O avanço da ocupação das áreas públicas, previstas no Plano Diretor da cidade, já começa a afetar a realização dos grandes eventos em áreas abertas, como as duas festas juninas – o São João e o Grande São João do Guará – e a Via Sacra. As áreas que ainda restam já foram licitadas ou estão previstas para serem licitadas pela Terracap, dona dos terrenos.
O Centro Comunal I, onde está a 4ª Delegacia de Polícia, por exemplo, onde era realizado o Grande São João do Guará e onde aportam circos mambembes, foi ocupado por um complexo ligado à Casa Brasileira. O que sobrou foi ocupado por um estacionamento público e pela nova Praça Modelo.
No Centro Comunal II, ao lado do edifício Consei, que até há dois anos era a maior área pública livre do Guará, a situação piora para os organizadores dos grandes eventos. Os investidores que adquiriram os terrenos há cinco anos em licitação da Terracap começam a ocupá-los, como está acontecendo com a construção de dois edifícios comerciais, mistos de comércio e quitinetes. E ainda conta com a chegada de uma loja do McDonald’s, inaugurada no final do ano passado. A área vai receber ainda um edifício de clínicas da rede Hospital Anchieta e outra da rede Vitália, que pertence ao grupo Supermercados Veneza.
A área ao lado do Consei, onde acontece os eventos de São João, está sendo ocupado por construções; a da via contorno, ao lado da QE 17, falta estrutura. A nova Praça Modelo ocupou a área onde antes era realizado o Grande São João do Guará; a Praça da Moda está tomada por trailers de lanche e a área ao lado do Sargento, onde acontece a Via Sacra, corre o risco de ser vendida
Vão restar como opções para os grandes eventos apenas a Praça da Moda, no Polo de Moda, ao lado da via contorno do Guará II, que se transformou numa praça de alimentação ocupada por 12 quiosques irregulares, e o Teatro de Arena do Cave, considerado de localização isolada, de pouca visibilidade e que não tem atraído público para este tipo de evento – no festival Viva Guará, apoiado pela deputada distrital Dayse Amarílio, nos dias 14 e 15 de junho, o público foi diminuto para as apresentações dos artistas de menor apelo, e a exceção foi apenas a da banda de reggae Jah Live, que é do Guará mas conhecida nacionalmente.
Outra opção seria o terreno entre a Unidade Básica de Saúde 2 e o futuro Hospital Geral Ortopédico, ao lado da via contorno do Guará II, mas os organizadores reclamam que lá não existe qualquer estrutura, o que aumentaria os custos de qualquer evento.
Organizadores protestam
A perspectiva de não sobrar espaço para os eventos abertos no Guará está preocupando os organizadores e até os moradores, porque o adensamento está tirando parte das áreas verdes e expulsando as opções de lazer tradicionais. “O governo está mais preocupado em faturar com a venda dos terrenos do que com o bem-estar da população. Não somos contra a oferta de mais moradias ou de empresas, até porque elas estavam previstas, mas poderiam reservar algumas áreas para circulação e realização de eventos”, reclama Mayara Franco, uma das organizadoras do São João do Guará, que pode ser realizado pela última vez no Centro Comunal II. “Não sabemos ainda para onde vamos ou se vamos continuar promovendo o evento”, diz ela. Mayara não considera viável levar o São João do Guará para o Teatro de Arena, porque, segundo ela, há uma preocupação dos moradores com a falta de segurança do Cave, por causa da quantidade de moradores de rua e de invasores do Parque do Guará nas proximidades.
“Guará corre o risco de se transformar em uma nova Águas Claras, onde quase não há mais área verde e o adensamento sufoca os moradores. Estão desfigurando a cidade com a ocupação das grandes áreas verdes que restam. As crianças estão sendo criadas como gado, confinadas nos apartamentos”, dispara Joel Alves Rodrigues, ex-administrador regional do Guará e um dos organizadores do São João do Guará junto com Mayara Franco e Tâmara Mansur. Ele lembra que resta, por enquanto, o Complexo do Cave, que, entretanto, está previsto para ser privatizado.
Para o organizador do Grande São João do Guará, Miguel Edgard Alves, não há motivos para o governo vender todas as áreas públicas do Guará. “A cidade está se transformando numa selva de pedra, como aconteceu com Águas Claras. O morador precisa respirar, ter espaço para circular e apreciar grandes eventos”. Segundo ele, pior ainda é que essas áreas públicas estão sendo cedidas, e não vendidas, a pessoas que não têm história nem compromisso com a cidade, como está acontecendo com os terrenos cedidos ao grupo A Casa Brasileira.
“A verdade é que a cultura e o entretenimento perdem seus espaços para a especulação imobiliária. Cidades sem áreas de lazer geram isolamento e alienação. Os centros culturais criam memórias afetivas e conexões com a história do local. A comunidade quer deixar os seus carros em casa e ir a pé para os eventos, quer praticidade”. “E o pior, não se pensa em estacionamentos para esse tanto de novos edifícios, causando transtorno à comunidade adjacente”, completa.
Coordenador da Via Sacra do Guará, Wellington Bertorazzi Camarão faz coro ao grupo dos promotores descontentes com a retirada das últimas áreas verdes do Guará. “Estão nos empurrando para onde não sabemos para onde ir. No caso da Via Sacra, ela tem que sair da Paróquia Maria Imaculada e precisa cumprir as 14 estações previstas. Por enquanto, estamos indo para o terreno ao lado do condomínio Sargento Wolf, mas temos informações de que ele também está previsto para ser vendido pelo governo”. Ele lembra que a única possibilidade que vai restar é fazer o percurso entre as QEs 15 e 17, no sentido da via contorno, o que exigirá um esforço de logística maior do que o atual. “A Via Sacra do Guará, mesmo sendo uma das mais importantes do Distrito Federal, não recebe qualquer apoio do governo e agora corre o risco de não ter mais onde fazer o percurso”, lamenta.
Para o administrador regional do Guará, Artur Nogueira, não há mais o que fazer para impedir a perda dos espaços para grandes eventos no centro da cidade. “Temos que investir na promoção do Cave, como o Teatro de Arena e nas áreas verdes que ainda existem lá. É mais trabalhoso, porque o centro do Guará II já atrai um público orgânico, formado por moradores e por quem passa pela via central, mas é o que resta”. Ele cita os grandes shows que o governo tem promovido na região do Cave, como o da cantora Iza, realizado em parceria com o Sesc DF, e dos cantores Zé Vaqueiro e Murilo Huff.










