uma galeria-escola de arte, produtora cultural e um ecossistema de educação e oportunidades para artistas e agentes culturais — celebra um novo momento na expansão e ampliação de suas atividades voltadas à formação, profissionalização e inserção de artistas, especialmente jovens, no mercado de trabalho. Gestada desde o início pelo desejo de impulsionar e fortalecer o segmento das artes visuais, A Pilastra também avança no incentivo à produção e circulação artística com seu espaço físico aberto à visitação, ao diálogo e à troca de experiências — conectando, paralelamente, talentos emergentes e dissidentes a oportunidades de emprego, qualificação e profissionalização. O ecossistema também reflete sobre sua busca em ampliar o contato com a comunidade guaraense por meio da diversidade da cultura e da arte, além de ter em seu horizonte novas iniciativas relacionadas à produção musical.

Lua Cavalcante, Camila Netto, Gisele Lima e
Monique Andrade integram a equipe de gestão d’A Pilastra

A Pilastra tornou-se, recentemente, uma Organização da Sociedade Civil (OSC) — termo jurídico oficial para entidades privadas sem fins lucrativos, como antigas ONGs, fundações e associações — cuja gestão é dividida em quatro diretorias distintas, mas que atuam em sinergia na operação do ecossistema: diretoria de projetos, a cargo de Camila Netto; diretoria-executiva, liderada por Monique Andrade; diretoria educacional, guiada pela Lua Cavalcante; além de Gisele Lima, a frente da diretoria institucional.

Atualmente localizado na Rua 9, Lote 8, da QE 40 do Guará II, o ecossistema cultural fundado como ponto de apoio à arte — guaraense, brasiliense e nacional — funciona  desde o princípio nesta região administrativa e tem, entre seus objetivos, contribuir para descentralizar a cultura da região do Plano Piloto e demais polos da capital federal. A Pilastra já passou por diversos endereços, todos no Guará, incluindo quando tudo acontecia dentro de um apartamento, até se instalar, há aproximadamente um ano, neste que é considerado por Gisele Lima como o espaço mais bem distribuído e preparado para as atividades oferecidas pela galeria-escola, pela produtora artística e também para as outras frentes, incluindo aquelas que A Pilastra planeja implementar em breve.

Gisele Lima atualizou sobre as alterações que ocorreram nos últimos três anos, quando ainda estavam no antigo endereço, no Polo de Modas, e revisitou as experiências vividas e aprendizados assimilados desde então. A criação d’A Pilastra já foi marcada por sua atuação em diversas frentes, sendo elas de pesquisa, educacional e programa educativo, espaço expositivo e cultural, produção cultural ou mercado de arte e representação de artistas. Porém, o momento atual demonstra uma guinada à perspectivas ainda mais amplas.

“Muito mudou, acho que não só n’A Pilastra, mas na cultura, de um modo geral, nos fomentos”, avaliou Gisele, inicialmente. “A gente está hoje operando com dois grandes fomentos: um do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), que conseguimos aprovar, em 2024, e a prorrogação dele, que estamos executando neste ano. E também o da Funarte, de Apoio a Ações Continuadas”, citou. Acrescentou que, por meio do último edital mencionado por ela, há uma edição de residência em andamento que envolve tanto acessibilidade como um projeto destinado a jovens artistas, como é o caso do ILHÓ, voltado a artistas do Centro-Oeste em início de carreira que buscam desenvolvimento de carreira e desejam inserção no circuito da arte contemporânea.

Para ela, os dois fomentos permitiram “fôlego” para um novo olhar e forma de viabilizar as atividades d’A Pilastra, incluindo o aluguel do imóvel comercial atual, com dimensões mais favoráveis aos novos rumos perseguidos pela galeria. “Mudou de espaço para um com uma distribuição que faz mais sentido para a nossa utilização. É um local que está de frente para uma praça e isso foi muito importante. A vizinhança aqui também é um espaço mais residencial, que é vizinho de lojas, de academia, então, a gente consegue ter interação com o público passante”, apontou as vantagens. Para ela, A Pilastra atravessa um momento em que se aproxima mais de uma institucionalização do espaço, mas reforça que a adaptação não deve ser interpretada como uma reformulação de seus princípios e conceitos, mas sim como adoção de medidas necessárias para a garantia da permanência e existência do ecossistema e sua proposta de valorização da arte — por meio de um público mais diverso e amplo.

