QE 60 no forno

Terracap prepara lançamento da nova quadra, entre QE 46 e saída sul. Projeto está concluído e pronto para a licitação dos terrenos

Durante o lançamento do pacote de obras para as quadras novas na semana passada durante a visita do governador Ibaneis Rocha à cidade, o presidente da Terracap, Izídio Santos, afirmou em seu discurso que o projeto da nova quadra do Guará, a QE 60, está todo pronto e deve ser lançado em breve, mas sem precisar a data. As informações de bastidores dão conta que a licitação dos primeiros terrenos aconteça no meio deste ano, entre julho e agosto.


No final do ano passado, o projeto de implantação da quadra tinha cumprido suas últimas exigências, incluindo a mais importante delas, o registro do Plano Urbanístico no Cartório de Imóveis do Guará. As outras etapas, como a licença ambiental e a audiência pública já haviam sido cumpridas.
De acordo com projeto registrado, a QE 60 vai ocupar mais de 290 mil metros quadrados entre a QE 46 e o Setor de Postos, Concessionárias e Motéis, ao lado do Parque Ezechias Heringer, o Parque do Guará. A quadra será 100% vertical, com prédios de até 22,5 metros de altura, ou seja, 6 andares mais pilotis e cobertura. São 107 lotes na nova quadra, sendo 92 deles para uso misto (comercial ou residencial), dois lotes institucionais e 18 lotes para cooperativas habitacionais.
O projeto prevê duas avenidas comerciais, onde se concentrará o comércio da quadra, permitindo que os moradores acessem os serviços a pé. De acordo com a Terracap, “a proposta é integrar novas unidades residenciais a uma variedade de comércio, serviços e opções de lazer, promovendo a vitalidade urbana. Esse tipo de empreendimento é projetado para atender às necessidades dos seus moradores, privilegiando os deslocamentos sem o uso de veículos automotores”. Os lotes de uso residencial vão ficar a menos de 200 metros de uma praça, ou seja, os moradores terão uma área pública a no máximo três minutos de caminhada. As estratégias de sustentabilidade ambiental incluem uma rede de ciclovias conectadas e a existência de calçadas largas e arborizadas, que privilegiam pedestres e ciclistas e desestimulam o uso de carros, reduzindo a poluição atmosférica e a emissão de gases de efeito estufa.

Cooperativas habitacionais

“A mistura de classes sociais é garantida quando se permite que lotes voltados para o mercado imobiliário formal dividam o espaço com lotes destinados a habitações de interesse social no local. Essa iniciativa contribui para a redução do déficit habitacional e das desigualdades socioespaciais com disponibilização de moradias sociais localizadas em áreas urbanas consolidadas e próximas às regiões de maior concentração de empregos, como o Plano Piloto”, explica a Terracap no projeto da QE 60. Assim como nas novas quadras do Guará, a QE 60 vai ter parte dos seus lotes entregues às cooperativas habitacionais.

Preocupação dos vizinhos

A criação da nova quadra não é surpresa, porque a política do Governo do Distrito Federal é criar novas áreas para abrigar mais de 100 mil inquilinos que demandam casa própria, mas, o que chama a atenção é a alta densidade populacional da QE 60, parecida com a do Sudoeste. Esses 8 mil novos habitantes vão ocupar uma área de apenas 29 hectares, ou 290 mil metros quadrados, correspondente a 40 campos de futebol. Todos os 107 lotes previstos no projeto são destinados a construções verticais, com exceção apenas de cinco lotes para equipamentos públicos.
Embora prevista no Plano de Ordenamento Territorial do DF (PDOT), aprovado em 2009 e revisado em 2012, a concentração de tanta gente num pequeno espaço preocupa moradores das quadras próximas, que temem caos no sistema viário e sobrecarga na infraestrutura desse lado da cidade. “A criação dessa quadra como proposta é um absurdo. Vai promover um caos na parte sul do Guará, como o aumento exagerado de pessoas e veículos sem infraestrutura para tanto. A cidade acabou de receber as quadras 48 a 58, para onde estão chegando cerca de 9 mil novos moradores. Não haveria necessidade de se criar tantas habitações por enquanto no Guzará”, protesta a prefeita comunitária da QE 46, a quadra mais próxima da futura QE 60, Célia Caixeta. “Há 25 anos luto pela ocupação da área com uma escola técnica, uma faculdade pública e um centro de saúde, que não serviriam apenas à população do Guará, mas também as de Candangolândia e Núcleo Bandeirante. Estão nos empurrando de goela abaixo, porque essas audiências públicas são apenas para “inglês ver”, completa a líder comunitária.
Para o ex-administrador regional do Guará e morador da QE 44, outra quadra a ser afetada pelo projeto, Wágner Sampaio, “enquanto a população está preocupada com a saúde de seus familiares e acompanhando as datas de vacinação da Covid-19 e preocupados com a volta às aulas dos filhos, o governador Ibaneis Rocha segue a cartilha do ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de facilitar a “passagem da boiada”. Não há demanda no Guará para mais moradias dessa faixa de renda, uma vez que existem diversos lotes vagos na região central e as QEs 48 a 58 nem concluídas estão. O GDF inventa uma nova quadra com previsão de mais de 8 mil moradores sendo que não houve alargamento das vias, construção de escolas, terminais de ônibus e aumento do efetivo policial na região, entre tantos serviços públicos necessários”, afirma. “Puro genocídio vegetal. Vão matar várias espécies de animais, árvores do cerrado, várias nascentes há 300 metros de onde estão querendo desmatar para beneficiar ocupação urbana, sem necessidade”, completa Danilo Albuquerque Lamarca, um dos líderes do movimento contra a criação da QE 60.