Com Fred Lima
A liderança da Igreja Batista Filadélfia do Guará, entre as QEs 24 e 26, volta a ser alvo de notícias policiais. Dez anos após as denúncias de falsidade ideológica envolvendo o pastor-presidente Marcos Campos, agora é a vez do seu filho, Gabriel Campos, preso temporariamente, sob suspeita de abuso sexual de menores. A situação gerou uma nova crise de confiança entre fiéis e ex-membros, que agora cobram uma reforma na estrutura de liderança da igreja. A Batista Filadélfia já havia se envolvida em outra crise, em 1997, quando o pastor Djair Guerra, considerado na época a principal liderança evangélica do Guará, foi afastado e expulso após vir a público mensagens de conluio amoroso com a esposa de um fiel.
Fundada sob inspiração do nome bíblico que aparece no Apocalipse como uma das igrejas mais fiéis, a Filadélfia do Guará tem vivido, segundo alguns membros, uma realidade distante daquele ideal. Em 2015, um grupo de pastores teria descoberto a existência de atas de assembleias que nunca teriam ocorrido, o que levou a questionamentos internos à direção da igreja. Segundo os relatos de fiéis, a reação do pastor-presidente foi ríspida, e os pastores auxiliares passaram a sofrer ameaças e represálias. Diante da omissão da diretoria da igreja, os auxiliares buscaram apoio judicial e apresentaram notícia-crime ao Ministério Público.
De acordo com as denúncias, entre os dias 3 de janeiro de 2011 e 5 de janeiro de 2015, Marcos Campos teria inserido declarações falsas em cinco atas de assembleias ordinárias da igreja, com a intenção de burlar o processo de eleição da diretoria. O Ministério Público enquadrou a conduta no artigo 299 do Código Penal (falsidade ideológica) e solicitou a continuidade da ação penal. A juíza de primeiro grau aceitou a denúncia, destacando que “não havia causa excludente de ilicitude ou culpabilidade e que o fato narrado configurava possível crime”.
A tentativa de trancar a ação penal foi rejeitada pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Em seu voto, o desembargador George Lopes afirmou que “há prova da materialidade e indícios suficientes de autoria”. Segundo o relator, as atas das assembleias, registradas em cartório, foram utilizadas para homologar eleições de 2011 a 2015, embora depoimentos e documentos indicassem que essas reuniões não ocorreram. Além disso, foi convocada uma assembleia extraordinária após a descoberta das irregularidades, com a intenção de encobrir os atos anteriores. O mesmo processo também traz informações sobre a exclusão de membros que confrontaram a gestão e investigações relacionadas a possíveis desvios de recursos patrimoniais.
Prisão por abuso sexual e novas denúncias
Com a nova prisão de Gabriel Campos, filho do pastor Marcos Campos, a igreja volta ao centro das atenções. Ele é acusado de abuso sexual de menores e, de acordo com a Polícia Civil, apresenta perfil de “serial estuprador”. De acordo com as investigações, uma denúncia anterior contra ele já existia, mas não foi amplamente divulgada entre os fiéis. Nos bastidores da igreja, fiéis relatam que Marcos tentou proteger o filho diante das acusações.
Para o grupo de fiéis que denuncia as irregularidades, questionamentos permanecem sem resposta, como a ciência formal da diretoria sobre os andamentos processuais, a comunicação oficial à igreja sobre as medidas judiciais e o motivo do pedido de sigilo em um processo conexo, onde se discute a possibilidade de um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP).
Críticas à liderança e propostas de reforma
Um dos fiéis entre as lideranças dos que contestam a direção da igreja, que prefere não se identificar, defende uma reforma ampla e a eleição de um novo presidente desvinculado do grupo atual. “Cogitar um nome que seja cria do Marcos é manter a mesma gestão e a mesma filosofia. Para renascer das cinzas, a Filadélfia precisa voltar às origens e reformar todo o método dos últimos 25 anos. É uma reforma local dentro da reforma. O que é bom se mantém, o que é ruim, e há muita coisa, se descarta”, afirma.
