Solano – Dono de boteco, organizador de campeonatos e guardião das memórias do Guará

Ele não é apenas o mais conhecido dono de boteco do Guará. Solano é também um agregador de amigos, incentivador do futebol amador, arquivo da velha guarda da cidade e boa gente. O bar, ou melhor, o boteco, é simples, num quiosque da praça das QEs 8 e 10 do Guará I, mas cabe muita gente que gosta de apreciar uma boa comida – sim, também é restaurante – um bom petisco, cerveja no ponto e jogar uma boa conversa fora, principalmente se for para rememorar os velhos tempos do Guará, da época dos campos de futebol de terra batida e dos encontros dos amigos.
Solânio Oliveira Sousa, ou simplesmente Solano, 59 anos, personifica a própria casa, que leva o seu nome. Além da presença constante das 10h a 1h da manhã – intercalada com idas quinzenais à fazenda da família em Arinos (MG) – ele próprio ajuda a “gerente da cozinha” Lidiane a elaborar o cardápio, enquanto atende no salão e mantém a clientela, sempre fiel. “Cerveja gelada e petisco todo mundo vende. Mas o que procuramos vender aqui é alegria”, define Solânio quando é perguntado sobre o que seria o diferencial do seu bar. Com efeito, o Solano´s Cozinha & Bar é mais que um simples boteco, é um ponto de encontro de amigos, alguns deles clientes da casa há 14 anos, desde quando funcionou na QI 22, ou desde quando o bar foi aberto e perambulou pelas QIs 10, 6, 8 e 1 do Guará I por outros 17 anos até fixar-se no atual endereço há dois anos. É comum grupos de amigos se formarem nas mesas sem que tenham combinado de se encontrarem lá. Basta chegar que sempre tem algum conhecido.

Liberdade e empreendedorismo
Solano chegou ao Guará ainda pequeno, vindo com a família de Porto Alegre, e viu o bairro se transformar. “Meu pai foi pioneiro aqui, moravávamos na Invasão do Iapi até surgiu a oportunidade de conseguir uma casa da SHIS. Desde então, nunca mais saí daqui”, conta. Começou a trabalhar aos 10 anos ajudando em jogos de futebol do Guarani e, desde então, constrôi sua história ligada à cidade.
Ao longo da vida profissional, passou pelo Sesc, onde trabalhou dos 18 aos 24 anos, e depois pelo BRB, onde atuou no controle interno até aos 31. “Não me adaptei a ficar preso em escritório. Sempre fui muito interativo. Descobri que queria trabalhar por conta própria”, lembra. A primeira experiência como dono de bar foi em Ceilândia, como cliente que acabou comprando o estabelecimento. Um ano depois, veio a primeira quebra. “Quebrei pra aprender”, resume. A partir dali, nunca mais parou.
Apesar das dificuldades e incertezas do comércio, Solano nunca perdeu o contato com a comunidade. Com Diane Pereira Magalhães, com quem divide a gestão do bar, ele comanda um cardápio autoral, desenvolvido com participação dos clientes. “A gente sempre faz testes de pratos com os frequentadores. Se for aprovado, entra no cardápio. Se não agradar, a gente muda. Tudo aqui é criado no bar, com a opinião de quem frequenta.”
Essa relação com o público se estende também ao esporte. Apaixonado por futebol, Solano teve participação ativa nos campeonatos amadores do Guará desde jovem. Começou jogando pelo time do Sesc, onde também aprendeu a organizar torneios. Mais tarde, já como comerciante, liderou a criação do Campeonato Terrão na 22, um torneio de veteranos que cresceu até se tornar uma das maiores competições de futebol amador do Distrito Federal. “No início, não tinha nem time. Criei o Solanos A e Solanos B, dois times formados pelos amigos do bar. Depois, conseguimos apoio, fizemos parceria com a Administração Regional e virou um campeonato de alto nível.”
Com o tempo, a rotina apertada e a demanda do trabalho o levaram a se afastar da organização, e o campeonato acabou sendo descontinuado. Em 2022, Solano deixou a 22 e voltou para a praça QI 10. Recentemente, retomou conversas com a Administração Regional e a Secretaria de Educação para tentar viabilizar um novo campo para o futebol amador, desta vez na área onde funcionava o antigo Clube dos Passarinhos. “Queremos manter viva essa tradição. O futebol amador do Guará é parte da nossa história.”
Solano também é um dos organizadores do tradicional Encontro dos Amigos do Guará, que acontece todo dia 24 de dezembro, além do grupo Dinossauros, formado por moradores antigos que realizam eventos e confraternizações ao longo do ano. “O bar sempre foi um ponto de encontro da comunidade. Aqui, não é só comida e bebida, é também memória, amizade, acolhimento”, faz questão de afirma.
Apesar do apego à rotina urbana, Solano se prepara para um novo ciclo: pretende se mudar, nos próximos anos, para a fazenda da família em Alunos (MG), propriedade que pertence aos Souza há mais de 50 anos. Após décadas trabalhando na madrugada, o desejo é desacelerar. “Quero sossego, mato, bicho, música. Gosto da vida no campo, gosto de cantar, de mexer com a terra. E já estou me preparando: viajo para lá a cada 15 dias, fico uma semana, dez dias, vou me adaptando”, conta.
A transição não será simples. Além do custo elevado, há a dificuldade de deixar para trás o que foi construído ao longo de tantos anos. Mas ele não tem pressa. “É um projeto que vem sendo trabalhado. Falta um ano e meio, dois anos, e acho que vai dar certo. Mas a gente sabe que não é fácil abrir mão de tudo”, afirma.