Para Socorrinho, idade não é limite

Aos 67 anos, moradora do Guará tem sido o grande destaque nacional do fisiculturismo na terceira idade

Ela é um exemplo de superação, pela idade e pelos percalsos que o destino pregou. Depois de perder um filho com 23 anos de forma traumática e dolorosa em 2009, um irmão e a mãe em 2010 e depois o companheiro para a Covid-19, Maria do Socorro Ferreira da Silva, moradora da QI 11 do Guará I, resolveu buscar atividades que lhe dessem força para enfrentar a saudade e a lacuna deixada pelos parentes queridos. Escolheu, por acaso, o fisiculturismo, onde conseguiu reencontrar e restabelecer as forças e a vontade de continuar vivendo. E essa escolha e a perseverança estão dando resultados que nem ela esperava. Aos 67 anos, Socorrinho, como é conhecida, tem se destacado em competições nacionais e internacionais de fisiculturismo, inclusive com conquistas importantes – entre várias medalhas em competições nacionais e panamericanas, ela chegou a 4ª maior fisiculturista do mundo na categoria Open, na Copa do Mundo de Fisiculturismo e Fitness, que aconteceu na Espanha no final de 2024.
“Uma nova idade vai surgir todos os anos, mas sua mente, seu corpo e sua forma de envelhecer com saúde podem seguir um caminho diferente de tudo que a sociedade impõe”, é o ensinamento dessa guaraense que tem sido exemplo para quem não conhece ou não acredita que pode superar seus próprios limites.
Com uma carreira reconhecida no fisiculturismo, Socorrinho busca não apenas conquistar medalhas, mas motivar aqueles que acreditam que a idade não é um obstáculo. “Sinto-me a criadora de uma renovação física, espiritual e emocional para aqueles que impõem limites à vida”, afirma.
A preparação de Socorrinho para as competições é intensa e planejada. Ela se dedica a uma rotina rigorosa, conciliando suas demandas na chefia da Ouvidoria da Novacap com dois treinos diários, antes e após o trabalho. Faz uma hora de treinos físicos a partir das 5h da manhã e musculação durante a noite, além de ensaios de coreografia e poses nos finais de semana. Além disso, ainda arruma tempo para preparar as refeições balanceadas para o dia seguinte, e ainda cuida do irmão, mais velho, de 70 anos, que tem Alzheimer e Parkinson.
Os dias que antecedem as competições exigem uma preparação especial. Até o momento da pesagem, o ritmo do cardio e a ingestão de água aumentam, enquanto a intensidade dos treinos diminui — assim como o consumo de carboidratos e sal.
Após a pesagem, Socorrinho inicia o chamado Carb Up, estratégia que torna a definição dos músculos mais aparente, com o aumento da ingestão de carboidratos e a redução da quantidade de água. Ela chega a comer até 1 kg de arroz por dia, em pequenas porções, de hora em hora, durante esse processo.

História
Socorrinho começou a competir aos 50 anos, após a perda dos parentes queridos. Foi no esporte que ela diz ter se reencontrado e restabelecido forças em meio a tanta dor. “Todos nós temos perdas. O que faz a diferença é como cada um lida com isso. Essa foi a forma que encontrei para atenuar minha dor”, ensina.
Além de treinar diariamente no Centro de Treinamento André Torres, na QE 19, ela faz dieta e cuida do sono. Isso tudo nas horas vagas do emprego. Apesar das demandas de sua intensa rotina de trabalho e treinamento, Maria do Socorro acorda cedo e mantém uma disciplina organizada e perseverante. “Para conciliar a minha rotina de treinos e o trabalho, eu tenho que manter uma disciplina rigorosa, me dedico aos treinos por 45 minutos diários por toda a semana. A pergunta que sempre ouço com relação a isso é ‘como você consegue?’, e a resposta que costumo dar é: ‘não perco tempo pensando se conseguiria fazer, apenas vou lá e faço”.
A presença dela no mundo do fisiculturismo não apenas inspira, mas desafia as noções convencionais de idade e gênero. “Nós, mulheres, sempre sofremos preconceitos por participar de esportes considerados ‘para homens’. Já fui questionada várias vezes sobre possuir ‘braços fortes’. Ouço falas constantes, como ‘não namoraria uma mulher com o braço maior que o meu’ e até julgamento de outras mulheres”, lamenta a atleta. “Além do que, hoje, tendo a idade de 67 anos, ainda sofro etarismo”. Ela conta que no início da carreira, aos 50 anos, enfrentou diversas críticas por ser uma mulher de idade mais avançada e com 1,48 m de altura em um esporte, até então, dominado por homens. “Eu era apenas a coroa doidinha que entrou ali para se curar da morte do filho. Eu fui reconhecida pelo esporte agora, do ano passado pra cá. É tarde? Não sei se é tarde, mas as pessoas que estão agregando a mim, querendo buscar o meu exemplo de vida, isso é o que vale. Esse é o maior troféu”, conclui.