“A gente sabia que a cidade ia prosperar” -Pioneiro Vô Judson relembra o mutirão e os primeiros anos do Guará

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“Começamos ali na quadra que hoje é a Quadra 5”, recorda Vô Judson Seraine ao descrever os primeiros passos da construção do Guará. Em seu relato, ele revive o período em que os pioneiros se reuniam para erguer, com as próprias mãos, as casas que dariam origem à cidade.
Segundo ele, o trabalho era coletivo e exigia dedicação. “Doutor Rogério, o engenheiro Rogério de Freitas Cunha, então presidente da Novacap, dizia para reunir dez colegas para fazer dez casas. Essas dez casas eram do grupo. Então, cada um chamava seus amigos”, conta. Cada equipe era responsável por construir um conjunto de moradias, em um sistema que unia esforço e esperança. “Nós tínhamos que trabalhar, porque, quando trabalhávamos, ganhávamos pontos. Era como se a gente estivesse de férias. A gente não era pedreiro, não era carpinteiro, mas parecia que passava a ser.”
Mesmo com as atividades profissionais, a participação no mutirão era constante. “Nos finais de semana e fora das obrigações, a gente participava junto com os pioneiros da construção das primeiras casas do Guará”, relata. O acompanhamento também era diário. “Todo dia ele fiscalizava a obra aqui.”

Trabalhadores do mutirão participam da construção das primeiras casas do Guará, ao lado do engenheiro Rogério de Freitas Cunha, responsável pela coordenação do projeto.

O ambiente, apesar do esforço físico, era marcado pela convivência. “Ao término de cada rua, a gente festejava, bebia, ria e dançava”, lembra. A entrega das casas acontecia por sorteio. “Doutor Rogério botava o chapéu para a gente pegar os bilhetinhos. Eram bilhetinhos de 1 a 10”, diz, ao citar o processo conduzido por Rogério de Freitas.
O modelo chamou atenção além do Distrito Federal. “Esse modelo de mutirão ficou tão famoso que visitas ilustres vieram conhecer o Guará. Eduardo Frei, presidente do Chile, passou pelo mutirão e nem deu bola para as autoridades da época”, afirma.
Vô Judson também relembra a evolução da cidade ao longo dos anos. “Em 21 de abril de 1969, o atual Guará 1 foi chamado de SRIA I”, diz. Pouco depois, novas áreas foram incorporadas. “Logo, a Novacap ampliou a área, dando vida ao Guará II, que foi inaugurado em 2 de março de 1972.”
Com o crescimento, surgiram novos formatos de moradia. “As novas quadras foram uma grande inovação para a época”, relata, mencionando os conjuntos financiados pelo BNH. “O BNH construiu dezenas de prediozinhos pequenos.” Ele também cita o surgimento da Lúcio Costa. “Inspirada em um mutirão inteligente, do outro lado da EPTG, nasceu a Quadra Lúcio Costa.”
Para ele, mais do que construções, o processo representou transformação social. “Não foi apenas um processo de construções diferenciadas, mas uma mudança de olhar, criando oportunidades, inclusão, inovação, colaboração e compartilhamento.”
Décadas depois, o sentimento de pertencimento permanece. “É incrível como no Guará todo mundo se conhece”, afirma. “O guaraense se sente guaraense, ele vive o Guará.” Segundo ele, a localização e o desenvolvimento econômico contribuíram para esse crescimento. “A cidade era perto de tudo e muito vinculada ao Setor de Indústria, que, aliás, pertencia ao Guará naquela época. A maior parte dos empregos estava ali. Então, a gente sabia que a cidade ia prosperar.”