Para Léo Saraiva, amar o Guará é reconhecer na cidade o lugar onde quase tudo começou. Foi aqui que fez os primeiros amigos, estudou, viveu amores, descobriu a música e construiu uma relação com a cultura que atravessa sua história pessoal e profissional.
Léo chegou ao Guará em 1977, ainda criança. A família, vinda de Minas Gerais, se estabeleceu na QE 3, uma das áreas ligadas aos primeiros anos de ocupação da cidade. “Foi no Guará que estabeleci todas as minhas raízes. As familiares, afetivas, amorosas e educativas. Mais do que Brasília, o Guará foi o lugar de todas as minhas primeiras vezes”, conta.
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As lembranças da infância passam pela Escola Classe 1, pelo antigo supermercado Planalto, pelas brincadeiras nas quadras e pelos sabores que ficaram guardados na memória. Ele recorda, por exemplo, do primeiro sanduíche que comeu, ainda em 1980, e da primeira vez em que viu uma televisão colorida.
Naquele período, a paisagem também era muito diferente. O Guará II ainda estava em expansão e grandes áreas de cerrado faziam parte do cotidiano dos moradores. Ao longo dos anos, Léo viveu em diferentes pontos da cidade, entre eles QE 1, QE 3, QE 14, QE 26 e QE 30. Cada endereço acabou acrescentando novas amizades e histórias à relação que mantém com o Guará.
A juventude aproximou Léo ainda mais da vida cultural da cidade. Ele acompanhou shows, festas, bares e movimentos que ajudaram a formar diferentes gerações de guaraenses. Entre as lembranças estão apresentações no Teatro de Arena e antigos pontos de encontro que marcaram a boemia e a cena musical local.
“Tenho muito orgulho de fazer parte dessa geração”, afirma. Para ele, acompanhar o crescimento da cidade também significou participar das transformações culturais que ocorreram ao longo das décadas.
Essa relação deixou de ser apenas de frequentador e se transformou em participação ativa. Uma publicação feita por Léo nas redes sociais, depois reproduzida pelo Jornal do Guará, ajudou a provocar uma discussão sobre a possibilidade de fechar temporariamente uma via para que a comunidade pudesse ocupar o espaço.
A ideia surgiu depois que ele observou uma rua interditada para uma prova de ciclismo e percebeu que os moradores também aproveitavam a área livre de carros. A partir dessa reflexão, outras pessoas se aproximaram da proposta.
Léo faz questão de lembrar a participação de Jussara de Almeida Menezes, Luiz Cafa, do Clube do Blues de Brasília, Rafael Souza e outros parceiros. A articulação esteve na origem de iniciativas que ajudaram a fortalecer o Coletivo 156 e a Rua do Lazer do Guará, transformando a ocupação do espaço público em ponto de encontro para moradores e manifestações culturais.
Mesmo tendo morado durante alguns anos no Núcleo Bandeirante, Léo afirma que nunca conseguiu se desligar do Guará. Ele guarda carinho pela cidade vizinha, mas diz que sua identidade permaneceu ligada às quadras onde cresceu. “Nunca pensei em sair. Não me vejo fora do Guará”, afirma.
Entre tantas lembranças, uma delas ocupa lugar especial. Na juventude, Léo e os amigos costumavam atravessar áreas de cerrado até chegar ao pátio ferroviário, onde se reuniam para assistir ao pôr do sol. Às vezes, voltavam à noite, com café e uma pequena caixa de som.
Com a expansão urbana, aquele cenário deixou de existir como antes, mas permaneceu na memória. “Durante uns dez anos, aquele foi o lugar da minha paixão no Guará”, recorda.
Depois de quase cinco décadas de relação com a cidade, Léo reúne lembranças de um Guará que mudou muito, mas que continua sendo sua referência de pertencimento. Família, amizades, cultura, encontros e participação comunitária fazem parte dessa história.
“Foi aqui que tudo aconteceu pela primeira vez”, resume.
É por isso que, para Léo Saraiva, amar o Guará vai além de morar na cidade. É reconhecer nela as próprias raízes, preservar as memórias e continuar participando dos encontros que ajudam a construir sua identidade.










