SAÚDE MENTAL – Com escuta e acolhimento, Guará reforça cultura de cuidado emocional

Profissionais, comunidade escolar, política públicas e trabalhadores da cidade reforçam a importância de manter o cuidado com o bem-estar emocional durante todo o ano

Márcia Delgado e Rita de Cássia, coordenadoras do Vem Comigo, no GG.“Percebemos que antes de falar sobre acolhimento com os estudantes, nós, professores, precisávamos buscar conhecimento e desenvolver práticas preventivas. Com isso, montamos um grupo de estudos, auxiliado pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Unicamp, especialista em convivência escolar”, explica Márcia.

por Elsânia Estácio

No Guará, o fim do Setembro Amarelo não encerrou o compromisso com a saúde mental. A campanha de prevenção ao suicídio serviu como ponto de partida para reflexões mais profundas e contínuas sobre o bem-estar emocional da população. Mais do que uma ação pontual, o cuidado com a mente tem se consolidado como uma prática cotidiana na região.
Escolas, profissionais de saúde, lideranças comunitárias e moradores têm mostrado, na prática, que a saúde mental é responsabilidade de todos. Seja por meio de rodas de conversa, atendimento psicológico, projetos escolares ou simples gestos de acolhimento, a rede de apoio construída no Guará reforça a importância de ouvir, cuidar e agir antes que o sofrimento se transforme em crise.
Nos últimos anos, o debate sobre saúde mental ganhou espaço na sociedade brasileira, e no Guará não tem sido diferente. Segundo dados do Ipsos Health Service Report 2025, a saúde mental já é considerada o principal problema de saúde do país. Na região, psicólogos, professores e estudantes atuam juntos para criar um ambiente mais acolhedor, onde falar sobre sentimentos e buscar ajuda se torna cada vez mais natural.

“Todo mês é mês de conscientização sobre saúde mental. Na comunidade do Guará, isso significa fortalecer laços, prevenir perdas irreparáveis e criar redes de apoio que realmente fazem diferença no dia a dia”, destacou a psicóloga clínica Ana Carolina Martins

A visão dos profissionais de saúde
A psicóloga clínica Ana Carolina Martins, moradora do Guará II, atende adolescentes e adultos na região. Com base na psicanálise, ela acredita que falar sobre saúde mental precisa ser constante. Ela alerta para sinais de risco como isolamento, mudanças bruscas de comportamento, falas de desesperança e alterações no sono e no apetite. “Esses sinais muitas vezes são pedidos silenciosos de ajuda e não podem ser ignorados”, reforça. No Guará, o CAPS AD II é uma das principais referências de atendimento público, mas a psicóloga defende mais investimentos e uma cultura de cuidado contínuo.
A psicóloga e neuropsicóloga Eloiza Lançoni Rodovalho, fundadora da Mood Psicologia, aposta na educação emocional como estratégia de prevenção. Segundo ela, palestras e dinâmicas têm gerado espaços seguros de conversa e, em muitos casos, motivando os participantes a buscar atendimento psicológico. “Falar sobre prevenção ao suicídio pode ser a última oportunidade de alguém enxergar uma nova perspectiva”, afirma.
O relato da estudante de Arquitetura e Urbanismo, Isabel Lopes, paciente da psicóloga Eloiza, mostra como o cuidado psicológico pode transformar rotinas e fortalecer o autoconhecimento. “Já havia feito terapia anos antes, mas desisti por incompatibilidade com a terapeuta. Anos depois, durante o processo de vestibular, percebi que precisava conversar e organizar meus pensamentos, foi assim que decidi voltar”.
Para Isabel, o acompanhamento psicológico foi decisivo para lidar com a pressão e as incertezas da fase pré-vestibular. “Entrar na terapia antes dos resultados foi essencial. Sem isso, eu não teria conseguido lidar sozinha. A terapia tem me ensinado muito sobre quem eu sou, sobre partes de mim que desconhecia. Tem me ajudado a gerenciar o que sinto e a não deixar que as emoções acabem explodindo”, completou.
Já a psicóloga clínica Anna Guimarães, acrescenta que a saúde mental deve ser tratada como uma responsabilidade coletiva. “O sofrimento não surge no vazio. Ele está entrelaçado a fatores como desigualdade social, falta de perspectiva e instabilidade econômica” , afirma.

