Entre promessas e realizações

Dos grandes projetos previstos para a cidade, parte está sendo executada, mas outra ainda esbarra na burocracia ou em outras dificuldades para sair do papel

A cidade vive hoje um momento de contrastes no que diz respeito ao seu desenvolvimento urbano e à qualidade de vida da população. De um lado, importantes obras de infraestrutura e saúde avançam e começam a mudar a paisagem da cidade: as novas quadras estão em plena ocupação, a construção do Hospital Clínico Ortopédico já está em andamento, a nova UPA começa a tomar forma e a duplicação da via que liga o Guará ao Núcleo Bandeirante segue em ritmo acelerado. Esses projetos representam uma resposta — ainda que tardia — a antigas demandas da comunidade, que há anos cobra melhorias estruturais e serviços públicos mais próximos e eficientes.
Por outro lado, velhas promessas continuam sem sair do papel. A Avenida das Cidades, a revitalização do Parque Ezechias Heringer, a implantação da QE 60 e a concessão do Cave seguem empacadas, mesmo após audiências públicas, anúncios oficiais e a superação de alguns entraves técnicos. Esses projetos, muitos deles com décadas de história, simbolizam a frustração de moradores que já não sabem se devem esperar ou desistir de ver esses espaços finalmente transformados.
Nesta reportagem especial, o Jornal do Guará reúne informações exclusivas sobre os projetos que deslancharam e os que continuam engavetados, revelando os avanços concretos e os desafios que ainda precisam ser enfrentados. É um retrato fiel da luta por uma cidade mais justa, moderna e integrada, onde as conquistas são comemoradas, mas os sonhos não são esquecidos.

Projetos Empacados

Avenida das Cidades: O gigante adormecido da mobilidade

Prometida por diversos governos desde a década de 1990, a Avenida das Cidades é um dos maiores exemplos de projeto estrutural que nunca se concretizou. Nascida como “Interbairros” ainda no governo Cristovam Buarque, passou por reformulações e rebatismos nos governos seguintes, como “TransBrasília” e, mais recentemente, voltou ao centro das promessas como uma das prioridades da gestão Ibaneis Rocha.
Com potencial para transformar a mobilidade urbana do Eixo Sul e conectar Samambaia ao Plano Piloto por 26 km de via expressa, ciclovias e parques, o projeto avançou timidamente. Em 2021, uma audiência pública foi promovida pela Secretaria de Mobilidade (Semob), e a licença ambiental foi concedida pelo Ibram. Também foi firmado um acordo entre GDF, ANEEL, Furnas e Terracap para o aterramento da linha de alta tensão, eliminando um dos principais entraves técnicos.
O projeto, com custo estimado entre R$ 3 e R$ 4 bilhões, seria viabilizado por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP), com a concessão de terrenos lindeiros em troca da obra. Um consórcio brasiliense, formado por 13 empresas, chegou a manifestou interesse em executar a obra. O projeto prevê três faixas por sentido, ciclovias, 200 km de calçadas, oito parques e o plantio de 700 mil árvores. Ainda assim, o projeto está paralisado no Tribunal de Contas do DF, e não há sinalização concreta de que o governo pretenda retomá-lo em breve.
Para o Guará, os impactos seriam profundos: além de facilitar a mobilidade com conexão direta ao Plano Piloto e a Samambaia, o projeto inclui a implantação do Centro Metropolitano, entre Guará I e II, onde hoje estão as torres de transmissão de nergia. A região ganharia novas moradias, comércios e serviços, integrando o transporte público e reduzindo o trânsito nas vias paralelas, como EPTG e EPNB.

