Comida que nasce perto

No Guará, hortas comunitárias e medicinais são exemplos de como a produção urbana de alimentos se conecta a políticas públicas para garantir o direito à alimentação saudável

Plantar alimentos perto de casa é possível — mesmo em meio à cidade. De forma colaborativa, sustentável e orgânica, moradores do Guará têm transformado áreas ociosas em espaços produtivos. Seja em terrenos públicos, unidades de saúde ou áreas comuns de condomínios verticais, hortas e hortos agroflorestais mostram que a produção de comida de verdade não precisa estar distante.

Comida de verdade voltou a ser prioridade. A ONU anunciou a saída do Brasil do Mapa da Fome em julho de 2025, reconhecendo os avanços promovidos por políticas públicas que garantem acesso à alimentação. Experiências locais como a Horta Comunitária do Guará e o Horto Agroflorestal na UBS 2 somam-se a um conjunto de políticas públicas do Governo Federal voltadas à segurança alimentar e nutricional em todo o país. Essas ações fazem parte do Plano Brasil Sem Fome (BSF), lançado em 31 de agosto de 2023, uma estratégia nacional para tirar o Brasil do Mapa da Fome e reúne iniciativas coordenadas por 24 ministérios no âmbito da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan). Sua execução ocorre por meio da articulação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), com foco em três eixos estruturantes: produção de alimentos, acesso à alimentação adequada e fortalecimento da governança e do controle social.

Entre os destaques está a Estratégia Alimenta Cidades, que promove soluções para garantir comida de verdade nas áreas urbanas mais vulneráveis, conectando ações de governos locais com apoio técnico e financeiro do Governo Federal. Essa iniciativa atua em conjunto com programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), que já investiu mais de R$ 2 bilhões em dois anos, comprando diretamente da agricultura familiar para abastecer cozinhas solidárias e restaurantes comunitários.

Outro eixo importante é a Política Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, que incentiva a produção local de alimentos por meio de cessão de áreas públicas, fornecimento de sementes, capacitações e assistência técnica. No Distrito Federal, esse conjunto de ações resultou na criação de 85 hortas comunitárias, escolares, terapêuticas e medicinais, com mais de 598 famílias envolvidas em práticas agroecológicas.

No Guará

Na QE 38, a Horta Comunitária do Guará é um oásis verde em meio às casas, atrás do Posto de Saúde (ou UBS). A iniciativa liderada pelo Instituto Arapoti e tocada pela comunidade revitalizou a área e desde 2017 produz alimentos orgânicos e ervas medicinais. Os primeiros canteiros foram montados por voluntários, que capinaram o mato e transformaram o local em um espaço produtivo. Hoje, a horta é mantida por mais de 200 participantes organizados em grupos de trabalho que cuidam de mobilização, plantio, colheita, compostagem e educação ambiental.

A engenheira ambiental Dahiana Ribeiro, presidente do Instituto Arapoti, destaca que a proposta nasceu do desejo de oferecer alimentos sem agrotóxicos e de criar um espaço de convivência que ajudasse a aliviar o estresse do cotidiano. “A iniciativa, além da produção de alimentação orgânica e saudável, promove o alívio de estresse, bem-estar, segurança alimentar, terapia e educação ambiental e sustentabilidade.” Segundo ela, “o espaço é um verdadeiro centro da comunidade, onde é possível apoiar diversas famílias da região. Temos hortaliças, ervas e temperos na horta, mas já chegamos a plantar tomate, berinjela, brócolis, alho-poró, entre outros”. As colheitas extras são direcionadas a funcionários que atuam na construção do espaço ou a entidades sociais.

Dahiana Ribeiro, presidente do Instituto Arapoti, acompanha o plantio na Horta Comunitária da QE 38, no Guará. O espaço é mantido por voluntários e promove acesso a alimentos saudáveis, educação ambiental e convivência comunitária.