“Não fomos ensinados a lidar com nossas emoções e muitas vezes as pessoas sofrem sozinhas por medo de julgamento. Por isso, reforço a importância da escuta ativa, do acolhimento e da identificação precoce de sinais de sofrimento”, explica Eloiza Lançoni Rodovalho

A profissional também lembra que jovens de 15 a 29 anos, idosos e grupos marginalizados estão entre os mais vulneráveis, segundo dados da OMS. “Falar sobre prevenção ao suicídio é falar sobre como a comunidade pode ser um fator protetivo. Precisamos fortalecer redes de apoio que realmente funcionem nas escolas, nos serviços públicos e nos espaços de convivência”, complementa.

 


Hoje entendo o quanto a terapia é importante, porque é sobre se preparar antes que o caos aconteça, não apenas tentar resolver quando ele já está ali”, contou a estudante de Arquitetura e Urbanismo, Isabel Lopes

Educação como pilar da prevenção
No CEM 1, o COlégio GG, o projeto Vem Comigo, coordenado pelas professoras Márcia Delgado e Rita de Cássia de Almeida Rezende, tem se consolidado como uma iniciativa exemplar no cuidado com a convivência escolar e a saúde mental. O programa surgiu da necessidade dos educadores se informarem e desenvolverem estratégias de prevenção ao bullying e às situações de sofrimento psíquico dentro da escola.
A partir do programa surgiram espaços de fala dentro da escola, por meio das rodas de conversa temáticas e das assembleias escolares. Em 2023, o CEM 01 deu um passo ainda mais importante com a criação da Comunidade de Cuidado e Apoio (CCA).
Para Rita de Cássia a iniciativa transformou o ambiente escolar, e tornou o clima com os alunos mais agradável, mais diálogo em sala e maior participação dos estudantes. “Cuidar da saúde mental é também cuidar dos gatilhos que podem gerar sofrimento. Quando o grupo aprende a se escutar e a lidar com frustrações, o bullying diminui e surgem respeito e confiança”, afirma.

Para a a psicóloga clínica Anna Guimarães, “quando falamos em prevenção, não se trata apenas de
fortalecer ferramentas individuais, mas de criar laços comunitários e ambientes onde as pessoas se sintam pertencentes, vistas e acolhidas”

Os integrantes do programa passam por formações sobre valores humanos, escuta ativa, comunicação não violenta e estratégias para lidar com situações de exclusão e bullying. Hoje, o Vem Comigo realiza atividades com todos os segmentos da comunidade escolar, estudantes, professores e famílias, promovendo rodas de conversa e ações de convivência positiva, o impacto é visível no cotidiano.
“Combater o bullying significa também cuidar da saúde mental dos nossos estudantes. Quando trabalhamos com acolhimento e respeito dentro da escola, prevenimos ansiedade, depressão e situações de risco. Essa é uma forma concreta de aplicar, todos os dias, os princípios que o mês da saúde mental nos lembra”, destaca Márcia Delgado.

