E a Avenida das Cidades?

Idealizada há 25 anos ainda no Governo Cristovam, projeto já mudou de nome duas vezes. Secretaria de Mobilidade informa que os estudos estão concluídos e aguardando análise do TCDF para ser lançado

A Avenida das Cidades é um daqueles projetos que atravessam governos e continuam fora do mapa físico do Distrito Federal. Idealizada ainda nos anos 1990 no Governo Cristovam, quando era chamada de Interbairros, a proposta mudou de nome e de desenho ao longo do tempo, passou pela fase em aparecer como prioridade em planos de gestão, sem que o início das obras se concretizasse. O resultado é um empreendimento que permanece no campo dos estudos, licenças e encaminhamentos administrativos, mas agora bem próximo de sair do papel – aguarda apenas a análise e liberação do Tribunal de Contas do DF, mas ainda sem data para ser lançado oficialmente.
Planejada para conectar Samambaia ao Plano Piloto, atravessando Tagauatinga, Águas Claras, Park Way e Guará, em um traçado de 26 quilômetros, a via é apresentada como capaz de reorganizar a mobilidade do chamado Eixo Sul e induzir uma nova dinâmica de ocupação ao longo do corredor. O conceito divulgado inclui três faixas por sentido, integração com o sistema viário existente e proximidade com o metrô, com a expectativa de oferecer uma alternativa de deslocamento e reduzir a pressão sobre rotas já congestionadas, como a EPTG e a EPNB.

O que
avançou no papel
Mesmo sem sair do projeto, a Avenida das Cidades acumulou etapas formais importantes. Em 2021, a Secretaria de Transporte e Mobilidade abriu consulta pública e realizou audiência para receber contribuições sobre estudos técnicos e sobre a modelagem econômico-financeira e jurídica do empreendimento, incluindo minutas de edital e contrato. Ao fim da etapa, foram registradas 128 contribuições, com devolutiva consolidada antes de o processo seguir para avaliações e controles posteriores.
A licença ambiental, etapa importante do projeto, já está liberada pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram). Outra frente tratada como decisiva foi a questão da rede de alta tensão de Furnas ao longo do corredor previsto. Um acordo envolvendo GDF, Agência Nacional de Energia Elétrica, Furnas e Terracap foi anunciado como base para viabilizar o aterramento da linha de transmissão, considerado um dos principais entraves técnicos do projeto.
O modelo de execução escolhido foi a Parceria Público-Privada, em que a iniciativa privada se responsabiliza pela construção e por intervenções urbanísticas associadas, recebendo como contrapartida áreas lindeiras para empreendimentos e equipamentos. O custo inicialmente estimado era de R$ 2,9 bilhões, epois reavalidadeo em cerca de R$ 4 bilhões. O prazo de concessão proposto é 28 anos, com previsão de renovação, e previsão de até 11 anos de obras e obrigação de conservação e manutenção da infraestrutura implantada ao longo do contrato.
Entre os ajustes discutidos a partir das contribuições públicas, o traçado chegou a ser revisto na passagem pelo Park Sul, buscando afastar a via de áreas residenciais e reorganizar a conexão com o sistema viário da Asa Sul e da região da Rodoviária Interestadual.

O Guará no centro das mudanças
No Guará, a Avenida das Cidades é tratada como intervenção de alto impacto por incidir sobre a faixa hoje ocupada pelas linhas de transmissão de alta tensão, apontada por diagnósticos como barreira física e visual entre o Guará I e o Guará II. Mesmo com conectividade considerada deficiente para pedestres e ciclistas, a travessia diária entre os dois lados é intensa, e o projeto é apresentado como forma de “costurar” a malha urbana ao transformar o corredor das torres em eixo de conectividade, lazer e convivência.
De acordo com o projeto, a via, no trecho do Guará, não deverá funcionar apenas como corredor de tráfego rápido, mas como estrutura urbana com mais interseções e acesso ao tecido interno dos bairros. O objetivo é facilitar travessias, melhorar calçadas, garantir continuidade cicloviária e implantar um parque linear com paisagismo, iluminação e espaços de permanência, convertendo uma área hoje limitada por restrições técnicas em um ambiente mais integrado ao cotidiano da cidade, além de oferecer atividades comerciais e de serviços, e oportunidades de habitação.
Esse trecho é considerado estratégico por correr paralelo ao Metrô e por se apoiar em equipamentos que já atraem fluxo diário, como as duas estações do metrô, a Feira do Guará, citada com suas 700 bancas e forte apelo gastronômico e turístico, além do Cave e da Administração Regional.

