Capoeira vínculos comunitários na Casa GOG

Projeto coordenado pela mestre Lola atende crianças, adolescentes, pessoas com deficiência e famílias da comunidade do Guará

Por Julio Camargo,do Laboratório de Comunicação Comunitária

O som do berimbau ecoa pela Casa GOG enquanto crianças formam uma roda de capoeira. Entre cantos, palmas e movimentos, a atividade vai muito além do esporte. No espaço cultural localizado no Guará 2, a capoeira se tornou uma ferramenta de inclusão, valorização da cultura afro-brasileira e fortalecimento dos laços comunitários.
À frente da iniciativa está Lígia Vanessa, a mestre Lola, graduada pela Escola Abadá Capoeira. Ela é multiartista, produtora cultural, urbanista e professora de capoeira. Sua trajetória na modalidade começou de maneira inesperada. O primeiro contato ocorreu quando acompanhava a filha, então com cerca de seis anos de idade, às aulas de capoeira. “O objetivo era incentivar minha filha a participar, mas acabei ficando também”, relembra.
O que começou como um acompanhamento familiar transformou-se em uma atuação que hoje envolve ensino, projetos sociais e ações voltadas para diferentes públicos. Entre as iniciativas desenvolvidas por Lola está o projeto Capoeira Amigo da Escola, dedicado ao trabalho com pessoas com deficiência e neurodivergentes por meio da capoeira adaptada.
Ela coordena o Capoeira Casa GOG, voltado para crianças e adolescentes da comunidade, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade social. Recentemente, o projeto ganhou uma nova frente de atuação com a criação do grupo Capoeira Mães que Treinam, que incentiva a participação das mulheres e responsáveis pelos alunos.

“Meu papel é abrir portas e criar oportunidades. Não sou eu quem define os limites dos alunos. Cada um vai descobrir seu próprio caminho”, conta a mestre Lola

Inclusão dentro da roda
Para Lola, um dos principais diferenciais da capoeira é sua capacidade de acolher diferentes pessoas, respeitando os limites e potencialidades de cada participante.
“Nem sempre alguém pode jogar, mas pode cantar. Às vezes não pode cantar, mas pode tocar um instrumento. Em outros casos, pode observar. Todos os sentidos participam da experiência da capoeira”, explica.
Segundo ela, a roda é um espaço onde todos encontram formas de participação. O aprendizado não acontece apenas pelo movimento corporal, mas também pela música, pela observação e pela oralidade, elemento fundamental na transmissão dos conhecimentos da tradição capoeirista.
“A capoeira é passada de geração em geração. Eu aprendi com meus mestres e hoje transmito esses ensinamentos aos meus alunos da mesma forma”, afirma Lola.
O trabalho realizado na Casa GOG segue os fundamentos da Abadá Capoeira, escola criada pelo Mestre Camisa, discípulo do Mestre Bimba, responsável pela sistematização da capoeira regional.
Ao longo dos anos, a Abadá desenvolveu características próprias e expandiu sua atuação para diversos países, promovendo intercâmbios culturais e trocas de conhecimento entre diferentes comunidades.
Essa dimensão internacional também chegou ao projeto desenvolvido no Guará. Recentemente, a Casa GOG recebeu a visita de um mestrando de capoeira angola residente na África, que realizou atividades culturais, apresentou um livro e compartilhou experiências com os participantes. “Essas trocas ampliam horizontes e fortalecem as oportunidades oferecidas às crianças e adolescentes”, destaca a capoeirista.

Eixo formativo
A atuação da mestre ultrapassa os limites da roda de capoeira. Atualmente em seu segundo mandato como conselheira de cultura, ela busca integrar diferentes manifestações culturais às atividades desenvolvidas com os alunos.
Jongo, carimbó, tambor de crioula e outras expressões da cultura popular brasileira fazem parte do repertório apresentado às crianças e adolescentes. A proposta é utilizar a capoeira como porta de entrada para o contato com diferentes saberes e tradições.
Essa perspectiva também orienta o projeto Cine Capoeira Futura, iniciativa que utiliza cinema, literatura, música e percussão para abordar temas ligados à ancestralidade afro-brasileira e à história da capoeira.
A atividade dialoga diretamente com os princípios da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas brasileiras.

Construção coletiva
Para além do aprendizado técnico, Lola acredita que a principal contribuição da capoeira está na construção de vínculos sociais.
Inspirada em uma frase do Mestre Camisa — “capoeira é uma construção coletiva” —, ela procura transformar as atividades em espaços permanentes de convivência entre alunos, familiares e moradores da comunidade.
“Aqui na Casa GOG estamos construindo um coletivo que envolve alunos, pais, mães e toda a comunidade”, explica.
A integração com outras atividades oferecidas pela instituição fortalece esse processo. Oficinas de musicalização, percussão, Libras, yoga, charme e capoeira angola dialogam entre si e ampliam o repertório cultural dos participantes. Segundo Lola, todas essas experiências contribuem para uma formação mais ampla e inclusiva.
Com o crescimento da procura pelas atividades, a expectativa é ampliar cada vez mais o alcance dos projetos desenvolvidos na Casa GOG. Embora o número de crianças e adolescentes atendidos continue aumentando, a mestre faz um convite especial às mulheres da comunidade. “Quero convidar as mulheres para participarem das atividades e fazerem parte desse movimento coletivo que estamos construindo por meio da capoeira”, afirma Lola