Amarildo de Castro – O olhar atento que registra o cotidiano do Guará

Ele é quase onipresente: em qualquer evento na cidade, lá está ele, de colete, sempre com sua inseparável câmera fotográfica. Amarildo Antonio de Castro, 55 anos, é hoje um dos três principais comunicadores da cidade, com o seu Blog do Amarildo e o Jornal GuaráHoje. É uma espécie de repórter de rua, que não tem medo nem de sol e nem de chuva, espírito que trouxe dos tempos em que viveu na roça.
De origem humilde no interior na pequena Nova Aurora, na microrregião de Catalão (GO), Amarildo veio para Brasília em 1989, em busca de trabalho e de melhores oportunidades. Na época, havia acabado de concluir o ensino médio, mas sabia que sua pequena cidade natal não oferecia perspectivas profissionais. Morou inicialmente no Guará, com duas irmãs que já estavam estabelecidas na cidade.
Com dificuldades financeiras e sem condições de ingressar de imediato na faculdade, buscava uma oportunidade de trabalho para se manter. Foi por intermédio da irmã Maria José que conseguiu um estágio como paginador no Jornal de Brasília, quando as páginas dos jornais eram montadas manualmente. Em poucos dias demonstrou empenho e responsabilidade. A dedicação deu resultado: cerca de um mês depois foi contratado oficialmente como diagramador, o profissional que cria o layout e calcula a distribuição do texto.
O salário, equivalente a dois salários mínimos atuais, foi seu primeiro grande passo rumo à independência. “Abracei aquela chance como se fosse a única oportunidade da minha vida”, relembra Amarildo. Essa decisão marcaria o início de uma longa e consistente trajetória no jornalismo comunitário.
No Jornal de Brasília permaneceu na função de paginador por cerca de seis anos. Nesse período, conheceu Alcir de Souza, editor do Jornal do Guará, que era impresso na mesma gráfica do Jornal de Brasília. Algum tempo depois, Amarildo foi convidado a colaborar com o jornal local, participando da montagem das edições e onde ficou por cerca de 14 anos. “O Jornal do Guará foi a minha escola de jornalismo comunitário”, garante.

DIFICULDADES NA CONCLUSÃO DOS ESTUDOS
Apesar de já ter concluído o ensino médio em sua cidade natal, Amarildo enfrentou um entrave burocrático ao descobrir que a documentação da escola estava irregular. Isso o forçou a refazer as etapas curriculares por diversas vezes, interrompidas pelo trabalho. Em uma dessas tentativas, chegou a estudar no Colégio Projeção do Guará, mas precisou abandonar o curso ao ser promovido a diagramador no Jornal de Brasília, o que alterou seus horários de trabalho. Em outro momento, iniciou novamente os estudos no antigo Colégio Compacto, quando já tinha 22 anos.
Coincidentemente, nesse mesmo ano, a escola de Goiás regularizou seu diploma antigo, e ele foi contratado como diagramador pelo Correio Braziliense, com um salário cerca de 50% superior ao que recebia. Com diploma reconhecido e um novo desafio profissional, decidiu focar totalmente no trabalho. “Sempre gostei de estudar, fui aluno destaque por onde passei, sem precisar que ninguém me empurrasse. Mas a vida exigiu que eu fizesse escolhas”, afirma.
A rotina intensa de trabalho tomou conta dos anos seguintes. Atuando como diagramador e freelancer em diversos projetos, Amarildo conta que trabalhava cerca de 15 horas por dia, mas nunca deixou de visitar suas raízes em Nova Aurora. “Nunca abandonei minha origem. Sempre que podia, voltava à minha cidade e à roça. Era minha forma de manter os pés no chão”, diz. Apesar das idas e vindas, o Guará sempre teve um lugar especial em sua trajetória. “Sempre gostei muito do Guará. É minha segunda cidade, tenho um vínculo forte com esse lugar. Foi aqui que tudo começou”.
Ainda na década de 1990, tentou ingressar na faculdade de Jornalismo, mas não conseguiu aprovação nos vestibulares para as instituições que desejava. Decidiu, então, cursar Administração de Empresas na UDF, de 1999 e concluiu a graduação em 2005. A experiência acadêmica trouxe novos conhecimentos, mas sua paixão pela comunicação permaneceu intacta.

NEGÓCIO PRÓPRIO
Depois de anos trabalhando como diagramador e freelancer para diversos jornais — incluindopara o Jornal do Guará — Amarildo decidiu criar seu próprio veículo. Assim nasceu o Jornal GuaráHoje, pensado inicialmente como uma iniciativa independente, sem intenção de concorrer ou romper laços com antigos colegas. “Eu não queria disputar espaço com ninguém. Comecei o GuaráHoje porque era no Guará que eu conhecia o público, onde eu sabia circular, onde tinha apoio. Não fazia sentido fazer em outro lugar. E deu certo”, resume. O jornal funcionou por mais de 15 anos e ajudou a consolidar Amarildo como uma das principais vozes da imprensa local.
Em 2008, casou-se e buscou Apesar do desejo de permanecer no Guará, os preços elevados o levaram a procurar alternativas. Encontrou no Valparaíso uma opção mais acessível, com boas condições para adquirir um imóvel próprio. “Mesmo mudando de cidade, nunca pensei em deixar de atender o Guará. Era o meu público, meu vínculo, minha referência”, destaca.
Nos primeiros anos, continuou indo diariamente ao Guará. Hoje, com três filhos e outras responsabilidades, reduz a frequência, mas ainda visita a cidade de três a quatro vezes por semana. “Se fico dois dias sem ir ao Guará, já fico chateado comigo mesmo”, confessa.
Atualmente, eleconcilia a atuação no Blog do Amarildo e nas redes sociais com o trabalho noturno no Correio Braziliense. Com a mudança no consumo de informação e a evolução das tecnologias, ele optou por pausar temporariamente a edição impressa do jornal.
Por causa da experiência no ramo, conseguiu o registro profissional de Jornalista pela Delegacia Regional do Trabalho, de acordo com uma decisão do STF que regulamentou a profissão.