Em defesa da Reserva Biológica do Guará

Lideranças comunitárias encabeçam abaixo-assinado pelo cercamento da Rebio, entre o Parque Ezechias Heringer e o Setor Lúcio Costa, e defendem reforço na fiscalização e proteção da principal área ambiental do Guará

Encabeçada pela Prefeitura da QE/QI 05, uma mobilização comunitária reúne assinaturas em um abaixo-assinado que reivindica o cercamento da Reserva Biológica do Guará. A medida é apontada como forma de ampliar o controle de acesso, fortalecer a fiscalização e contribuir para a preservação ambiental e para a segurança das áreas vizinhas.
A iniciativa surgiu a partir da preocupação dos moradores com problemas registrados no entorno da reserva, entre eles invasões, acessos irregulares, atividades ilegais e degradação ambiental. Na avaliação das lideranças, a vulnerabilidade da área pode favorecer novas ocorrências e comprometer tanto a conservação da biodiversidade quanto a segurança das comunidades próximas.
Localizada em meio a uma região intensamente urbanizada, a Reserva Biológica do Guará é um importante refúgio de biodiversidade e representa uma área verde estratégica para o equilíbrio ambiental da cidade. A unidade protege vegetação nativa, fauna, cursos d’água e ambientes sensíveis do Cerrado.

Cercamento e fiscalização
Para o prefeiro comunitário da QE/QI 5, Wanderson Ferreira, uma estrutura física delimitando a reserva pode dificultar acessos não autorizados, reduzir o risco de novas ocupações e oferecer melhores condições para o trabalho dos órgãos de fiscalização. “É necessário também que o cercamento seja acompanhado por fiscalização regular, sinalização, manutenção e ações de educação ambiental. Dessa forma, a proposta não se restringe à instalação de uma barreira física, mas integra uma estratégia mais ampla e permanente de conservação”, explica.
A preocupação se estende à segurança das comunidades próximas. Na avaliação dos moradores, acessos pouco controlados e trechos sem delimitação clara podem facilitar atividades irregulares e aumentar a pressão sobre uma área ambiental inserida entre bairros, vias de grande circulação e outros espaços urbanos, como aconteceu com a proposta de incluir a área como garantia de empréstimo para salvar o BRB (ver reportagem na página 7).
A localização da Rebio torna sua conservação especialmente desafiadora. Ao longo de sua história, a região já sofreu pressão de ocupações, moradias, atividades agrícolas, criação de animais, estabelecimentos comerciais e outras intervenções incompatíveis com a finalidade de uma área ambientalmente protegida.
Também são motivo de preocupação o descarte de lixo e entulho, ligações clandestinas, abertura de acessos e alterações da vegetação. Quando se tornam permanentes, essas intervenções podem provocar desmatamento, contaminação do solo e da água e fragmentação dos ambientes naturais. “A presença de atividades poluidoras nas proximidades também exige acompanhamento. Produtos químicos, combustíveis, resíduos de atividades comerciais e materiais de construção podem representar riscos para o solo, o lençol freático e os cursos d’água caso não sejam adequadamente controlados”, completa o prefeito comunitário.

Nascente do Córrego Guará
Um dos principais atributos ambientais da reserva é a proteção da nascente do Córrego Guará. A conservação da vegetação próxima ao curso d’água contribui para a proteção das margens, a infiltração da água no solo e a manutenção das condições ambientais necessárias à fauna aquática.
O Córrego Guará integra uma rede hidrográfica que se conecta ao Riacho Fundo e, posteriormente, ao Lago Paranoá. Por isso, impactos ambientais ocorridos na reserva podem produzir efeitos que ultrapassam seus limites.
O lançamento de esgoto, resíduos e matéria orgânica, assim como o carreamento de fertilizantes e outras substâncias durante as chuvas, pode alterar a qualidade da água e aumentar a disponibilidade de nutrientes nos cursos d’água. Esse processo favorece desequilíbrios ambientais e pode contribuir para a proliferação excessiva de algas em ambientes a jusante.
A Rebio também protege campos de murundus, formação característica do Cerrado encontrada em áreas sujeitas a condições específicas de solo e umidade. Os murundus são pequenas elevações naturais distribuídas pelo terreno e integram ambientes de elevada importância ecológica. Sua conservação contribui para manter a dinâmica da água no solo e preservar espécies vegetais e animais adaptadas a essas condições. Por serem ambientes sensíveis, alterações no relevo, drenagem, circulação de veículos, construção de estruturas ou retirada da vegetação podem comprometer seu equilíbrio.
A Reserva Biológica do Guará abriga espécies que dependem diretamente da conservação dos ambientes naturais, entre as mais conhecidas está o Pirá-Brasília, pequeno peixe endêmico do Distrito Federal, associado a ambientes aquáticos preservados e especialmente sensível à perda da qualidade da água. A proteção do córrego, das nascentes e das áreas úmidas da reserva é, portanto, fundamental para a manutenção das condições necessárias à sobrevivência da espécie.
A área da reserva também se destaca pela ocorrência de orquídeas e outras espécies vegetais de interesse ambiental, entre elas está a Habenaria heringeri, micro-orquídea associada aos estudos do botânico e naturalista Ezechias Heringer. Espécies desse tipo são sensíveis a alterações do ambiente e dependem da conservação da vegetação nativa e das condições naturais do solo.
Outro desafio é impedir o avanço de espécies vegetais exóticas. Algumas plantas introduzidas em áreas de Cerrado podem se disseminar rapidamente e competir com espécies nativas, dificultando a regeneração natural.


