Hóquei em patins no Guará

Time Brasília Hóquei resiste desde 2003 e treina em quadra pública. Modalidade é pouco conhecida no Brasil, mas desperta paixão de praticantes

Na quadra da Praça da QI 7, que poderia passar despercebida na rotina da cidade, se transformou em palco de resistência esportiva. É ali que o Brasília Hóquei, um dos times mais antigos de hóquei em patins do Distrito Federal, encontra espaço para treinar, conviver e manter viva uma modalidade pouco conhecida no Brasil. Fundado em 2003, o time nasceu da iniciativa de Rinaldo, João Antônio e Anísio, entre outros, ainda no Riacho Fundo, reunindo jovens apaixonados por patinação e por um esporte que misturava velocidade, técnica e espírito coletivo. De lá para cá, foram anos ocupando diferentes quadras públicas do DF — Águas Claras, Samambaia, 910 Sul — sempre disputando espaço com outras modalidades e enfrentando dificuldades estruturais.


Hoje, a equipe encontrou no Guará uma espécie de porto seguro. O piso liso e as grades baixas da quadra da QI 7 ajudam a conter o puck, o disco usado no jogo, e fazem do local um ponto ideal de encontro. Mas a importância do espaço vai além da parte técnica: é ali que o hóquei se mostra à comunidade. Everton, conhecido como Tom, que desde o início é uma das lideranças do time, lembra da trajetória e do que significa ocupar a praça: “O Brasília Hóquei foi fundado em 2003, no Riacho Fundo. Hoje a gente treina aqui no Guará, mas já passamos por muitas quadras diferentes. Sempre tivemos que disputar espaço com outros esportes e até com equipes maiores. Já houve situações em que fomos expulsos, como aconteceu na 910 Sul, onde um time de basquete tinha prioridade. Aqui no Guará encontramos um espaço mais democrático, mas ainda enfrentamos dificuldades para treinar. Segundo ele, “o hóquei em patins não tem tanta visibilidade no Brasil. Mas quando a gente ocupa uma quadra aberta, atrai o olhar da comunidade e mostra que o esporte é para todos, desde crianças até atletas mais velhos. Isso ajuda a popularizar a modalidade e a dar vida aos espaços públicos”, garante.
O time é formado por jogadores de várias regiões do DF: Riacho Fundo, Samambaia, Águas Claras, Sobradinho e Guará. Essa diversidade garante uma troca de experiências única, mas também reforça a dimensão comunitária da equipe. Para Lucas Daniel, atacante, o esporte vai muito além do resultado em quadra: “O hóquei não é só velocidade e gol. É amizade, é viagem, é superação. Mostra que a patinação e o esporte podem ser para todos.”
A mesma visão de acolhimento aparece no relato do colombiano Juan Martínez, que encontrou no Brasília Hóquei um espaço de pertencimento quando chegou a Brasília: “O hóquei é um esporte que une pessoas. No meu país ele já é mais conhecido, e aqui no Brasil encontrei uma família dentro do Brasília Hóquei. A gente treina, viaja junto, se ajuda. Não importa de onde você vem, o hóquei sempre abre espaço.”


Manutenção por conta própria
Sem patrocínio ou apoio governamental, cada passo do time é conquistado com esforço próprio. Viagens, inscrições em campeonatos e compra de equipamentos são bancados pelos jogadores. Mesmo assim, a equipe acumula conquistas expressivas. Em 2023, foi campeã do Centro-Oeste de Hóquei em Patins, realizado em Goiânia, além de disputar o Brasileiro da modalidade.
Para Jonas, cada título é carregado de significado: “É muito difícil manter o hóquei sem apoio. Os equipamentos são caros, as viagens custam muito, e a gente depende só de nós mesmos. Mas, quando conseguimos ganhar um título, como foi no Centro-Oeste, a sensação é indescritível. É a prova de que vale a pena.” Já Eduardo vê no hóquei a possibilidade de inspirar as novas gerações e ampliar o leque esportivo no DF: “O hóquei mostra que o esporte não é só futebol. Ele abre portas, mostra novos caminhos para os jovens. Quando a gente treina aqui na praça, as crianças param, olham, se interessam. Quem sabe no futuro alguma delas não vira atleta também?”. No mesmo tom, Jesse reforça que o time é mais do que uma equipe: “Eu encontrei no Brasília Hóquei muito mais que um time. Encontrei amigos, companheiros e uma família. É isso que me faz continuar, mesmo quando é difícil. O hóquei é disciplina, mas também é afeto.”
Essas histórias se entrelaçam e dão corpo ao Brasília Hóquei. Entre tacos, patins e discos deslizando pelo chão, a equipe mostra que o hóquei em patins pode ser uma escola de vida. O esporte, para eles, é velocidade, técnica e superação, mas também é laço comunitário, resistência e inspiração. Na praça do Guará I, cada treino é mais do que preparação: é ocupação cultural, é o esporte em sua forma mais genuína.