História do Guará


O projeto original do prefeito de Brasília, Plínio Catanhede, era criar uma vila de trabalhadores mais próximo possível do Plano Piloto. Inicialmente, seriam construídas apenas algumas quadras ao lado do Parque do Guará e do Córrego Guará, em sistema de mutirão, em que os interessados participavam das obras e depois tinham direito ao sorteio.

O mutirão começou pela QE 5 e depois foi estendido para as QES e QIS 1 e 3. O projeto foi desenvolvido por engenheiros daSociedade de Interesse Habitacional (SHIS) e executado pela Novacap, sob a coordenação do próprio presidente da empresa, Rogério Freitas Cunha. A Novacap fornecia o material e os próprios interessados participavam da construção das casas. Quando cada conjunto ficava pronto, “doutor Rogério”, como era chamado, reunia os participantes do mutirão e sorteava o endereço de cada um dentro do seu inseparável chapéu de palha.

Com o aumento do interesse de outros servidores públicos e a demanda dos órgãos públicos que estavam sendo transferidos para Brasília, o governo resolveu construir mais casas, desta vez financiadas pelo BNH. Quando foi oficialmente inaugurado em 5 de maio de 1969, o Guará tinha 2.623 casas construídas e 1.021 em construção.

A partir daí, a SHIS, criada pelo prefeito da época Wadjô Gomide para atender a classe mais pobre com residências, começou a construção de outras 3 mil casas, que somadas àquelas do mutirão, constituiu o núcleo inicial do Guará I.

A área inicial do Guará era de 2,994 quilômetros quadrados, mas foi aumentada em 1971 para 5,136, totalizando 8,1 quilômetros quadrados. A cidade continuou crescendo além das quadras iniciais até atravessar a pista central, ocupando o outro lado, que recebeu o nome de Guará II.

Servidores de fora

Com a necessidade de transferência de mais servidores do Rio de Janeiro para Brasília, o Governo Federal fez parceria com o GDF na criação do Guará II, assumindo a construção de quadras inteiras ou partes, como é o caso da QE 13, para abrigar funcionários do Senado e a QE 24 para os servidores do Ministério das Minas e Energia, e QE 17 para funcionários dos Correios.

Mas nem todos os que vieram de fora assumiram suas casas. Assustados com a poeira vermelha que saia das ruas sem asfalto, ou da lama na época das chuvas, muitos servidores transferidos preferiam perder os empregos e voltar para o Rio de Janeiro, ou desistiam das casas que estavam recebendo. Vendiam os direitos a preços irrisórios ou simplesmente abandonavam as casas, sem imaginar o que estavam perdendo.

Em 1985, o então governador José Ornellas, já no final do seu governo, criava a QE 38 para assentar as 523 famílias que viviam nas favelas Vila União, Vila da CEB, Vila Socó e Guarazinho. Dois anos depois chegaram as famílias da invasão da 110 Norte.

Em 1987 a cidade aumentava sua população com a inauguração da Quadra Lúcio Costa, ideia do então governador José Aparecido, em homenagem ao seu amigo autor do projeto urbanístico de Brasília.

Em 1990, mais de 400 famílias eram assentadas nas QEs 42 e 44. Em 97, era ocupada a QE 46, no finalzinho do segunda gestão do Governo Roriz, mas a maioria dos contemplados era de apadrinhados do governo e não de baixa renda como previsto.

Núcleo residencial para atender ao SIA

Testemunha do fato, o ex-deputado federal e empresário Osório Adriano Filho garante que a ideia de se criar um núcleo habitacional nas proximidades do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) surgiu na noite em que o presidente Castelo Branco anunciou a criação do Banco Nacional de Habitação, em 1966. Esse assunto foi um dos que foram tratados durante a solenidade.

“Naquela ocasião cerca de 600 famílias de trabalhadores moravam nos mesmos lotes onde funcionavam as indústrias”, conta Osório, que foi um dos primeiros empresários a se instalar no setor.

Preocupados com a situação desses trabalhadores, um grupo de em­presários criou a Sociedade da Indústria, Abastecimento e Gráfica (Adesiag) para buscar uma solução junto ao governo. A Adesiag era liderada pelos empresários Eduardo Manoel Lemos, Bernardo Belingrote, Sebastião Paulo de Oliveira, Osório Adriano Filho, Geraldo Vasconcelos, Osório Coelho Guimarães e Waine Faria.