Uma membra que permaneceu após o escândalo de 2015 disse ter se equivocado. “Um filho geralmente segue os exemplos do pai. Se o Marcos vem fazendo coisas erradas, o Gabriel pode ter visto isso e aprendido. Não que o Marcos tenha ensinado o filho a abusar de menores, o que não acredito. Mas pode ter visto coisas ilícitas desde cedo e seguido esse caminho e, como abusador, escolher justamente os mais inocentes, aqueles a quem Jesus disse que seria melhor amarrar uma corda no pescoço e lançar ao mar do que fazer mal”, analisa.
Outro ex-membro lembrou o episódio de 1997, quando o pastor Djair Guerra foi afastado, e o delegado de polícia Sirlene Araújo assumiu a liderança da igreja. Segundo ele, Sirlene tentou implantar uma gestão baseada na ética, mas enfrentou resistência do grupo ligado a Djair, incluindo Marcos Campos. “Com a saída de Sirlene, que buscava uma gestão pastoral pautada pela ética, a luz no fim do túnel, ao que tudo indica, era um trem em alta velocidade chamado família Campos. É hora de a Filadélfia cortar o mal pela raiz, destituindo a presidência e toda a direção. Se não fizer isso, é melhor fechar as portas”, afirma.
Outro entrevistado, que também deixou a igreja após o escândalo de 2015, criticou o que chamou de “culto à figura pastoral”. “Só devemos adorar ao Senhor. O que existe na igreja é um culto ao pastor, como se ele fosse um ser acima dos demais. Com isso, cria-se uma ‘imunidade espiritual’ antibíblica, como se ele não pudesse ser exortado. Daí acontecem esse tipo de coisa, em que ele e sua família têm ‘superpoderes’ e devem ser apenas reverenciados”.
Um ex-líder que participou da denúncia das atas fraudulentas garante que houve manipulação para impedir que os fiéis soubessem dos fatos. “Os pastores alertaram, mas não foram ouvidos. Tentaram falar em assembleia, mas não permitiram. Foi uma barbárie em nome de Deus. Foram escorraçados injustamente por Marcos e sua tropa de choque, com base no discurso de que estavam se levantando contra o pastor-presidente. Mas o MP deu razão aos pastores e denunciou Campos. Pelo que sei, ele teve de pagar cestas básicas e reconhecer que fraudou as atas para permanecer na presidência. O problema é que ele conseguiu o sigilo dos autos para esconder isso dos fiéis, além de alterar o estatuto e aumentar ainda mais seus poderes”.
Na visão desse ex-membro, a igreja deveria ter órgãos colegiados fortes, com atribuições claras e autonomia. “Há um conselho, mas sem poderes. Sua atuação é muito limitada e passa primeiro pelo crivo do pastor-presidente. As pessoas têm receio de contrariá-lo e serem expostas ou banidas. Se ele fez isso com sete pastores de uma vez, o que fará com um simples membro? Essa cultura fica. Desde aquela época, as pessoas têm medo. Os órgãos colegiados deveriam ser capazes de orientar e fiscalizar o pastor-presidente com diretrizes preestabelecidas para dirigir a igreja nas áreas administrativa, financeira, pastoral e patrimonial. Acredito que só assim se corrige erros desse tipo”.
Defesa da direção
Diante do escândalo atual, a direção da Igreja Batista Filadélfia divulgou nota oficial em que nega omissão ou acobertamento. A igreja afirma que Gabriel Campos era “ex-membro voluntário do Ministério de Adolescentes” e que “não exercia função de liderança desde o início de 2025”. Reitera que sempre orientou as famílias a registrar ocorrências junto à polícia, destacando que o “acolhimento espiritual não substitui a Justiça do Estado”. A direção também esclarece que o investigado “não é, nem nunca foi, pastor” da denominação e que o parentesco com o pastor-presidente “não interferiu nas medidas disciplinares”. Finaliza afirmando que está à disposição das autoridades para cooperar com as investigações, respeitando o sigilo do inquérito e a proteção das vítimas.










