INTOLERÂNCIA NA ESCOLA

Professor é agredido por pai de aluna após advertência sobre uso de celular em escola do Guará. Caso de violência escolar mobiliza autoridades e levanta debate sobre segurança nas escolas públicas do DF

Guará volta ao noticiário nacional de forma negativa, após a agressão sofrida por uma mulher no elevador de edifício residencial do Guará II, há dois meses, assunto difundido e debatido nas redes sociais e na imprensa de todo o país. O assunto da vez que coloca a cidade no epicentro do furacão é a agressão de um pai de uma aluna a um professor dentro de uma escola pública no Guará I.

Vídeos que viralizaram na Internet mostram o professor de Matemática do Centro Educacional 4 (CED), na QE 9, Emerson Teixeira, de 53 anos, sendo brutalmente agredido na manhã de segunda-feira (20 de outubro), após advertir uma aluna pelo uso de celular em sala de aula. O episódio, registrado por câmeras de segurança e por câmeras de celular de pessoas que presenciaram o fato, e testemunhado por estudantes e servidores da escola, gerou indignação e mobilizou autoridades da educação e da segurança pública.
De acordo com relatos de servidores e alunos, o educador solicitou que a aluna deixasse de manusear o celular e copiasse o conteúdo do quadro, o que teria motivado a estudante a acionar o pai. Momentos depois, o pai dela, Thiago Lênin Sousa, entrou na escola e, ao localizar o professor na sala da Coordenação, o atacou com ao menos nove socos na cabeça, quebrando seus óculos e uma corrente com pingente, deixando hematomas nas costas e escoriações pelo corpo dele.
A agressão foi contida com dificuldade por estudantes e funcionários, com a participação da própria filha do agressor, que aplicou um mata-leão no pai para tentar impedir a violência, conseguindo derrubá-lo no chão. Ela aparece nas imagens desesperada, chorando e questionando o motivo da agressão. Outros alunos e um servidor ajudaram a conter o agressor até a chegada da Polícia Militar, que o levou para a delegacia.
A indignação do pai teria sido provocada pela advertência à filha dele por parte do professor, que teria pedido que ela deixasse de manusear o celular e copiasse o que ele havia escrito no quadro negro. Incomodada com a forma como foi advertida, a aluna passou uma mensagem para o pai relatando o fato, sem imaginar que a reação dele iria ser tão desproporcional.
Em vídeo postado por uma colega da estudante filha do agressor, que presenciou a agressão, explicou que a amiga utilizava o celular em sala de aula por ter problemas de visão e por estar sem os óculos adequados porque estava sem condições financeiros de adquirir outro. O aparelho seria uma forma de a aluna conseguir copiar a lição exposta em lousa, e que outros professores estariam cientes da situação da aluna.
No vídeo, a aluna conta que o professor já havia sido alvo de reclamações anteriores. “Quatro meninas já reclamaram que viram ele tirando fotos de alunas. É realmente preocupante”, afirmou. “Ele xinga os alunos, grita, abusa do poder dele. Fala coisas desnecessárias e envergonha os alunos na frente dos outros. É realmente um opressor”, completou.
“A gente está ali para aprender, não para ser humilhada. O que preocupa é até quando vão fazer vista grossa para esse tipo de atitude dentro da escola”, cobra a aluna no final do vídeo.
Através do seu advogado, Rogério Alves da Silva, o pai alega que “agiu sem pensar após um surto momentâneo” e pediu desculpas públicas pela agressão. Segundo ele, “foi um ato desesperado ao receber o pedido de ajuda da filha”. No pedido, a filha relatou que o professor a teria ofendido com palavras de baixo calão. “Guarda essa porra aí, já falei para não usar o celular, caralho!”, teria sido a frase do professor à estudante, que teria se sentido humilhada pela advertência.

Professor se sente humilhado
Com 25 anos de profissão e há dez atuando no CED 4, Emerson Teixeira afirma que jamais passou por situação semelhante. Visivelmente abalado, ele garante que não tem condições psicológicas de retornar às atividades em sala de aula no momento. “Passar por uma humilhação dessas é algo inacreditável. Fica só tristeza”, desabafa. “Vou ficar afastado por um tempo. Esta semana vou a uma consulta médica, pois estou abalado com tudo que está acontecendo”, afirma o professor, que havia voltado a lecionar há dois meses, após gozar de licença-prêmio.

Agressor indiciado
A Polícia Militar foi acionada pela direção da escola e, ao chegar no local, encontrou os envolvidos separados. O agressor foi encaminhado à 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), onde assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e vai responder, em liberdade, pelos crimes de lesão corporal, injúria e desacato. Em depoimento, ele alegou ter recebido uma mensagem da filha dizendo haver sido xingada pelo professor, mas não confirmou ter feito ameaças.
A Secretaria de Educação do Distrito Federal, por meio da Coordenação Regional de Ensino do Guará, afirmou em nota que acompanha o caso de perto. A pasta informou que a Corregedoria foi acionada para apuração dos fatos e que o Batalhão Escolar reforçará a segurança na entrada e saída dos estudantes nos próximos dias.
“A Secretaria repudia qualquer forma de violência no ambiente escolar e reafirma o compromisso de garantir um espaço seguro, acolhedor e respeitoso para toda a comunidade”, destacou o comunicado.
O episódio reacende o debate sobre a segurança dos profissionais de educação nas escolas públicas e o cumprimento da Lei nº 15.100, sancionada em janeiro deste ano, que proíbe o uso de celulares e aparelhos eletrônicos por alunos em instituições públicas e privadas, inclusive nos intervalos.
Enquanto as investigações seguem, a comunidade escolar do Guará se vê diante do desafio de lidar com as consequências de um ato de violência que rompeu a rotina e o sentimento de segurança no ambiente educacional.
Em artigo divulgado nas redes sociais, o jornalista guaraense e colunista do Jornal do Guará, Luciano Lima, lembrou que “vivemos em uma sociedade em que a Educação parece ter se transformado em um obstáculo para o crescimento de um indivíduo e o fortalecimento de uma nação. Estamos sendo excessivamente permissivos, e não valorizamos o mérito e o esforço. Temos uma educação que privilegia o “coitadismo” e “derrama na sociedade” milhões de analfabetos funcionais”. Ainda segundo Luciano, “diante da grave crise na educação brasileira, é completamente compreensível o declínio na procura pela carreira de magistério. Temos uma escola pública desinteressante para alunos e professores desinteressados. Vamos, em futuro muito próximo, pagar um preço muito caro por isso”.

