Guará 51 anos – Que cidade construímos?

De sua criação até hoje, o Guará mudou muito. Em especial na última década, quando a cidade viu uma melhora significativa na oferta de bens e serviços. É latente o crescimento do setor gastronômico e de lazer. Os bons restaurantes saíram do shopping e chegaram às ruas. Aliás, os guaraenses saíram às ruas. Os eventos de praça e a céu aberto multiplicaram-se e resgataram o sentimento bairrista na comunidade – nos meses de seca, são vários eventos abertos por final de semana para curtir de graça. Eventos familiares, organizados por guaraenses, sem ou com muito pouca ajuda do poder público. Os restaurantes da cidade mantêm-se lotados, os bares bem frequentados, as quadras, as igrejas, e até mesmo a rua foi apropriada pelos moradores.
Ainda não conseguimos retomar o uso pleno do Cave, porque mais uma vez o Estado o deixou de lado. Porém, desta vez, há pelo menos uma esperança de reativar todo o complexo através da parceria com a iniciativa privada, para, enfim, entregar algo à altura da população do Guará.
A expansão do Guará II finalmente saiu. A imensa área vazia, cortada por ruas e fios desde 2009, quando o então governador Arruda anunciou a “Cidade do Servidor,” está sendo tomada por construções. Serão cerca de 1700 residências e cerca de 100 comércios a mais no Guará, desta vez em local apropriado, planejado para isso, o que está alavancando a economia local, da loja de materiais de construção aos restaurantes e mercados, passando pela mão de obra ociosa da cidade.
Foi também neste período que o Parque do Guará foi desocupado e a Escola Técnica foi entregue. São duas conquistas importantes, ainda que parciais. No Parque Ezechias Heringer é preciso que o governo cumpra suas sucessivas promessas de revitalizar a área, para entregá-la definitivamente para uso da população.
A Escola Técnica é um avanço na educação da cidade, mas outros são necessários. É preciso universalizar o acesso, principalmente para as mães que precisam trabalhar, investindo em creches e há uma promessa do governo Ibaneis de construir uma creche pública ao lado do Centrão, entre as QEs 17 e 19, até 2020. É preciso também melhorar a estrutura física das escolas, para que acompanhem a dedicação dos profissionais da Secretaria de Educação lotados na cidade. E oferecer oportunidades de ensino superior público mais próximo de casa para os moradores do Guará.

Crescimento
Na última década, as mudanças foram constantes e drásticas. O Guará enfim estabelecia-se como núcleo urbano. Em algumas áreas de forma mais radical que outras, como na avenida central e na avenida contorno do Guará II. A partir das distorções do Plano Diretor Local, que permitiram o avanço vertical dos prédios em frente ao Setor de Oficinas (AE2) e QE 40, e uma nova área residencial no Setor de Oficinas Sul (SOF Sul), iniciando um longo processo de gentrificação que dura até hoje. A gentrificação é quando, em um processo de revitalização de uma área urbana, uma classe economicamente mais favorecida passa a ocupar o espaço de uma comunidade ali estabelecida anteriormente. Essa ação é bem clara no Guará II, principalmente no embate entre os moradores dos nobres prédios residenciais e os tradicionais ferros-velhos e oficinas, que ali estão instalados há anos. Quando os prédios foram construídos, as oficinas mecânicas, lojas de eletrônicos e toda sorte de estabelecimento comercial funcionavam na AE 2A, QE 40 e SOF Sul, mas agora, aos poucos, são substituídas por padarias, lanchonetes e restaurantes, para atender aos novos moradores. Quem resiste sofre com as constantes reclamações dos novos moradores, que não admitem morar ao lado de carros desmontados para conserto, ainda que sejam anteriores aos elegantes apartamentos.
Situação ainda pior é o do Polo de Moda, hoje um grande setor residencial. Criado para ser um polo comercial e industrial, com vocação para a indústria têxtil, para competir com nossos vizinhos goianos, os longos anos sem infraestrutura básica, incentivos fiscais e sequer transporte público adequado aos trabalhadores inviabilizou a maioria das fábricas de roupas. Com isso, os proprietários acabaram aos poucos dividindo seus prédios em pequenos apartamentos de quarto e sala. Ali, nem mesmo o ordenamento de trânsito, que, deveria dar sentido único ao tráfego ans ruas internas, para evitar engarrafamentos e confusões, conseguiu ser realizado até hoje.

Ocupações irregulares
As invasões de área pública fazem parte da história do Guará. Começaram com o avanço das grades em frente às casas, continuaram com o cercamento dos prédios residenciais, a ocupação dos becos e o fundo das casas viradas para o calçadão. Depois, vieram os quiosques e a ocupação do Parque Ezechias Heringer. Muito pouco foi feito para combater essas invasões, com exceção da retirada dos ocupantes do parque. Aliás, pelo contrário, em troca de apoio político e vantagens indevidas, políticos ao longo dos anos negociaram leis para legalizar essas invasões.
O poder público, em alguns casos, foi um grande incentivador, quando, por exemplo, ajudou na distribuição de quiosques pelo Guará, sob o pretexto de regularizá-los. Pessoas que nunca teriam o direito a um quiosque, segundo a lei que entrou em vigor em 2009, como, por exemplo, funcionários comissionados da própria Administração Regional até então, receberam quiosques em áreas nobres com o compromisso de apoiar campanhas eleitorais. Até mesmo uma rua comercial, ao longo da linha do trem, na QE 40, foi criada com esse objetivo.
Boa parte das questões levantadas aqui, por negligência ou anuência do poder público na cidade, se dá pela perda gradual da autonomia política do Guará nas últimas décadas. Aos poucos, a Administração Regional do Guará foi desaparelhada e afastada do gabinete do governador até transformar-se em um mero cartório de recebimento de documentos e ouvidoria para receber reclamações e reivindicações.

Qualidade de vida
Mas, colocando o Guará na perspectiva das demais cidades do Distrito Federal, somos privilegiados. O projeto urbanístico planejado contribui muito para a qualidade de vida dos moradores. São praças, áreas verdes, vias amplas e comércio próximo que difere o Guará de todas as outras cidades do DF. Ainda que novas projeções cheguem à cidade, esses novos prédios já estavam previstos há muito, e não atrapalham o dia a dia da comunidade. As distorções neste planejamento podem causar muitos transtornos e é preciso ficar atento a como a cidade cresce, para que os que aqui residem, e pretendem ficar, tenham sempre o mesmo Guará para viver.

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