“Mais do que se manter como um espaço disruptivo, rebelde, insurgente, que, sim, está e sempre estará no nosso DNA, uma forma de continuar existindo é fazer questão de que quase todas as nossas mostras sejam censura livre. A gente está com a porta aberta para a praça e quer a presença de crianças. Nosso programa educativo, inclusive, recebe visitas de escolas da rede pública”, observou.

Para alcançar o objetivo, ela apontou uma das metas atuais d’A Pilastra: alcançar um público maior de visitantes moradores do próprio Guará. “Não necessariamente quem mora na nossa rua, que é quem mais vem, mas das outras quadras, pessoas que gostam de arte. A gente vai fazer 10 anos de existência e tem gente que me encontra ou conhece A Pilastra e diz que mora no Guará a minha vida inteira e que não sabia que nós existimos. A gente existe há 10 anos, não são 10 meses. Então, a gente está nessa luta e nessa formação de público local e chegar em mais moradores do Guará”, revelou. “E a gente prioriza as pessoas dissidentes, pessoal que não é do Plano Piloto. Procuramos pessoas negras, pessoas em situação de vulnerabilidade e pessoas com deficiência. A gente trabalha com todo mundo, mas a gente trabalha para essas pessoas”, resumiu Gisele sobre sua perspectiva acerca do público almejado.

Ela elaborou, ainda, seu entendimento e visão de que um espaço de arte deve ser aberto a todas as pessoas e justificou sua interpretação: “A arte é um vetor de educação e de transformação. Então, acho muito importante que todos os espaços de arte estejam com as portas abertas para todas as pessoas. Porque a gente nunca sabe qual vai ser a música, a pintura, a instalação, a performance, o livro, que vai plantar uma dúvida e gerar um questionamento, um pensamento crítico, que pode levar a uma mudança de pensamento e a mudança de mundo. Esse vetor e essa característica pedagógica da arte são muito importantes”, argumentou Lima.

 

Cultura e arte como geração de renda, oportunidades profissionalizantes e educacionais

A galeria-escola, o braço educacional do projeto, é descrita por ela como uma metodologia de formação em que a experiência é o fio condutor do aprendizado. Com atuação em diversas frentes — pesquisa, programa educativo, mercado de arte, produção cultural e seus diversos segmentos —, A Pilastra é onde educadores e aprendizes podem se apoiar para serem elos na democratização do acesso à arte e no fomento de novas oportunidades nas suas formas mais diversas e plurais.

O título de galeria-escola, adotado em meados da última mudança de endereço, é uma denominação que, no olhar de Gisele, “ganhou corpo e força” na apresentação d’A Pilastra como espaço físico com proposta educacional e pedagógica. “O início de olhar para a galeria-escola veio a partir da vocação d’A Pilastra de ser um lugar de primeiras vezes e receber artistas e curadores para as primeiras exposições. E as pessoas produzindo pela primeira vez”, conta, ressaltando que, ainda à época de implementação do conceito, foi aberto um programa de voluntariado que, atualmente, já pôde se desenvolver ao ponto de tornar-se um programa de residência profissionalizante.

“Antes acontecia que não tinha verba, não tinha dinheiro. Havia vontade de fazer A Pilastra acontecer e a gente precisava de mais mãos. Então, a gente abriu o voluntariado e, muitas vezes, as pessoas que não trabalhavam com cultura tinham muita vontade e pouca experiência. Pessoas muito jovens aceitaram estar com a gente desenvolvendo as exposições, os programas, a divulgação. O processo foi amadurecendo, vieram os fomentos, a gente conseguiu começar a empregar, de fato, e montar a equipe remunerada. Hoje em dia, a Monique [Andrade] e a Camila [Netto], que são diretoras d’A Pilastra, entraram no voluntariado e se formaram grandes produtoras, trabalham em outras instituições e empresas de produção cultural daqui do DF, mas continuam cuidando dessa parte”, relembrou.