Professor acumula polêmicas
Depois da divulgação do vídeo e do assunto virar debate, foram recuperados vídeos e reportagens mostrando que o professor Emerson Teixeira já se envolveu em polêmicas na própria escola e com alunos, o que pode ter provocado e aumentado a indignação do pai da estudante. Nas redes sociais, circulam vídeos e postagens de alunos colegas da estudante, acusando o professor agredido de tratar os alunos com grosseria, usar vocabulário chulo e desrespeitoso, e de defender posições políticas de forma radical e apaixonada, principalmente em defesa de Bolsonaro (ver matéria ao lado).
Nos grupos de WhatsApp da cidade, o tom do debate, que condenava inicialmente somente o pai pela agressão, mudou em parte após a divulgação das polêmicas anteriores envolvendo o professor Emerson Teixeira. Vários internautas, inclusive quem conhecia o histórico do professor, justificaram a indignação do pai, que já teria conhecimento dos constrangimentos que a filha e colegas dela vinham sofrendo.

Como denunciar violência na rede pública
A Secretaria de Educação do DF informa que o canal oficial para o recebimento de denúncias e manifestações relacionadas à conduta de profissionais da rede pública de ensino do DF é a Ouvidora-geral do Distrito Federal.
Os membros da comunidade escolar — estudantes, familiares e servidores — podem registrar suas ocorrências por meio do site: https://www.participa.df.gov.br, pelo telefone 162, ou presencialmente na sede da Secretaria de Educação, ou nas Coordenações Regionais de Ensino.
As manifestações são encaminhadas à área responsável para análise e adoção das providências cabíveis. A secretaria afirma garantir o sigilo das informações e a proteção da identidade do denunciante.
Em nota, a Polícia Civil do DF informou, com base no boletim de ocorrência, que o pai da aluna foi à escola após um desentendimento entre a filha e o professor quanto ao uso indevido do celular em sala de aula. Conforme o documento, o autor das teria o hábito de gritar e de xingar os alunos, além de colocá-los em situações vexatórias.

 

Professor já foi investigado por churrasco comemorando eleição de Bolsonaro em sala de aula

Emerson Teixeira já foi alvo de uma apuração da Corregedoria da Secretaria de Educação do DF em 2018, após publicar nas redes sociais um vídeo em que participava, ao lado de estudantes da própria escola do Guará, de um churrasco em comemoração à vitória de Jair Bolsonaro (PL) na eleição presidencial.
O professor usava uma camiseta com a mensagem “Bolsonaro presidente”. No vídeo, gravado em sala de aula, Teixeira dizia: “Hoje a Matemática não é importante”, enquanto uma churrasqueira elétrica aparecia ligada com vários pedaços de carne. No mesmo vídeo, que havia alcançado mais de 6 mil visualizações esta semana, ele aparece depois comemorando a eleição de Bolsonaro no pátio da escola com vários alunos.
O codinome “Professor Opressor”, veio de uma brincadeira com o termo. “Via na internet algumas pessoas chamando os eleitores do Bolsonaro de fascistas opressores, e adotei”, conforme o próprio Emerson, que passou a usar os casos de corrupção no país como forma de contextualizar suas aulas de matemática financeira.
A diretora do CED 4, Janete Maria Ribeiro, garante que o vídeo do churrasco foi feito sem autorização e sem conhecimento da direção. De acordo com a diretora, após ter sido “desautorizado”, Emerson pediu desculpas e encerrou o churrasco. “Outro fato grave foi o uso da imagem dos estudantes sem a autorização dos pais”, diz ela, que afirma ter encaminhado o caso para a Regional de Ensino do Guará, mas que não recebeu respostas sobre as providências.
Em junho de 2020, Emerson Teixeira, então dono de um canal no Youtube chamado “Professor Opressor”, foi alvo de uma operação da Polícia Federal no curso das investigações sobre os atos antidemocráticos no Supremo Tribunal Federal. Em 16 de outubro daquele ano, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra 21 pessoas em cinco estados e no DF, incluindo a residência do professor. Em reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo em outubro de 2020, Emerson Teixeira afirmou que conseguia um rendimento mensal de R$ 11 mil mensais com o canal em defesa do bolsonarismo. Em vários vídeos postados, ele aparecia no famoso “cercadinho do Palácio do Planalto” ajudando o presidente Jair Bolsonaro a assediar jornalistas durante as entrevistas e aparições ao público.