Morango do Amor impulsiona negócios locais

A sobremesa que virou sensação nas redes sociais movimenta a produção, gera renda e atrai novos clientes de diversas regiões para a cidade

por Elsânia Estácio

Mais do que um sucesso de vendas, o Morango do Amor tem se tornado um fenômeno que impulsiona significativamente a economia local do Guará, transformando a rotina das confeiteiras da região com a alta demanda nas encomendas e movimentando toda a cadeia produtiva, desde os confeiteiros até os fornecedores de morango.
Nas redes sociais, o doce viralizou rapidamente e tem gerado enorme repercussão ao atrair consumidores de várias cidades, muitos deles vindos de fora do Guará especialmente para provar a novidade. Esse movimento fortalece o comércio local e estimula a criatividade dos empreendedores, que investem em variações e melhorias no produto para atender à demanda crescente.

O boom do Morango do Amor
No Guará II, a proprietária da Bela Doceria, Clarence Camila de Carvalho, lembra que o Morango do Amor já fazia parte do cardápio, porém de forma discreta, até o doce viralizar. “A ideia surgiu a partir de pedidos dos clientes e do desejo de inovar com um doce que fosse tradicional e visualmente atraente”, conta Clarence.
Com a explosão da procura, ela precisou reorganizar toda a produção para atender à alta demanda. “Aumentei a quantidade de ingredientes e ajustei os horários para conseguir entregar a tempo. Foi um desafio, mas também uma oportunidade de crescer.”
A rotina da família também mudou com o boom das vendas. “Ficou mais intensa, mas é gratificante ver o reconhecimento e a felicidade dos clientes”, afirma Clarence. Os feedbacks positivos são constantes, e alguns relatos emocionam. “Uma cliente disse que finalmente encontrou ‘O Morango do Amor’ após provar várias versões sem satisfação. Esse tipo de retorno motiva muito.”
Além do lucro, Clarence destaca o impacto emocional: “Ver que algo que criamos com carinho toca a vida das pessoas e desperta lembranças é muito gratificante.” Ela planeja manter o Morango do Amor como um clássico, especialmente em datas sazonais, e até criar a “Sexta do Amor” para celebrar a iguaria.

Grazi Andrade já lançou três versões diferentes: brigadeiro de cacau, pistache e, em breve, maracujá. “Meu maior desafio foi acertar o ponto da calda, mas a experiência com vendas em larga escala ajudou.” Entre os clientes, muitos repetem a compra várias vezes na semana, com elogios como “espetacular” e “doce equilibrado”.

Uma aposta em tempos difíceis
Para Grazi Andrade, a explosão nas vendas do doce viral foi uma ajuda providencial. Proprietária do Ateliê de Doces Grazi Andrade, ela revela que o Morango do Amor foi decisivo para superar dificuldades financeiras. “Com as vendas, consegui pagar o aluguel e outras despesas atrasadas. Foi como um presente de Deus no momento certo”, diz.
Werverton Beserra, cliente fiel, conta: “O Morango do Amor que comprei em outro lugar não me agradou, mas o da Grazi é diferente. O brigadeiro branco não é enjoativo, e a casquinha doce, combinada com todo o recheio, cria uma harmonia de sabores que torna o doce agradável e irresistível.”
Já Flávio Martins destaca a leveza e a crocância do doce, além do ambiente acolhedor do ateliê. “Conheci o Morango do Amor pelas redes sociais e fui experimentar. O doce tem uma casquinha fina e crocante que se mistura à acidez da fruta e ao chocolate, criando um sabor leve e único. A versão de pistache é especialmente incrível. Além disso, o ambiente da Grazi é acolhedor e transmite uma energia muito boa, diferente de outras lojas, o que torna a experiência ainda mais especial.”
Grazi também percebeu um aumento no público, incluindo pessoas de outras regiões, como Noroeste, Taguatinga e Águas Claras, que vão ao Guará só para buscar o Morango do Amor. “Hoje, 80% dos meus clientes são do Guará, e a maioria veio até a loja me convencer a fazer o produto”, comenta.

Para Luana Pereira Gagliardi, a viralização atual só foi possível porque o produto se tornou viável para produção em larga escala. “O morango é delicado e exige seleção criteriosa. Fora de época, a produção não compensa. Mas agora, com a alta demanda, conseguimos entregar um produto perfeito.”

Tradição e inovação no Guará

Fundadora da loja online Misturas que Agradam, Luana Pereira Gagliardi vende doces no Guará há mais de 10 anos e conta que o Morango do Amor já estava no cardápio desde 2020, quando o incluiu em um festival de caramelizados durante a pandemia. “Fiz campanhas para impulsionar as vendas pelo Instagram e comecei com o festival dos caramelizados, que inclui morango, uva e cereja do amor.”
Luana destaca a importância do movimento para revitalizar o setor. “É emocionante ver colegas confeiteiras que pensavam em fechar as portas conseguirem se manter graças a esse doce.” Ela reforça que o sucesso não é apenas uma moda passageira, mas uma tendência que permanece, principalmente na época da safra do morango.
O processo para atender à alta demanda envolve noites viradas e muito cuidado, já que trabalhar com calda de açúcar é perigoso e exige técnica apurada. Luana também compartilha que o impacto emocional da alta demanda a ajudou a superar um momento de depressão após a perda do pai. “É emocionante ver os relatos dos clientes e perceber que nosso trabalho faz a diferença.”

“O maior desafio foi manter a qualidade mesmo com o aumento dos pedidos. Mas ver o brilho nos olhos dos clientes e ouvir histórias de infância resgatadas pelo sabor é algo que não tem preço”, diz. A confeiteira já planeja a “Sexta do Amor”, um dia especial dedicado ao produto, conta Clarence Camila de Carvalho.

O reflexo do sucesso também chegou aos campos
Em Brazlândia, Wederson Dirceu de Lima, produtor rural e dono da empresa Neném do Morango, comemora o aumento expressivo na procura pela fruta. “O crescimento foi geral em todo o DF. Hoje colhemos cerca de 2 mil caixas por dia, e muitos pedidos vêm de confeiteiros do Guará. Selecionamos morangos maiores para atender à demanda específica do Morango do Amor”, afirma.
Produtor e fornecedor de morangos para diversas cidades do Distrito Federal, José Jailson Filgueira Ponciano, também morador de Brazlândia, acompanhou de perto o impacto do Morango do Amor, não só nas docerias, mas também no campo. “A procura aumentou muito, cerca de 50%. Muita gente nova começou a comprar, principalmente confeitarias e doceiras que nunca tinham me procurado diretamente. Isso mudou completamente nosso ritmo. Tivemos que adaptar os dias de colheita, fazer uma seleção mais rigorosa e trabalhar com mais frequência para manter a qualidade dos morangos”, explica.

“Com essa movimentação, conseguimos melhorar a renda da comunidade agrícola e estimular o desenvolvimento regional. Além disso, tivemos que adaptar nossa logística para garantir a entrega rápida e a qualidade dos morangos, já que o produto final exige um cuidado especial”, conta Wederson Lima