 

QE 60: entre promessas, licitações e preocupações

A criação da nova quadra QE 60 é outro projeto urbanístico que não deslanchou ainda como prometido. Com potencial para abrigar cerca de 8 mil moradores em uma área de 29 hectares entre a QE 46 e o Setor de Postos e Concessionárias, a quadra foi concebida para ser um modelo de ocupação vertical, com infraestrutura integrada, ciclovias, praças e duas avenidas comerciais.
Apesar do lançamento do edital de venda dos primeiros lotes pela Terracap e da previsão de obras de infraestrutura como drenagem, asfalto e meio-fio, pouco se materializou. A licitação das obras dessas benfeitoras está marcada para este mês de julho, o que pode ajudar a deslanchar a venda dos terrenos, que ainda não aconteceu após a oferta de terrenos em três editais pela Terracap.

 

Parque Ezechias Heringer: promessa de um Central Park no Guará

Desde 2019, moradores aguardam a revitalização do Parque Ezechias Heringer, a principal área verde da cidade. O projeto prevê pistas de caminhada, ciclovia, quadras esportivas, pista de skate, passarelas, academia ao ar livre, pontos de encontro comunitários e estacionamento e um museu botânico, além dos equipamentos que já existem.
A proposta também inclui a revitalização das duas áreas: a parcialmente ocupada, chamada de AE 27 que se estende até atrás do terminal rodoviário do Guará II e a 28, ao lado do ParkShopping. Em cada uma delas, estão planejadas trilhas ecológicas, pistas para caminhada e ciclismo separadas, banheiros públicos, academia ao ar livre e passagens subterrâneas para fauna.
Mesmo com licenciamento ambiental em andamento no Ibram, o projeto foi praticamente abandonado ou não anda. Nenhuma intervenção foi realizada, e o parque segue com estrutura precária, sujeita à ocupação irregular, vandalismo e degradação ambiental. A promessa de transformar o espaço em um “Central Park” de Brasília não passou de discurso.

PPP do Cave: um complexo abandonado

O Complexo Esportivo e de Lazer do Guará é outro retrato do abandono ou da inércia provocada pela burocracia. Estádio demolido, ginásio interditado, quadras inutilizadas. Há mais de uma década, promete-se uma parceria com a iniciativa para modernização do espaço, mas até hoje nada foi concretizado.
A ideia inicial remonta ao governo Agnelo Queiroz, que previa transformar o estádio em arena multiuso para complementar o Estádio Mané Garrincha. Recursos chegaram a ser destinados, e obras iniciadas, mas erros no projeto executivo, falta de estudos geológicos e desistência da empreiteira travaram a reforma.
No governo Rollemberg, surgiu a proposta de concessão do Cave à iniciativa privada, mediante reforma e gestão em troca da exploração do local. O edital foi lançado em 2022, mas pressões do segmento cultural, contrário à inclusão do Teatro de Arena no pacote, levaram o TCDF a suspender a licitação.
Somente em 2025 foi aprovada na Câmara Legislativa a regularização fundiária e o parcelamento da área em 20 lotes, o que permitiu avançar na conclusão do Procedimento de Manifestacão de Interesse (PMI). Com o Teatro de Arena excluído do projeto, o caminho parecia livre, mas a licitação segue sem avanços, travada por burocracia e inércia administrativa.
Hoje, o ginásio está interditado há seis anos, o estádio segue destruído, e as quadras públicas estão impraticáveis. O Guará segue sem um centro esportivo e cultural que poderia beneficiar milhares de moradores e movimentar a economia da região.