Protagonismo estudantil e reconhecimento público
Entre os jovens participantes, o sentimento é de pertencimento e transformação. A estudante Maya Souza, 17 anos, lembra que entrou no projeto ainda no primeiro ano do ensino médio e se encantou com a proposta. “Me vi num espaço que sempre defendi, onde podia usar a oratória e a criatividade para fazer a diferença. Foi ali que percebi o poder da empatia na escola”, contou.
Já Luiza Souto, 18 anos, conheceu o projeto por meio de amigos e diz que o trabalho mudou a forma como os estudantes se relacionam. “Já sofri bullying e sei o quanto isso abala o psicológico. Dinâmicas como a das máscaras, que trabalham empatia e acolhimento, mudaram o clima da escola. Participar do Congresso Nacional de 2024, em Campinas (SP), foi uma das experiências mais marcantes da minha vida, percebi que nosso trabalho inspira outras escolas e que a mudança, embora lenta, é real e duradoura”, afirma.
O sucesso da iniciativa tem sido reconhecido dentro e fora do Guará. No último dia 6 de outubro, no auditório da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), o projeto Vem Comigo recebeu uma Moção de Louvor concedida pela deputada distrital Dayse Amarílio.

Miguel Galdino alerta que casos como o de Rafael não são isolados e refletem uma realidade crescente. “As empresas que não se adequarem às novas normas podem enfrentar multas, ações judiciais e prejuízos de imagem, mas, acima de tudo, precisam entender que cuidar da saúde mental dos seus colaboradores é também uma questão de humanidade”

Políticas públicas em foco
A deputada distrital Dayse Amarílio, enfermeira e professora, lançou em 2023 o edital Saúde Mental nas Escolas, que destinou R$10 mil em emendas para projetos desenvolvidos por professores, gestores, famílias e alunos. “A ideia foi fomentar iniciativas que já estavam surgindo dentro das próprias comunidades escolares. Nosso objetivo era dar corpo a esses projetos, diante de um cenário em que transtornos mentais se tornaram uma epidemia. A adesão foi muito positiva, já contamos com quase 100 escolas envolvidas”, explicou.

Para a deputada distrital Dayse Amarílio, o debate sobre saúde mental precisa ser constante. “É essencial para quebrar tabus e reforçar que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo. A escola é um espaço privilegiado de prevenção e promoção da vida. A comunicação intersetorial é fundamental, educação dialoga com saúde, saúde dialoga com segurança. Assim formamos uma rede de proteção e cuidado para nossas crianças”.

Saúde mental e o ambiente de trabalho
A preocupação também se estende ao mundo do trabalho. Em 2024, o Distrito Federal registrou o maior índice proporcional de afastamentos do país por transtornos mentais: foram 14.049 licenças médicas, sendo 5.380 por ansiedade e 3.354 por depressão, segundo o Ministério da Previdência Social. O aumento foi de 82,7% em apenas um ano, colocando Brasília à frente de estados como Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A gravidade dos números levou o governo federal a atualizar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que agora inclui os fatores psicossociais entre os riscos ocupacionais. A partir de 2025, empresas serão obrigadas a mapear e prevenir situações que possam causar sofrimento mental, sob pena de multa e outras sanções.
O psicólogo e advogado Miguel Augusto Marçano Galdino, morador do Guará I, explica que as mudanças representam um avanço importante para a proteção do trabalhador. “As novas regras tornam obrigatória a identificação dos riscos psicossociais e a implementação de medidas preventivas no ambiente laboral. As empresas deverão criar programas de promoção da saúde mental, treinar lideranças e integrar o tema ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR)”, esclarece.
O assistente administrativo Rafael Menezes (nome fictício, a pedido do entrevistado), paciente do Dr. Miguel Galdino, viveu de perto as consequências do adoecimento mental causado pelo ambiente profissional. “Comecei a buscar terapia em um momento em que estava passando por muito estresse e pressão no trabalho. Meu corpo começou a colapsar e eu não conseguia mais me controlar, então senti a necessidade de procurar ajuda. Fui diagnosticado com burnout, ansiedade e depressão, tudo resultado do excesso de metas e cobranças. Existiam muitos abusos onde eu trabalhava”, relata.
Rafael conta que, após retornar de um período de afastamento, acabou sendo desligado da empresa. “Acho desumano o que fizeram. Fui explorado ao máximo e, quando adoeci, fui dispensado. Hoje estou em tratamento e sigo com acompanhamento psicológico e psiquiátrico. A terapia tem sido essencial para enfrentar essa fase”, desabafa.