Caramujo africano preocupa moradores

Espécie invasora tem surgido em grande quantidade nas proximidades do dos córregos Guará e Vicente Pires e de áreas verdes. Conheço os riscos à saúde e como combater a proliferação do animal

Esse período chuvoso trouxe uma nova preocupação para boa parte dos moradores do Guará, além da dengue. Em vários pontos da cidade, principalmente às próximas de áreas verdes e de mais umidade, caramujos africanos se espalham por calçadas, jardins e entradas das residências, ampliando o risco de transmissão de doenças como a esquistossomose, infecção parasitária associada a ambientes insalubres e à falta de manejo ambiental adequado.
“Isso aqui virou rotina. A gente acorda cedo e já tem caramujo na calçada, no portão, perto da porta de casa. Tenho medo por causa das doenças, porque a gente vê criança brincando e idoso passando”, relata Maria das Dores, 68 anos, aposentada e moradora do Conjunto H da QE 9 do Guará I. “A cada chuva mais forte e consistente, eles aparecem por todos os lados”, conta Maria da Conceição Guimarães, moradora de uma chácara no Setor Iapi, às margens do Córrego Vicente Pires.
O pior é que a maioria dos moradores não tem conhecimento do que a espécie invasora traz para a saúde ou não sabem como agir ou a quem recorrer. Com luvas e água sanitária ou água fervente, tentam conter a infestação de forma improvisada, muitas vezes sem orientação técnica. O cenário é agravado pelo mato alto e pela falta de manutenção das áreas públicas, criando condições ideais para a proliferação dos moluscos e aumentando o risco de aparecimento de cobras e outros animais peçonhentos.
“A população está fazendo o que pode, mas isso não resolve. O caramujo volta porque o mato continua alto e ninguém faz a limpeza direito”, afirma Carlos Henrique Almeida, 44 anos, auxiliar de serviços gerais. “Isso deveria ser tratado como questão de saúde pública, não jogado nas costas do morador”, morador da QE 9, nas proximidades da Reserva Biológica do Parque do Guará
A situação observada no Guará 1 repete um padrão já denunciado em janeiro em outros setores da região administrativa. Moradores do I, do Guarapark e do Bernardo Sayão relataram a proliferação de caramujos associada ao período chuvoso, ao abandono das áreas verdes e à ausência de capina regular. A repetição do problema em pontos distintos evidencia que não se trata de um episódio pontual, mas de uma falha estrutural no manejo urbano e ambiental, que se intensifica ano após ano.

Medo afeta a rotina das famílias
Para quem tem crianças, o problema altera diretamente a dinâmica da vida cotidiana. Ana Paula Ribeiro, 32 anos, mãe de dois filhos, conta que precisou restringir o uso das áreas externas após as chuvas. “Tenho filhos pequenos e fico muito preocupada. A gente evita deixar as crianças brincarem fora de casa quando chove, porque os caramujos aparecem em todo canto. Já ligamos várias vezes pedindo providência e nada acontece.”
O sentimento de abandono também é compartilhado pelos mais jovens. Para Lucas Santos, 19 anos, estudante, a sensação é de que o problema só ganha atenção quando vira manchete. “O que mais revolta é que isso não é novo. A gente denuncia, aparece na televisão, mas passa o tempo e tudo continua igual. Parece que só lembram do Guará quando vira notícia”, critica.

Orientação técnica existe, execução falha
A Vigilância Sanitária orienta que os caramujos devem ser submersos em solução com cloro e que seus ovos precisam ser enterrados para evitar a proliferação, além do uso de equipamentos de proteção no manuseio. Podem ser combatidos também com água fervente, mas desde que suas cápsulas sejam enterradas para evitar que acumulem água e se transformem em criadores do mosquito transmissor da dengue. Técnicos alertam, porém, que essas ações não podem ser transferidas integralmente à população.
Especialistas defendem que o controle eficaz depende de políticas públicas contínuas, como limpeza urbana regular, capina sistemática, manejo ambiental adequado, campanhas educativas e monitoramento das áreas críticas.
A infestação ocorre em um contexto mais amplo de fragilidade sanitária no Distrito Federal, marcado por aumento de casos de dengue, alagamentos, vazamentos de esgoto e falhas recorrentes na manutenção urbana. O padrão é conhecido: a comunidade alerta, a imprensa registra, o risco é reconhecido — mas a resposta institucional segue lenta ou inexistente.