Corredor ecológico
A Reserva Biológica do Guará integra um corredor ecológico relacionado ao Parque Ezechias Heringer, ao Jardim Zoológico de Brasília e à Área de Relevante Interesse Ecológico do Riacho Fundo. Essas conexões são importantes porque permitem o deslocamento de animais entre diferentes fragmentos de vegetação e reduzem o isolamento das populações da fauna em meio à área urbana.
A continuidade das áreas verdes também favorece a preservação de cursos d’água, da vegetação e de processos ecológicos que não respeitam os limites administrativos de cada unidade.
Para os responsáveis pela mobilização defesa da Rebio, o histórico de pressões sobre a área reforça a necessidade de tornar os limites da reserva mais claros e perceptíveis. O cercamento é defendido como instrumento para dificultar novas invasões e acessos irregulares, mas as próprias lideranças reconhecem que a medida, isoladamente, não é suficiente.
A preservação depende também de fiscalização contínua, monitoramento, manutenção, recuperação de áreas degradadas e educação
ambiental.

Documento chega ao poder público
O abaixo-assinado solicita que o Governo do Distrito Federal, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), a Secretaria de Meio Ambiente e a Administração Regional do Guará adotem providências para viabilizar o cercamento da unidade. A mobilização transforma uma preocupação dos moradores em uma reivindicação formal aos órgãos responsáveis pela gestão ambiental e territorial.
Para a Prefeitura da QE/QI 05, a iniciativa também reforça a participação da comunidade nas questões relacionadas à preservação da reserva e à segurança de seu entorno. As lideranças ressaltam que o cercamento não soluciona sozinho todos os desafios da Rebio. A delimitação física, entretanto, é considerada um passo importante para estabelecer limites claros, dificultar acessos irregulares e contribuir para a proteção de uma das áreas ambientalmente mais relevantes do Guará.

Mobilização em defesa do Rebio começou com proposta de salvar o BRB

Reação de moradores e lideranças a propostas envolvendo áreas protegidas reforça movimento pela preservação do Parque Ezechias Heringer e da Reserva Biológica do Guará

A maior parte dos moradores do Guará e do Distrito Federal veio conhecer e ouvir falar da Rebio em fevereiro, quando o GDF apresentou à Câmara Legislativa o projeto de incluir áreas públicas como garantias de empréstimos ao BRB. A maior surpresa da primeira relação de imóveis oferecidos foi a Reserva Biológica do Guará (Rebio), onde não pode ser retirada uma árvore sequer sem autorização legal ou lei específica. E também porque não há projeto de ocupação para essas duas áreas, consideradas de muita sensibilidade ambiental por abrigar várias nascentes e uma rica flora do cerrado, composta, por exemplo, por mais de 70 espécies de orquídeas. Portanto seria um bem sem qualquer valor comercial para ser dado como garantia de empréstimo ou capitalização.
A tentativa de inclusão de duas áreas da reserva no pacote de salvamento do banco provocou indignação e, principalmente, um sentimento de pertencimento por parte dos moradores da cidade pelo pulmão verde que, até então, não era tão evidente. Assim que a primeira versão do projeto chegou à Câmara Legislativa e foi tornada pública pela imprensa, com a inclusão das duas áreas do Guará e do Centro Administrativo (Centrad) como garantia de capitalização e de empréstimo para cobrir o rombo provocado pela desastrada negociação entre o BRB e o Banco Master, uma verdadeira corrente de indignação se espalhou por grupos de WhatsApp, Facebook e Instragram locais, mobilizou lideranças comunitárias e políticas, num movimento que a comunidade guaraense tinha pouco visto. Essa forte mobilização levou o governo a retirar as duas áreas da segunda versão que foi apresentada e aprovada pela Câmara Legislativa, mas não aplacou a indignação do morador e até teve seu lado positivo ao despertar nele essa curiosidade em conhecer o que é a Reserva Biológica e a importância do Parque Ezechias Heringer, o Parque do Guará, para o equilíbrio do meio ambiente em que vive.
Além das críticas acaloradas nas redes sociais, a defesa do parque mobilizou políticos com ligação direta e indireta com o Guará. E, por parte das lideranças comunitária, ressuscitou o Fórum em Defesa do Parque do Guará, que estava dormindo há algum tempo.
Um dos principais efeitos desse movimento foi a ampliação do sentimento de pertencimento dos moradores em relação às áreas verdes do Guará. Muitas pessoas passaram a buscar mais informações sobre o Parque Ezechias Heringer, a Reserva Biológica e a importância desses espaços para a conservação ambiental da cidade. Para as lideranças comunitárias, quanto maior o conhecimento da população sobre essas áreas, maior tende a ser sua participação na defesa da preservação e na cobrança por políticas públicas, especialmente diante da expansão urbana e da valorização dos terrenos localizados no entorno.

Fórum retoma mobilização
A mobilização também contribuiu para a retomada do Fórum Permanente em Defesa do Parque do Guará, formado por moradores e lideranças com histórico de participação nas questões ambientais da cidade. A proposta do grupo é manter acompanhamento contínuo das decisões relacionadas ao Parque Ezechias Heringer e à Reserva Biológica, além de cobrar ações de fiscalização, manutenção e preservação. Entre os temas debatidos estão o cumprimento do plano de manejo, o combate às ocupações irregulares, a proteção dos limites das áreas ambientais e a necessidade de maior presença dos órgãos públicos.
Outro ponto defendido pelas lideranças é a aproximação da comunidade com o próprio parque. Entre as propostas estão atividades de educação ambiental, caminhadas, visitas e outras iniciativas que permitam aos moradores conhecer melhor a área e compreender sua importância. A avaliação é de que a presença organizada da população pode contribuir para ampliar o uso público dos trechos destinados à visitação, aumentar o acompanhamento comunitário sobre problemas de degradação ou ocupação irregular e fortalecer a cobrança por melhorias na infraestrutura.