Nos sábados pela manhã, os encontros quinzenais reúnem moradores para plantar, colher, participar de oficinas e distribuir cestas com a produção da semana. A colheita também é vendida na feira da horta, onde os próprios clientes colhem seus alimentos. Os recursos ajudam a manter os canteiros e insumos da produção. Segundo Simone Vaz, voluntária da horta e educadora ambiental, “a comunidade aqui é mais carente. Então pensamos que a horta seria uma alternativa viável para garantir alimentos saudáveis. Uma cesta com o que colhemos aqui, se fosse comprada no supermercado, custaria de 40 a 100 reais, porque é tudo sem agrotóxico”.

Em média, cada encontro resulta na entrega de 25 a 30 cestas com verduras, legumes e frutas. “Certa vez, uma senhora pediu: ‘Deixa eu levar mais uma cesta, porque meu filho está preso, minha filha está desempregada, e a gente precisa mais para não faltar nada em casa’”, conta Dái Ribeiro, ao destacar a importância do projeto para as famílias atendidas. Valdemar Faustino, voluntário desde 2017, acompanha o crescimento da horta diariamente. “Venho aqui todos os dias. Pra mim, é uma terapia e uma satisfação em ajudar a humanidade a consumir produtos saudáveis e muito mais baratos.”

Horto Agroflorestal

Recentemente plantado, o Horto Agroflorestal da UBS 2 do Guará, próximo à QE 17, permite o cultivo integrado de alimentos, plantas medicinais e espécies do cerrado em um mesmo espaço, promovendo biodiversidade, equilíbrio ecológico e benefícios diretos à saúde e ao meio ambiente. O projeto, conduzido com apoio da Rede de Hortos Agroflorestais Medicinais Biodinâmicos (RHAMB), integra a proposta das práticas integrativas de saúde no SUS. O espaço combina o cultivo de plantas medicinais e alimentícias com atividades terapêuticas, especialmente voltadas para o público 60+.

Inspirado por iniciativas como a da UBS 9 de Ceilândia, o horto do Guará oferece um ambiente de acolhimento, trabalho coletivo e conexão com a natureza. Voluntários relatam melhoras significativas em quadros de depressão, ansiedade e doenças crônicas. A proposta da agrofloresta medicinal é aproximar o cuidado com a terra do cuidado com a saúde, promovendo bem-estar físico, mental e emocional por meio do contato com o ciclo natural das plantas.

A Rede de Hortos já alcança 30 unidades de saúde no DF, com mais de 8 mil metros quadrados de área cultivada. No Guará, esse modelo fortalece o papel dos equipamentos de saúde como pontos de encontro e cuidado integral.

Outras frentes

A retirada do Brasil do Mapa da Fome, confirmada pela ONU em julho de 2025, marca o impacto direto de políticas públicas bem executadas. A comida voltou a ser um direito, não um privilégio. E isso se deve à reativação de programas estruturantes como o Bolsa Família, o Fomento Rural, o PAA e as Cisternas, que ampliou o acesso à água potável para mais de 1 milhão de famílias brasileiras. Essa iniciativa reduziu em 29% a probabilidade de óbitos e em 26% a de internações hospitalares entre os beneficiários. Já o Programa Fomento Rural apoia agricultores com assistência técnica e recursos, com foco especial em mulheres do campo — 77% das 346 mil famílias atendidas são chefiadas por mulheres.

Além das Cozinhas Solidárias apoiadas pelo Governo Federal, que devem preparar mais de 14 milhões de refeições em 2025, promovendo o acesso imediato à alimentação. No DF, 20 cozinhas já foram habilitadas.

Ao valorizar a diversidade alimentar e reconhecer as tradições dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais, o Governo Federal reafirma que comida de verdade é também identidade e dignidade. “Comer bem é direito” resume o espírito dessas políticas públicas que seguem transformando comunidades, territórios e relações entre quem planta e quem se alimenta.

Saiba mais em: www.mds.gov.br