
O Complexo Adminsitrativo Vicencial e Esportivo do Guará, o Cave, está entre os espaços públicos mais emblemáticos — e mais negligenciados — da cidade. Com o estádio demolido, o ginásio interditado e as quadras inutilizadas, o espaço há anos aguarda por uma requalificação que nunca chega. Em meio a discussões sobre parcerias com a iniciativa privada e entraves burocráticos que emperram licitações, uma proposta alternativa surge, vinda da universidade. A Parceria Público Privada que vai dar nova cara ao espaço está em andamento, a previsão é que a licitação definitiva da PPP ocorra ainda este ano.
Enquanto a população aguarda a formalização dos investimentos na área, a estudante Ana Clara Carvalho Correia Cavalcante, aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília , decidiu dedicar seu Trabalho de Conclusão de Curso à requalificação do CAVE. Importante destacar: trata-se de um exercício acadêmico, sem caráter oficial, que não foi validado por órgãos públicos. Ainda assim, o trabalho apresenta uma contribuição relevante ao debate sobre o futuro do espaço.

Da leitura urbana ao desenho do projeto
Batizado de Ressignificando Paisagens – Parque do Centro Administrativo Vivencial e Esporte, o TCC parte de uma leitura sensível do território. A proposta não trata o CAVE como um espaço vazio a ser preenchido ou corrigido, mas como um território vivo, rico em práticas esportivas, encontros informais, usos populares e memórias afetivas. A estudante optou por valorizar as dinâmicas já presentes, propondo articulações entre elas e soluções que respeitam os ritmos do lugar.
O trabalho adota uma abordagem multidisciplinar e multiescalar, alinhada às diretrizes internacionais de sustentabilidade, como os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Entre os princípios que norteiam a proposta estão as soluções baseadas na natureza e a infraestrutura verde, com foco na recuperação ambiental e integração urbana.
O projeto diagnostica uma fragmentação funcional, espacial e ecológica na área do CAVE, agravada pela impermeabilização excessiva, abandono prolongado e ocupações desordenadas. A partir desse cenário, propõe intervenções que buscam recompor fluxos, revitalizar estruturas e recuperar funções ecológicas essenciais, como o equilíbrio hídrico da bacia do Córrego Guará.
Entre os pontos centrais do projeto está a recuperação das dinâmicas naturais da água. A proposta inclui a implantação de sistemas de drenagem sustentável, como lagos de retenção, jardins de chuva e pavimentos permeáveis, pensados para reter, infiltrar e filtrar a água das chuvas antes que ela alcance o córrego. O objetivo é mitigar os impactos da urbanização e promover o reabastecimento do lençol freático, beneficiando também o habitat de espécies ameaçadas, como o pirá-brasília.
Esses elementos técnicos ganham uma dimensão pedagógica e simbólica, integrando o cotidiano urbano a uma consciência ambiental. O lago de retenção, por exemplo, é concebido não apenas como infraestrutura, mas também como espaço público de convivência e educação ambiental. Para Ana Clara, é possível aliar eficiência ecológica a uma arquitetura sensível e democrática.

PPP à vista
Durante o governo Rollemberg, surgiu a proposta de uma Parceria Público-Privada (PPP) que transferiria à iniciativa privada a responsabilidade pela reforma e gestão do complexo, em troca da exploração econômica do espaço. Um edital foi lançado em 2022, mas acabou suspenso pelo Tribunal de Contas do DF após pressão de setores culturais contrários à inclusão do Teatro de Arena no pacote.
Em 2025, a situação começou a avançar. A Câmara Legislativa aprovou a regularização fundiária da área, que foi dividida em 20 lotes, permitindo a conclusão do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI). Com o Teatro de Arena excluído da concessão, todas as etapas legais para a concessão da área foram vencidas.