Estudo
Uma leitura acadêmica reforça a relevância do trecho do Guará dentro do conjunto do empreendimento. No artigo “Via TransBrasília: Um caminho para uma cidade mais inclusiva e sustentável? Um estudo sobre a implementação de projeto DOTS na futura Via TransBrasília”, as pesquisadoras Amanda Karen Macedo Xavier e Bruna da Cunha Kronenberger analisam a proposta sob a lógica do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável, que prioriza o pedestre, o transporte coletivo e a redução de distâncias entre moradia e emprego, combatendo o espraiamento urbano.
No recorte do Guará, as autoras apontam que o adensamento previsto deveria se concentrar em uma faixa aproximada de 100 metros paralela à via para justificar o alto custo do enterramento das linhas de Furnas e o desenho da chamada Avenida de Atividades. O estudo relaciona essa estratégia à criação do Centro Metropolitano entre o Guará I e II e a incentivos previstos para habitação de interesse social, dentro de uma lógica de uso misto que combine moradia, serviços e lazer próximos ao transporte de massa.


Ambiente, equipamentos e desafios sociais
O diagnóstico ambiental associado ao projeto amplia o debate ao apontar degradação na área da Reserva Ecológica do Guará e do Parque Ecológico Ezechias Heringer, o Parque do Guará, com área superior a 300 hectares. Os estudos citam descarte de lixo e entulho, lançamento de esgoto, poluição do Córrego Guará e ocupações irregulares que avançariam sobre dezenas de hectares, além de carência de infraestrutura básica. Como contrapartida, o projeto vincula a implantação da via a ações de recuperação, limpeza e tratamento paisagístico, com a intenção de requalificar áreas verdes e ampliar opções de lazer seguro.
No planejamento urbano, o Centro Metropolitano do Guará, previsto no Plano Diretor Local (PDL) como projeto especial da rede de eixos e polos de centralidade, aparece com diretrizes de reordenamento do setor do Cave por meio de reparcelamento. O desenho indica usos comerciais e institucionais e a possibilidade de equipamentos de grande porte, como hospital regional, estrutura educacional e biblioteca pública, além de espaço específico para acomodar uma feira de artesanato. Para viabilizar esse redesenho, são mencionados instrumentos urbanísticos como operação urbana consorciada, transferência do direito de construir e outorga onerosa.

Entre o anúncio e a decisão
Em meio a esse compasso de espera pela análise do Tribunal de Contas do DF, o projeto continua a concentrar expectativas no Guará, onde a promessa é transformar uma faixa hoje marcada pelas torres de alta tensão em eixo urbano integrado, com travessias, áreas verdes e novas centralidades. Até aqui, porém, a Avenida das Cidades permanece como um gigante adormecido: grande no papel, relevante no debate e ausente na rotina de quem atravessa diariamente a área que ainda divide a cidade e tem que enfrentar o trânsito cada vez mais caótico nas horas de pico.

Como será a AVENIDA DAS CIDADES

De acordo com o projeto, a Avenida das Cidades vai receber cerca de 700 mil árvores à sua volta, terá 35 viadutos e pontes, e previsão de gerar cerca de 80 mil empregos durante as obras, e outros 20 mil empregos diretos após a conclusão nas diversas atividades empresariais que serão geradas ao longo do percurso, nos empreendimentos concedidos pela iniciativa privada, através dos concessionários responsáveis pela construção da via.
A Avenida vai impactar principalmente Guará e Águas Claras, porque vai implicar no aterramento de todo a linha de alta tensão de Furnas e cessão dos terrenos entre Guará I e II para a iniciativa construir lojas e apartamentos, além de equipamentos públicos. O adensamento, entretanto, será compensado com a abertura de uma nova via para os dois lados – Taguatinga, Samambaia, Park Way e Águas Claras e Plano Piloto do outro lado.

Por onde vai passar
O projeto intervém em Águas Claras, Guará, Park Way, Plano Piloto, Samambaia e Taguatinga. Entre esses empreendimentos está a criação do Centro Metropolitano do Guará, um conjunto de edifícios comerciais e residenciais entre Guará I e II, e outro entre Águas Claras e Arniqueiras, onde existem hoje as torres de alta tensão de Furnas.
O objetivo é promover desenvolvimento econômico de todas as regiões incluídas no trajeto e melhorar a mobilidade na região conhecida como Eixo Sul. No primeiro edital de chamamento das empresas interessadas na parceria, lançado em 2017, o governo definiu como contrapartida a criação lotes com diversidade de atividades ao longo da via, como shoppings e setores habitacionais; ampliação da densidade demográfica, especialmente perto da infraestrutura de transporte de massa; melhoria da relação custo-benefício dos investimentos públicos e privados em infraestrutura urbana; adequação dos espaços para pedestres e ciclistas; criação de faixas verdes; e integração do metrô com outras formas de transporte.
De acordo com o projeto, cinco setores habitacionais ocuparão as margens da via: dois no Guará e três em Águas Claras. A via ligará Samambaia, na altura da estação do metrô, até o Setor Policial Sul, na altura do cemitério Campo da Esperança. Com três faixas em cada sentido, a via comportará cerca de 60 mil carros de uma só vez e ajudará a desafogar o trânsito das outras duas pistas paralelas.