Guará 54 anos – Começo com um mutirão

Com material e maquinário fornecidos pelo governo, servidores públicos construíam suas próprias casas

Ainda nos primeiros anos da nova capital da República, uma pequena vila de trabalhadores passou a chamar a atenção de autoridades, arquitetos, urbanistas e engenheiros. A pequena vila atraia olhares pelo modo com que foi construída, através sistema de mutirão. A aglomeração foi batizada com o mesmo nome do córrego que a ladeava e é um dos formadores do lago Paranoá, o córrego Guará, que banha a região, e se origina do Lobo Guará, espécie comum no cerrado brasileiro – a palavra Guará deriva do tupi auará, que significa “vermelho” e é associada tanto ao lobo Guará quanto à ave Guará.
A cidade começou a ser implantada em setembro de 1967, com a denominação de Setor Residencial de Indústria e Abastecimento (SRIA) com a finalidade de abrigar trabalhadores do Setor de Industria e Abastecimento (SIA), além de moradores de ocupações irregulares e funcionários públicos. Seus primeiros habitantes foram os funcionários da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), que construíram suas próprias casas. O projeto do então prefeito de Brasília, Plínio Catanhede, previa apenas algumas quadras, composta de pequenas casas para os trabalhadores de Brasília. Os próprios participantes construiriam suas residências em mutirão. Os interessados em viver aqui, reuniam-se em grupos e rua a rua foram construindo o Guará I. Após cada rua ser finalizada, um sorteio definia quem teria direito a que casa. O mutirão começou pela QE 5 e seguiu pelas QEs e QIs 1 e 3.

A Sociedade de Interesse Habitacional (Shis) desenvolveu o projeto e a Novacap o executou. O próprio presidente da empresa, o engenheiro Rogério de Freitas Cunha, coordenou o mutirão. O governo fornecia o material para a construção e os futuros moradores construíam as casas. Em 21 de abril de 1969 foi inaugurado o primeiro trecho, chamado SRIA I, atual Guará I. Ainda no mesmo ano, a Novacap e a Shis ampliaram a área de ocupação, surgindo o segundo trecho, denominado Guará II, inaugurado em 2 de março de 1972, com o objetivo de atender aos funcionários públicos de menor renda transferidos para Brasília junto com os últimos ministérios, além de industriários e comerciários, desta vez com os imóveis financiados pelo BNH.
Quando foi oficialmente inaugurada em 5 de maio de 1969, o Guará tinha 2.623 casas construídas e 1.021 em construção. A partir daí, a Shis começou a construção de mais 3 mil casas, destinadas a servidores do governo que não tinham residência própria. Somadas às do mutirão, essas mais de seis mil casas formaram o núcleo inicial do Guará, ocupando uma área de 2,994 quilômetros quadrados. Em 1971, o Guará foi ampliado e passou a ocupar área de 8,1 mil quilômetros quadrados.

Nova fase

A poeira nas ruas, a falta de estrutura e o preconceito fez com que muitos agraciados com as novas casas desistissem de vir para a cidade. Muitos trocaram os imóveis por lotes em outras cidades, como Ceilândia e Taguatinga, outros simplesmente abriram mão de seus empregos e voltaram para o Rio de Janeiro, de onde veio a maior parte dos servidores transferidos. Assustados, esses servidores de menor renda vendiam as casas por preços irrisórios ou as abandonavam.
A Região Administrativa X (RA X) somente seria criada em 1989, com a denominação oficial de Guará, por meio da Lei nº 49 e seu Decreto nº 11.921, ambos de 25 de outubro, que estabeleceu a divisão do Distrito Federal em 12 regiões administrativas, entre elas o Guará, desvinculando-o da RA I (Brasília).
Com a cidade concretizada e em franco desenvolvimento, o governador José Ornellas, em 1985, no último ano de seu governo, criou a QE 38 para assentar 523 famílias que viviam na Vila da CEB, Vila União, Vila Socó e Guarazinho. No processo de assentamento, pessoas de todo o DF aproveitaram para se instalar na nova quadra, como as famílias oriundas das invasões da 110 Norte. Como aconteceu no início da formação da cidade, parte dos destinatários dos lotes também viu neles não uma oportunidade de viver bem, mas de negócio e os venderam por preços abaixo do mercado imobiliário.

Crescimento

A Feira Permanente do Guará foi criada em 1983 e até hoje é símbolo da cidade e um dos centros de compras mais tradicionais do DF. Em 1984, foi criado o Setor de Oficinas do Guará, atendendo aos apelos dos moradores incomodados com o barulho das oficinas que funcionavam em residências. A partir de 1986, iniciou-se a implantação das Quadras Econômicas Lúcio Costa (QELC), contíguas à EPTG e resultado do plano “Brasília Revisitada”, de autoria do urbanista. E em março de 1990, o Guará II se expandiu para além do anel viário, com as quadras QE 42 a 44, onde mais de 400 famílias foram assentadas. Em 1987. começou a implantação da QE 40 e três anos depois foi estendida com a criação do Polo de Moda.
Posteriormente, do território ocupado pela RA X foram criadas as regiões administrativas do SIA (RA XXIX) e do SCIA (RA XXV). Em 1997, no finalzinho do Governo Roriz, foi criada a QE 46, onde foram assentados apadrinhados do governo e não inquilinos de baixa renda como era o previsto.
Atualmente, a Região Administrativa do Guará é interceptada pelas principais artérias e rodovias que conectam os mais importantes centros urbanos do Distrito Federal, assim como os centros regionais, sendo favorecida, também, pela sua proximidade ao aeroporto. Isso faz dela um importante ponto estratégico que estimulou, ao longo do tempo, sua consolidação como um dos mais dinâmicos polos de comércio, lazer e serviços do DF, com oferta de shoppings, hipermercados, bares e restaurantes, o que faz do Guará uma das cidades mais autônomas em relação ao Plano Piloto.