A Adesiag, segundo Osório, convidou o então prefeito do Distrito Federal, Plínio Cantanhede, e o superintendente da Sociedade Habitacional de Interesse Social (SHIS), Wadjô Gomide, para uma visita ao SIA. “Durante o almoço, na sede da antiga Bradisa, fizemos a reinvidicação aos dois para a criação de um assentamento para acomodar aquela massa de trabalhadores, que vivia em condições ruins e ainda impedia a ampliação das empresas”, explica Osório. Na mesma hora, Plínio Cantanhede e Wadjô Gomide prometeram atendê-los.

Com o aval das duas autoridades do governo, os representantes da Comissão de Criação do Setor Residencial Indústria e Abastecimento (SRIA) foram ao presidente do recém-criado BNH para buscar os meios para a criação do novo setor, já na solenidade de posse da diretora do banco.

Vencidos pela insistência

Mesmo com a promessa de Wadjô, os representantes da comissão não sentiram muito empenho da prefeitura. “Ao contrário, Wadjô foi ao Lúcio Costa solicitar a mudança de gabarito do Cruzeiro de três para quatro andares, para que se pudesse acomodar os trabalhadores do SIA”, conta Osório. Mas Lúcio Costa não concordou.

Como Wadjô continuou insistindo na necessidade da criação do setor, numa das viagens ao Rio de Janeiro para falar com Lúcio Costa, ouviu dele a seguinte expressão: “já que vocês insistem, então que se crie essa porcaria!”.

Foram então tomadas as primeiras providências para a criação do SRIA. Os estudos foram feitos pela SHIS, ainda na gestão de Wadjô Gomide. Quando assumiu a Prefeitura do DF, Wadjô teve mais poderes para fazer a implantação, que ficou a cargo do presidente da Novacap, Rogério Freitas Cunha entre os interessados em ter sua casa própria.

Mas a iniciativa quase esbarrou na má vontade da segunda presidente do Banco Nacional de Habitação, Sandra Passarinho, que era contra a ideia, mas foi vencida pela insistência de Wadjô e dos empresários do SIA.

Parcela do SIA

De acordo com Osório, das primeiras 950 casas construídas no mutirão, 600 foram destinadas aos servidores da Novacap e outras 350 foram distribuídas pela Adesiag aos trabalhadores do SIA.

Osório conta que os empresários tiveram que lutar também contra a vontade dos dirigentes das Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica, que queriam confiscar as casas construídas para abrigar os militares.

Logo após o mutirão que ergueu as primeiras casas, foi constituída a cooperativa Codebras/Inocoop, que ajudou a SHIS na continuação do SRIA, que recebeu o nome popular de “Guará”. SRIA foi o nome oficial da cidade até 1988.

“O Guará II foi criado pelo governador Hélio Prates da Silveira, que, paradoxalmente fora contra a conclusão do Guará I, mas que foi vencido pelo sucesso da iniciativa”, garante Osório Adriano.

Embora reconheça o papel importante da Novacap e da SHIS na criação do Guará, Osório Adriano Filho credita a iniciativa da criação da cidades aos empresários do SIA. “Ao ver o Guará como está, uma das melhores do DF, sinto orgulho de ter sido um dos mentores de sua criação”, completa o deputado e empresário.

Tudo começou em um mutirão

Ao idealizarem um núcleo habitacional que pudesse abrigar funcionários públicos de menor renda da União, que estavam sendo transferidos para a nova capital, também outros servidores do GDF e mais tarde os trabalhadores do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), o então prefeito de Brasília, Plínio Cantanhede, e o presidente da Novacap, Rogério Freitas Cunha, certamente não imaginaram no que seria transformado o projeto no futuro.

Passados 43 anos, o despretencioso mutirão se transformou numa das mais importantes regiões administrativas do Distrito Federal.

A escolha estratégica do local, que fosse próximo do Plano Piloto e do SIA, transformou a cidade numa das áreas mais valorizadas do DF, porque está no eixo entre o núcleo do poder e as outras principais regiões adminitrativas.

Por ainda conservar características de cidade do interior e oferecer ótimo padrão de serviços públicos e estar a apenas cinco quilômetos da Asa Sul e a menos de dez quilômetros do Aeroporto e ao lado das principais acessos à Brasília, a cidade do Guará se transformou no berço da classe média na capital.

Houve, com o tempo, uma seleção econômica de sua população. Os pioneiros que ajudaram a construir suas próprias casas ou as receberam prontas e financiadas pelo Banco Nacional de Habitação (BNH), através da Sociedade de Habitação de Interesse Social (SHIS), melhoraram de faixa econômica e permaneceram, ou venderam suas casas.

