Peregrinações sonoras, por Mario Pazcheco

O Guará sempre teve seu som. Uns dizem que morreu, outros que só cochilou atrás dos muros altos e dos prédios que engoliram as esquinas. Mas de vez em quando a guitarra de alguém rompe o silêncio.

Dias atrás, tropecei na notícia de que a guitarra de Anapolino calou. O homem que fez a Matuskela atravessar décadas, da época do mutirão ao asfalto, partiu. Pioneiro, desses que erguiam casas de um lado e bailes do outro. Guitarrista de mão firme, voz que sabia o peso das notas e dos dias.

Lembrei-me das minhas próprias andanças: a feira do Paranoá onde caçava rádios antigos; a rua de ferros-velhos na Estrutural onde quase comprei um tapete vermelho; o Usadão da QE 40, com o dono encostado na poltrona ouvindo rock setentista, tranquilo entre as quinquilharias. Cada objeto velho carrega uma trilha sonora. Cada sucata tem seu riff engavetado.

Anapolino tocava quando o Guará ainda tinha alma de conjunto residencial, de campo de futebol de terra batida, de vizinhos na calçada. Hoje, o que sobra são farmácias multiplicadas e olhares apressados no caixa do supermercado. Mas, se você fechar os olhos, ainda pode ouvir um eco – a guitarra cortando o ar, abrindo espaço na noite.

O Guará envelheceu, sim. Os tempos mudaram, sim. Mas enquanto houver quem se lembre da Matuskela, do mutirão, das tardes de ensaio e da ousadia de meter guitarras em pleno cerrado, o silêncio nunca será total.

Anapolino descansou, mas sua música segue peregrinando pelas ruas do Guará, misturada ao latido de um cão preto, ao ronco dos carros e ao tilintar das moedas nas mãos dos que ainda garimpam sonhos nos ferros-velhos da cidade.