Projetos deslanchados

Novas Quadras (QEs 48 a 58): a cidade cresce entre canteiros de obras

As chamadas novas quadras do Guará, as QEs 48 a 58, têm vivido uma verdadeira transformação. Após anos de promessas, o que antes era apenas terreno parcelado começa a ganhar forma urbana. Cerca de 1 mil casas já foram construídas e dezenas de outras estão em fase avançada de obra.
Desde 2023, o Governo do Distrito Federal investiu cerca de R$ 17 milhões em infraestrutura para essas quadras. Foram construídos mais de 8,6 km de pavimentação, 11 mil metros de rede de drenagem, 116 bocas de lobo e 24,9 mil metros de meio-fio. Também foram implantadas vagas de estacionamento e sinalização de trânsito.
A Terracap, em parceria com a Seduh, começou a implantar equipamentos urbanos como praças e áreas de convivência. A primeira a ser entregue será a da QE 56, que será dividida em quatro zonas principais: espaço de permanência com mesas, bancos e pergolados; área esportiva com quadras de areia; área para pets com gramado resistente; e um parquinho infantil acessível, cercado por um pomar com espécies do Cerrado. O projeto prevê também arborização com pau-ferro, sucupira, angico-branco, oiti e cabeleira, entre outras espécies.

 

Hospital Clínico Ortopédico do Guará: um novo polo de saúde está nascendo

A construção do Hospital Clínico Ortopédico do Guará (HCO) está oficialmente em andamento e representa um marco importante para a saúde da região. Localizado em um terreno de 70 mil m², entre o Parque Ezechias Heringer e a UBS 2 do Guará II, o hospital será um centro de referência em ortopedia, com 160 leitos e estrutura completa de atendimento especializado.
Com investimento de R$ 174 milhões na obra e mais R$ 30 milhões em equipamentos, o hospital vai atender pacientes encaminhados por outras unidades, desafogando os grandes centros de trauma do DF. Haverá atendimento especializado para lesões em coluna, joelho, tornozelo, pé, quadril, mão e outros segmentos ortopédicos, além de alas de clínica médica.
Embora parte da população esperasse um hospital de “portas abertas”, a Secretaria de Saúde explicou que a decisão de construir um hospital vocacionado à ortopedia se baseia em dados que mostram a alta demanda por cirurgias eletivas na especialidade, que ocupam leitos de emergência em hospitais gerais.

 

UPA do Guará: maior e mais moderna

A Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Guará, do tipo 3, será a maior do Distrito Federal. Localizada na QI 23 do Guará II, em frente à estação do metrô, a unidade já está em fase avançada de construção. Terá 2.632 m² de área construída e 65 leitos, sendo 33 para adultos e 32 pediátricos, além de consultórios, sala de estabilização, isolamento, curativos, brinquedoteca, farmácia, laboratório e centro de imagem.
As UPAs atuam como elo entre UBS e hospitais, oferecendo atendimento a casos de média complexidade como fraturas, infecções, crises hipertensivas e outras urgências. Com a nova unidade, os moradores do Guará e regiões vizinhas como Riacho Fundo e Estrutural terão mais acesso ao atendimento, evitando deslocamentos para outras cidades.
A obra, gerida pelo IgesDF, está prevista para ser concluída até fevereiro de 2026. Paralelamente, será realizado processo seletivo para formação de equipes, garantindo funcionamento imediato após a entrega.

 

Duplicacão da via Guará – Núcleo Bandeirante: mobilidade a caminho

Após 15 anos de expectativas, a duplicacão da via entre Guará e Núcleo Bandeirante está finalmente em andamento. A obra, com 1,2 km de extensão, liga a Avenida Contorno à Quadra 3 do Park Way, e é considerada essencial para a mobilidade do Eixo Sul.
O projeto inclui a construção de uma nova ponte sobre o Córrego Vicente Pires, drenagem pluvial, ciclovia de 3 km, calçadas, sinalização e paisagismo. Uma faixa já foi liberada para trânsito, aliviando o fluxo em horários de pico. O investimento, é de R$ 12 milhões.
A duplicação resolve o problema do afunilamento da pista em trecho de alto fluxo e os frequentes alagamentos que ocorriam devido à drenagem insuficiente.
A previsão é de que a obra seja concluída até setembro – falta apenas a conclusão da ponte. Quando pronta, facilitará o deslocamento entre o Guará, Águas Claras, Arniqueira, Bernardo Sayão e Núcleo Bandeirante, integrando-se às principais rotas de trânsito e melhorando significativamente a fluidez e qualidade de vida dos moradores.