Os sintomas dessa valorização é o preço do metro quadrado dos imóveis do Guará, considerado o quarto mais caro do DF, ficando abaixo apenas do Plano Piloto, Lago Sul e Sudoeste. A cidade é atual alvo dos investimentos imobiliários no Distrito Federal, principalmente depois que o novo Plano Diretor Local (PDL) permitiu construções de até 26 pavimentos.

Na esteira da valorização imobiliária em todo o Distrito Federal, o metro quadrado na cidade ultrapassa os mais de R$ 7 mil, equivalente ao preço médio das regiões mais caras de São Paulo, Rio de Janeiro e outras grandes capitais brasileiras.

Essa valorização atraiu os grandes investidores imobiliários do DF para o Guará. Em apenas três anos foram lançados 12 grandes edifícios residenciais na cidade, com média de 540 unidades, todos com sucesso de venda.

A renda média do guaraense é de 6,4 salários mínimos a sexta do DF, atrás do Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, Sudoeste e Octogonal. É, por outro lado, a segunda familiar (de todas as pessoas da família que trabalham), de 20,7 salários mínimos, perdendo apenas para o Lago Sul. É, ainda a terceira média de veículos por residência, abaixo do Lago Sul e Plano Piloto – 43% da população tem um automóvel e 22% tem dois ou mais – de acordo com a Codeplan.

A população oficial é de 143 mil habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2010, mas, segundo estudos da área técnica da Administração do Guará, a população guaraense ultrapassa dos 174 mil habitantes (ver matéria da página 7.

O homem que criou o Guará

Os 145 mil habitantes do Guará devem o privilégio de morar numa das regiões mais valorizadas e mais bem equipadas do Distrito Federal a Rogério Freitas Cunha. Foi o então presidente da Novacap que teve a ideia de criar, e depois projetou e acompanhou a implantação do novo assentamento, que começou com um mutirão em 1967.

A ideia tomou forma com a participação do superintendente da SHIS, Wadjô da Costa Gomide, que depois viria a ser Prefeito de Brasília. Antes de ser prefeito, ele tinha sido subordinado a Rogério Freitas Cunha. Rogério era chefe dos subprefeitos (uma espécie de administradores regionais da época) e Wadjô era o subprefeito do Núcleo Bandeirante.

Nos contatos que mantinham constantemente, Rogério dizia a Wadjô dos planos de um dia promover um grande mutirão em Brasília, onde pudesse ser utilizado também a cibernética, seu hobby, ou seja, onde o computador pudesse ajudar de alguma forma.

Logo depois, Wadjô Gomide foi indicado superintendente da SHIS, e começou a planejar também um local próximo onde pudesse abrigar a grande massa de funcionários que estava sendo transferida para Brasília, além da que já estava aqui.

Wadjô procurou então Rogério Freitas Cunha e disse a ele que essa cidade para os funcionários seria a do mutirão. Rogério passou então a executar, já como superintendente da Novacap, o seu grande sonho.

Poucos acreditavam

O início do mutirão foi muito difícil. Havia uma descrença geral no projeto, inclusive dentro da própria equipe do governo do DF, mas o mutirão para Rogério Freitas Cunha já estava predeterminado.

“Era o meu sonho. Eu faria o mutirão até dentro d’água”, disse ele ao Jornal do Guará em 1984. O local mais próximo e mais adequado seria o da Vila Guará, ao lado do córrego do mesmo nome e ao lado do Parque. Como a ideia era dar suporte em termos de moradia ao Setor de Indústrias e Abastecimento, foi este o local escolhido.

Para começar o mutirão, Rogério Freitas reuniu cerca de 100 interessados dentro da Novacap, e entre eles escolheu 30 para começar o mutirão “Depois que todos viram o que estávamos fazendo, recebemos tantas adesões que tivemos que deixar de cadastrar muita gente”, contou ele ao JG.

À medida que o mutirão ia tomando corpo, as modificações iam aparecendo, inclusive por sugestão dos próprios participantes.

“Tudo aquilo era uma maravilha. Era lindo ver as pessoas se ajudando mutuamente, com o único objetivo de ver o bem coletivo. E interessante eram as contribuições de cada um, com ideias, com novas propostas e com trabalho. O projeto inicial do que seriam as casas foi muito modificado pelos pioneiros, baseados nas suas experiências, que para nós, eram muito importantes”, contou.

Como o mutirão cresceu muito mais do que acreditava, Rogério Freitas Cunha passou a ter alguns problemas pelo fato de ser ele o autor e executor da ideia. Talvez estivesse mais em evidência do que outros hierarquicamente superiores. Teve que afastar-se da Novacap. Contrariado por deixar sua filha ainda sem criar, foi estudar informática nos Estados Unidos.

