“Antes eu não conseguia nem pegar um ônibus sem pedir ajuda na parada”, conta Gildásio Nascimento, operador de máquinas. Não saber qual linha pegar parece algo simples no dia a dia. Basta ler o destino, os números e pronto, não tem erro. Entretanto para muitas pessoas isso não é uma tarefa fácil. Segundo o Censo Demográfico 2022 Alfabetização – Resultados do Universo, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, cerca de 7% da população não sabe ler e nem escrever. Entre os 11,4 milhões de brasileiros está Gildasio.
O operador de máquinas da Conbral, uma das mais antigas empresas na área de construção civil de Brasília, nunca frequentou uma escola. Quando o pai faleceu, era o mais velho dos filhos e precisou assumir todas as funções em casa e começou a trabalhar para sustentar a família. E a construção civil é historicamente o destino no mercado de trabalho para boa parte da população com baixa escolaridade. Estudo produzido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que apresenta o perfil dos trabalhadores do setor no país, mostra que 34% dos entrevistados possuem o ensino fundamental incompleto e 2% são analfabetos.
Apesar dos números alarmantes, as empresas do setor têm feito um esforço conjunto para mudar esse cenário. Atualmente, quase todas as construções oferecem ao operário a oportunidade de passar por uma qualificação durante o período de trabalho. Com o apoio de sindicatos e de entidades da sociedade civil organizada, as construtoras trouxeram a sala de aula para dentro dos canteiros de obras, garantindo o letramento de milhares de trabalhadores.

No próprio canteiro de obras
Em Brasília, um exemplo disso é o Programa de Alfabetização promovido pela Conbral. Ao longo dos anos, mais de 500 pessoas tiveram acesso à educação nas classes de alfabetização e ensino fundamental dentro dos canteiros de obras. A iniciativa que oferece capacitação profissional aos colaboradores ocorre em parceria com o Serviço Social do Distrito Federal – SECONCI/DF. “Além de promover cidadania e dignidade para os trabalhadores, as aulas também são fundamentais para mitigar os possíveis impactos nas construções, aumentando a segurança no trabalho”, afirma Paulo Muniz, Diretor da Conbral. “Com o letramento, os colaboradores conseguem ter uma melhor compreensão dos manuais, quadros de avisos, além de normas técnicas que evitam acidentes e orientam no que diz respeito a práticas para redução de desperdícios e uso eficiente de recursos”.
O Diretor também aponta que o Programa, nos seus mais de 30 anos, tem resultado em um alto índice de satisfação entre os colaboradores. “Aumentando a produtividade e o tempo de permanência deles na empresa”, aponta. “Na Conbral nós temos trabalhadores com mais de 20 anos de casa, que fazem parte da nossa história e que ajudaram a construir o sonho de milhares de clientes”. Atualmente, a escola está localizada nos canteiros de obras do Residencial Portal do Parque II, no Guará II.
“Antes de participar das aulas era muito difícil, porque a gente olhava para um cartaz, por exemplo, e era o mesmo que não estar enxergando nada. A letra estava ali, mas eu não sabia decifrar o que estava escrito”, lembra Gildasio. Assim como o colega, o pedreiro João de Araújo Soares, de 64 anos, é um dos colaboradores da Conbral que participam do curso oferecido pela empresa, em parceria com o SECONCI-DF. “Eu era analfabeto, não conseguia ler e nem escrever direito, então comecei a participar da escola para me aperfeiçoar e desenvolver esse conhecimento”, conta. Já o operador de betoneira Francisco Gilmar Eugênio, 42 anos, afirma que um dos motivos de participar do projeto é para realizar um sonho: o da carteira de motorista. “Eu não sabia quase nada, nem escrever o meu nome direito, e após as aulas eu consegui tirar os meus documentos assinando todos eles. E agora, com o retorno das aulas, pretendo continuar estudando para conseguir tirar a minha CNH”, conta Francisco.
Educação ambiental
Além do acesso à educação básica, a Conbral também promove para os trabalhadores palestras sobre reutilização de produtos, reciclagem e consumo consciente e separação dos resíduos sólidos. A iniciativa tem como objetivo incentivar posturas sustentáveis, visando a melhoria da qualidade de vida, a utilização racional de recursos naturais e a conservação do empreendimento.
“Essas ações práticas têm em vista estabelecer uma relação mais harmônica entre a construtora e o meio ambiente, auxiliando na diminuição de custos e favorecendo o desenvolvimento sustentável, econômico com respeito e proteção à natureza”, finaliza Muniz.










