TEMPO MELHOR OCUPADO NA ESCOLA INTEGRAL

Centro de Ensino Fundamental 5, no Guará, é a única escola do Guará que sobreviveu ao projeto de escola integral implantado no Governo Arruda. 200 alunos são atendidos com atividades extra curriculares.

Implantada no Distrito Federal em 2009 como um  dos programas ícones do Governo Arruda, a Escola Integral foi reduzida drasticamente pelos últimos governos, ou por falta de recursos ou por mudança de conceito da escola pública. No Guará, por exemplo, das quatro escolas que receberam o programa, apenas uma se mantém, mesmo assim com algumas dificuldades. O Centro de Ensino Fundamental 5 (Entrequadra 32/34) é o símbolo dessa resistência, fruto do esforço e dedicação de um grupo de professores, coordenado pela professora Rita Lanna de Freitas, e de alguns voluntários de um programa da Secretaria de Educação. Dos cerca de 600 alunos da escola nos turnos matutino e vespertino entre 9 e 12 anos, 200 são atendidos com atividades no contra turno da grade normal.

Enquanto deixam de ficar em casa assistindo TV, mexendo no celular e muitas vezes sem ter o que fazer, esses alunos almoçam na escola além das duas outras refeições  – uma no meio da manhã e outra no meio da tarde – e lá ficam em aulas de informática, música, reforço escolar, aulas de culinária e cultivo de horta.  Mas, poderiam ser bem mais do que os 200 alunos atendidos – 120 com atividades na própria escola e 80 numa parceria com Clube do Sesc do Guará I. De acordo com a coordenadora pedagógica do CEF 5, Ana Lúcia Amorim, a demanda seria para pelo menos mais 100 alunos, o que completaria a metade dos matriculados. “Temos uma grande fila de interessados à espera de vaga, mas não temos como atendê-los com a estrutura que dispomos”, diz ela.

Declaradamente “apaixonada pela escola integral”, a diretora Rita Lanna  enumera as vantagens do projeto e seus ganhos na formação do aluno, na estrutura da família e da própria sociedade. “Enquanto aprendem outras atividades, algumas que pode direcioná-los para uma profissão ou ajudá-los no teste vocacional, esses alunos não correm o risco de serem cooptados pelo mundo das drogas e da violência das ruas, do vício dos celulares e jogos de computador, além, em alguns casos, de fugir do ambiente familiar às vezes ruim”, afirma.

 

Esforço pessoal

Com recursos cada vez mais escassos para investimento na educação, manter uma escola em período integral também fica cada vez mais difícil. É quase um desafio para Rita Lanna e sua equipe. Para manter as diversas atividades complementares, a escola conta com recursos do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF), do governo local, e do  Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), da União para oferecer um almoço de qualidade para 120 crianças, e do Programa Educador Social Solidário, que oferece a ajuda de custo aos monitores dessas atividades, no valor de R$ 30 por dia. Material e equipamentos adequados são adquiridos através  da renda de festas comunitárias, como o tradicional festa junina que escola vai promover no próximo final de semana, 8 de junho. “Na semana passada, conseguimos que a Administração do Guará pintasse a quadra de esportes, que estava em condições ruins. Estamos precisando agora trocar os computadores, porque os atuais estão ficando defasados”, diz a diretora, entre as demandas que a escola precisa.

Mesmo com essas dificuldades, Rita Lanna planeja levar mais atividades diferentes para o CEF 5, como judô, capoeira e educação física.

“As atividades esportivas são importantes também na formação desses jovens, por causa do risco sedentarismo e da necessidade de prepará-los para o mundo competitivo”, sonho dividido com o vice-diretor da escola, Maurício César, professor de educação física por formação.

O prazer dos alunos

Para se ter uma ideia do que realmente representa a escola integral para os alunos é melhor acompanhar pelo menos parte de cada uma das atividades. A primeira que a reportagem do Jornal do Guará acompanhou foi a aula de música, ministrada pelo educador social e professor de música Murilo Martins a um grupo de 10 alunos – todas as turmas das atividades complementares são de 10 alunos, que se revezam  em três atividades por dia. Após a demonstração do que aprenderam cantando a música “Que falta me faz um xodó” (de Dominguinhos), acompanhados no violão por Murilo, Lara Beatriz da Silva conta que pretende ser cantora, mas que a escola foi fundamental na escolha desse objetivo. “Sempre gostei de música, mas não sabia o que era nota musical, afinamento e outras técnicas da música”, diz ela, que fica na loja da mãe quando não está em atividades na escola. “Prefiro ficar aqui”, completa, entusiasmada.

Todas as atividades complementares tem relação com o projeto pedagógico da escola, explica Rita Lanna. As aulas de reforço de Português e Matemática, ministradas pela educadora social Jucilene da Silva Ferreira, também são inseridas no contexto do aprendizado e interagidas com as outras atividades extra curriculares. “Se eu não estivesse aqui na escola fora do período das aulas, estaria limpando a minha casa. Além de me livrar do serviço, estou aprendendo mais”, conta e ri Tamires da Silva Santos, 11 anos.

As aulas de culinária estão entre as mais concorridas pelos alunos do Projeto Integral, por motivos óbvios em se tratando de crianças. Além de ensinar a preparação de comidas saudáveis, como saladas de legumes e de frutas, a educadora social Amanda Ferreira de Araújo não tem como fugir dos pratos com chocolates, “mas tudo com equilíbrio e sem excessos de gordura e açúcar”, explica. As aulas são acompanhadas com muita atenção por Lívia Brandão dos Santos, 10 anos, que garante que cozinha em casa quando a mãe não pode. “Faço comida e bolo para todos. Adoro cozinhar e aqui estou aprendendo mais”, conta.

Mesmo com computadores já meio defasados e com internet limitada, as aulas de Informática despertam muita atenção dos alunos pelo que representam para a formação deles no atual mundo tecnológico.  Para alguns dos alunos, as aulas são a oportunidade para o contato com a informática, como é o caso de Sâmela Sousa Araújo, 10 anos, que não tem computador em casa. “Aqui aprendo a redigir texto, pesquisar receitas, mexer com o Word e outros programas. Aprendo muito com as aulas”, diz ela. Depois das atividades integradas com o currículo, a educadora social Tânia Cristina separa um tempo para que todos possam jogar. “É uma forma deles relaxarem e sentirem mais prazer com as aulas de informática”, explica.

Outra atividade que atrai os alunos é a horta cultivada por eles , onde aprendem a manusear a terra, usar as ferramentas, ler os rótulos,  plantar e cultivar hortaliças saudáveis, sob a orientação da educadora social Maria Claudiane Berto.

Escola pode ser bilíngue

Para o diretor da Coordenadora Regional de Ensino do Guará, Afrânio Barros, o ideal é que houvesse mais escolas na cidade que desenvolvessem o Projeto Integral. “Como a demanda pela escola pública aumentou muito nos últimos anos, tivemos que optar por oferecer vagas e a estrutura das escolas aos alunos que buscavam matrícula pelos cursos regulares. O projeto do CEF 5 sobreviveu porque a escola tem um espaço maior, o que permite oferecer outras atividades sem prejudicar a grade curricular ou tirar a chance de novas matrículas”, explica.

Afrânio conta que o CEF 5 pode se transformar também na primeira escola bilíngue do Guará, através de parceria com Embaixada da Alemanha para o oferecimento do curso de Espanhol a todos os alunos. “Já tivemos a visita deles e o projeto está bem encaminhado para ser iniciado em 2020”, afirma.

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