Dedicação

Até nos fins de semana Rogério participava do mutirão. Sem as obrigações do gabinete, ele passava o sábado e o domingo conversando e participando do trabalhos dos pioneiros.

Quando cada fileira (conjunto) de casa ficava pronto, Rogério reunia os participantes e colocava o nome deles num inseparável chapeu de palha. À medida que iam sendo sorteados, os participantes do mutirão escolhiam suas casas.

Mutirão era poeira ou lama

Ao redor do primeiro grupo de casas só havia mato, barro e poeira vermelha. De vez em quando, tinha a companhia de cobras e outros animais que habitavam a mata que margeava o córrego Guará, que iam observar o trabalho daqueles pioneiros.

Água para beber era a trazida de casa em cantis ou garrafões ou a da rede precária instalada para fazer o concreto, mas que servia também para matar a sede. Outra opção era aventurar-se na mata até chegar às então límpidas e despoluídas águas do Córrego Guará, que serviam também para um banho refrescante depois de um dia de trabalho. 

A única opção de lazer dos participantes do mutirão e dos primeiros moradores era uma academia de judô, que oferecia a coqueluxe da época, as lutas de telequete, semelhante ao atual UFC, febre nas emissoras de TV. Na mesma casa onde funcionava a academia eram promovidas festinhas nos finais de semana, quando a bebida e a comida eram cotizadas entre os participantes. Afinal, eram amigos e parceiros da epopéia – naquela época costumava-se fazer amizades com vizinhos.

Até que a primeira rede de energia elétrica chegasse, a luz vinha dos lampiões a querosene.

Televisão, nem pensar. Depois de conviver com a poeira durante a metade do ano, ninguém se importava com as águas das chuvas, que mesmo fazendo lama aplacava a baixa umidade, os ventos razantes e o frio que fazia no Planalto Central antes dos paredões de concreto erguidos ao longo do tempo. Aprendizes Muitos dos participantes do mutirão nem sabiam lidar com cimento e tijolo, mas aprenderam com os mestres ou com quem já sabia o ofício. Em poucos dias, as casas iam surgindo. Nem o cansaço de tantas horas de trabalho, sob sol escaldante ou chuva, tiravam o entusiasmo daqueles que tinham a missão e o sonho de levantar um lar para sua família.

Para a maioria, a nova casa, mesmo na maior simplicidade, representava uma mansão para quem estava vivendo em barracos de lona ou madeira. O trabalho, todo braçal, cabia aos homens, mas as mulheres também ajudavam na confecção da comida e em outros serviços mais leves. A participação das mulheres era incentivada no acréscimo de pontos para o marido – a cada dia de trabalho, o participante somava pontos que lhe davam direito ao sorteio das casas no final.

À medida que as casas iam ficando prontas, quem não tinha acreditado na ideia mudava de opinião e também se incorporava ao trabalho dos pioneiros. O material utilizado para o encanamento era de péssima qualidade, a ponto de estourar quase todo quando foi feita a ligação da água das primeiras casas. Os fios da energia eram soltos e corriam pelo chão, colocando em risco a segurança, principalmente das crianças.

A poeira, a lama, o frio e as condições quase inóspitas do cerrado provocavam doenças frequentes nas crianças, principalmente alérgicas. Comércio não existia. Os mais próximos eram na Candangolândia ou no Núcleo Bandeirante. Ciumeira das autoridades Mas a ideia do vitorioso mutirão começou a desmoronar por um motivo político. O então presidente do Chile, Eduardo Frei, considerado quase um ditador, veio a Brasília e começou sua visita pelo mutirão. Depois de conversar com o presidente da Novacap, Rogério Freitas Cunha, e os trabalhadores, Eduardo Frei simplesmente foi embora sem falar com qualquer outra autoridade brasileira. O fato irritou a alta cúpula do Governo Federal, que acionou o prefeito Plínio Cantanhede, exigindo o fim do mutirão.

Outro fato teria irritado também as autoridades: a dona da rede Casas Riachuelo, a maior da época, também veio a Brasília conhecer o mutirão e, da mesma forma que o presidente do Chile, foi embora sem falar com as “autoridades”. O sucesso do mutirão aumentava o ciúme das autoridades, tanto do GDF quanto do Governo Federal. Para resolver o problema, o prefeito Wadjô da Costa Gomide, que havia substituído Plínio Catanhede, enviou o autor da ideia, Rogério Freitas Cunha, à França para fazer um curso de computação. Acaba-se aí o mutirão.