O momento atual marca também as atividades d’A Pilastra como produtora, uma segunda frente que atua sinergicamente à proposta educacional da galeria-escola e amplia as oportunidades empregatícias para interessados em adentrar o mercado de trabalho da cultura. “Com ela é possível formar as pessoas aqui dentro d’A Pilastra e levá-las para o mercado de trabalho, de fato, pelos projetos que a produtora executa”. “A produtora serve como um apoio para o espaço físico, apesar de serem propostas diferentes, quando a gente fica sem fomento, é a produtora que segura as pontas do espaço”, contou.

Ela estima que, com os valores recebidos por meio de fomentos culturais e por meio da produtora, A Pilastra, hoje, seja responsável pela geração de renda e sustento de quase 25 pessoas, todas remuneradas, entre as que trabalham com os projetos do espaço e também com a produtora. “E isso para a gente é um salto sem tamanho”, comemorou a gestora. “Temos equipe de produção cultural. Somos oito produtoras na equipe de produção. A gente tem a equipe do educativo, de comunicação, de montagem. Estamos colocando a casa em ordem ficando com cara de instituição. A gente entendeu que essa formação era real e ela era efetiva”, resumiu Gisele.

Alguns projetos executados em diversas instituições relevantes no cenário cultural exemplificam o bom momento vivido pel’A Pilastra. “Produção local no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), produção local na Casa de Cultura da América Latina, uma exposição no Museu Nacional e uma exposição no Museu de Arte de Brasília (MAB). E toda a nossa equipe são de pessoas que passaram pela nossa residência profissionalizante”, mencionou Gisele.

“Nasce como um voluntariado e as pessoas vão aprendendo com oficinas e aulas pensadas módulo a módulo. Antes, quem estava aqui dentro ou as pessoas que apareciam para somar iam ensinando quem estava aqui. Agora a gente trabalha com convite para profissionais que são renomados na área, tanto no DF quanto nacionalmente, sendo que os convidados também são remunerados”, detalhou.

 

Próximos projetos incluem curso de pintura e disponibilização de estúdio para gravação de músicas

Novidades estão nos planos para o final do ano e o início de 2027. A Pilastra também se organiza para disponibilizar novos serviços para frequentadores e comunidade: entre dezembro de 2026 e janeiro do ano seguinte, A Pilastra oferecerá cursos de desenho e de pintura, por meio da Lei de Incentivo do FAC. A orientação da diretora artística é acompanhar as redes sociais d’A Pilastra, todas disponíveis em linktr.ee/apilastra.

Ainda está no horizonte de expansão d’A Pilastra adaptar sua sala multiuso, cômodo que serve tanto para abrigar o ateliê como local de armazenagem de materiais de pintura e desenho, em um espaço possível para trabalhos relacionados à música.

Por meio de sessões de espaço e parceria, o espaço já oferece, por exemplo, aulas de canto, todas as segundas e terças-feiras.

A Pilastra já possui histórico com projetos ligados à música, incluindo a produção de festival de cinema, shows, lançamento de álbum, material audiovisual e a produção, pelo terceiro ano seguido, da Festa Junina da Caixa Cultural. Outro destaque é o Sinestesia – Entre Imagem e Som, que exibiu, na edição do ano passado, videoclipes traduzidos para Libras, com audiodescrição, visita mediada tátil às obras e contou com a participação de 12 artistas, entre visuais e sonoros, que trabalharam em duplas para criar videoclipes que traduzem sensações em som e imagem através da diversidade de linguagens e temáticas. Os artistas trabalham em campos diferentes, mas, em duplas, descobrem que têm pontos complementares e atravessamentos.

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