
O documentário Conexões Atípicas 2 começa a ser exibido em setembro com apoio da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, e filmagens realizadas no Centro de Ensino Especial 01 do Guará. O projeto, idealizado pela professora e pesquisadora Tayra Sasha Castillo, que está no espectro autista nível 1, dá continuidade à primeira edição exibida em 2024 e aprofunda o debate sobre o papel da arte no processo educativo de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

A nova produção mergulha nas vivências de professores, monitores, familiares e alunos, revelando como ritmos, melodias, dança e movimentos corporais estimulam micro avanços no cotidiano escolar. A obra ressalta a importância da cultura e da ludicidade como elementos transversais na educação inclusiva. Com atividades conduzidas por Tayra, pela professora de dança somática Mariângela Andrade e pela cantora e professora Damelis Castillo, o filme registra a força da música e da dança na rotina do CEE 01.
Segundo Damelis Castillo, coordenadora de produção executiva, a evolução entre as duas edições é visível. “Na primeira edição, patrocinada pelo Fundo de Apoio à Cultura, observamos de perto as rotinas e selecionamos alunos que já demonstravam afinidade com a música e a dança. O documentário trouxe a poética de um drone que chegava suavemente ao Guará, simbolizando a busca por compreender uma realidade que precisa deixar de ser tabu. Já na segunda edição, com o apoio da Lei Paulo Gustavo, houve mais confiança e experiência. Trabalhamos com alunos dos espectros 2 e 3, inclusive não orais, e o mais marcante foi presenciar sons guturais, balbucios e melodias, além de alunos tentando contato visual e dançando no próprio tempo e espaço. Foram momentos únicos e inesquecíveis.”

A idealizadora Tayra Sasha Castillo destaca que a segunda edição foi marcada por maior proximidade com a comunidade escolar. “A convivência foi mais espontânea. Alunos, famílias e professores nos acolheram com confiança, o que possibilitou registros mais profundos e reveladores. Essa troca mostrou que a arte é um caminho inclusivo e transformador, capaz de dar visibilidade a realidades cheias de fé e esperança.”
Outro diferencial do projeto é o resgate das raízes indígenas andinas e caraíbas de Damelis e Tayra, que inspiraram as oficinas de Dança com Akjaru, expressão que significa Dança com Alma na língua Kariña. “Aprendemos com mestres indígenas cantos de acolhimento, danças ao redor do fogo e instrumentos feitos da natureza. O mais marcante era a forma amorosa e inclusiva como pessoas com necessidades especiais eram tratadas durante celebrações e tarefas cotidianas. Esse olhar foi incorporado em nossas oficinas, valorizando cada gesto e cada tempo de conexão, seja de segundos ou meses, sempre como experiências sagradas”, lembra Damelis.
Para Tayra, o papel da escola pública e da arte é central na construção de uma sociedade mais justa. Ela ressalta que, apesar dos avanços na inclusão escolar nas últimas duas décadas, ainda há uma grande defasagem. “Muitas famílias permanecem sem orientação e suporte especializado, o que torna impossível sustentar as necessidades de alunos no espectro 2 ou 3 apenas com um ou dois salários mínimos. Precisamos fortalecer a educação integral e a saúde pública. A arte, nesse contexto, é mais do que expressão: é ponte de conexão, acolhimento e resistência.”
O grupo pretende dar continuidade à iniciativa, promovendo exibições, rodas de conversa e palestras. Também está nos planos a produção de novos documentários, séries e vídeos inclusivos voltados à arte-educação. “Queremos seguir sensibilizando, debatendo e conscientizando. A dança, a música e a expressão artística nos conectam criativamente ao nosso DNA e ajudam a reivindicar direitos humanos e qualidade de vida para toda a comunidade”, afirma Damelis.
O documentário tem direção audiovisual de Leandro Lago, roteiro de Marina Miranda e Mariângela Andrade, direção de arte de Luana Wernick, pesquisa cinematográfica e apoio de câmera de Gabriela Pereira, fotografia de Alfredo Pérez e produção executiva coordenada por Damelis Castillo. O projeto envolveu seis profissionais com deficiência, entre eles quatro autistas, e contou com a parceria de Guaramo Arte do Mundo, Bambuo, Terra Doce Lar, Interarkt Films, CAPACITA e o Centro de Ensino Especial 01 do Guará.









