A QE 60 começou, de fato, a sair do papel. Máquinas, caminhões e trabalhadores já ocupam o terreno localizado atrás da QE 46, no Guará II, onde começaram as obras de infraestrutura da nova quadra. As primeiras intervenções sã o de drenagem urbana e preparação do terreno para o sistema viário que dará forma aos conjuntos de A a R.
O início dos trabalhos encerra um longo período em que o projeto existia no planejamento urbano, mas não avançava fisicamente. A Terracap chegou a colocar terrenos da QE 60 à venda a partir de 2024, mas as tentativas de comercialização não atraíram propostas. Sem infraestrutura implantada, o empreendimento não despertou o interesse esperado das incorporadoras e a empresa decidiu suspender as vendas e preparar primeiro a área para receber a ocupação.
O passo seguinte também encontrou dificuldades. A contratação das obras de infraestrutura passou por análise do Tribunal de Contas do Distrito Federal, que determinou ajustes no processo antes de liberar sua continuidade. Superada essa etapa, a licitação avançou e, agora, a mudança pode ser vista no próprio terreno.

Obras em andamento
Em 11 de junho, a Diretoria Colegiada da Terracap homologou a licitação para a implantação da drenagem e da pavimentação da QE 60 e definiu a Trier Engenharia S/A como responsável pelos serviços. O contrato tem valor de R$ 49,959 milhões e abrange toda a área dos conjuntos de A a R.
Não se trata apenas de colocar asfalto nas futuras ruas. O pacote contratado inclui a rede de drenagem das águas das chuvas, pavimentação, meios-fios, calçadas e sinalização das vias, além de bocas de lobo, poços de visita e outras estruturas necessárias ao funcionamento do sistema de drenagem.
É justamente essa fase que explica as grandes escavações atualmente visíveis no terreno. Antes da pavimentação definitiva, é necessário implantar redes subterrâneas, preparar e compactar o solo e construir as estruturas responsáveis por captar e conduzir a água da chuva.
O projeto básico estabelece prazo de 360 dias corridos para execução dos serviços, contados a partir da ordem de serviço da Terracap. Isso corresponde a aproximadamente um ano de obras, embora o cronograma possa sofrer alterações durante a execução caso sejam necessárias adequações técnicas.
A empresa contratada deverá manter acompanhamento diário dos trabalhos, executar ensaios de controle do solo e da pavimentação e reparar eventuais danos provocados durante as intervenções. Também é responsável pela segurança e sinalização da área, controle de erosões, retirada de resíduos e recuperação de danos ambientais decorrentes da obra.
A área alcançada pela intervenção tem aproximadamente 28,3 hectares, o equivalente a cerca de 283 mil metros quadrados. O terreno está localizado entre a QE 46 e o Setor de Postos, Motéis e Concessionárias, em posição próxima à EPIA e aos principais acessos da região sul do Guará.
Apesar do início da infraestrutura, a QE 60 ainda terá outras etapas antes de receber seus primeiros moradores. O contrato de quase R$ 50 milhões atualmente em execução é voltado à drenagem e ao sistema viário. As redes definitivas de abastecimento de água, esgotamento sanitário e fornecimento de energia não fazem parte desse contrato e precisam acompanhar o desenvolvimento da nova ocupação.
A implantação da infraestrutura elimina, entretanto, um dos principais obstáculos que impediram o avanço do empreendimento. Com as ruas, drenagem e demais estruturas básicas em construção, a Terracap passa a ter melhores condições para voltar a oferecer os terrenos ao mercado e iniciar uma nova fase da QE 60.
Uma quadra vertical e mista
A QE 60 foi concebida para ser diferente das quadras mais antigas do Guará. Não haverá lotes destinados a casas individuais. A ocupação será predominantemente vertical e combinará apartamentos, comércio, serviços e equipamentos públicos.

O desenho urbanístico prevê 107 lotes. A maior parte será de uso misto, permitindo que uma mesma área reúna atividades comerciais e residenciais. A apresentação mais recente do empreendimento indica 93 lotes destinados à comercialização.
A predominância de edifícios é uma das principais características da nova quadra. O projeto estabelece edificações de até 22,5 metros de altura nas áreas de maior adensamento, criando um setor de densidade superior à das quadras tradicionais formadas principalmente por casas.
A capacidade estimada é de mais de 8 mil habitantes. Isso significa que, quando completamente ocupada, a QE 60 terá população comparável à de um pequeno bairro e representará um acréscimo significativo de moradores dentro de uma área relativamente compacta do Guará.
O projeto tenta compensar o adensamento aproximando moradia, comércio e serviços. Duas avenidas comerciais deverão concentrar parte importante das atividades econômicas da quadra. A proposta é permitir que compras e serviços cotidianos possam ser acessados a pé, reduzindo a necessidade de utilizar o carro para pequenos deslocamentos.
As áreas residenciais também foram distribuídas de forma que os moradores fiquem próximos aos espaços públicos. Os lotes onde será permitido morar estarão a menos de 200 metros de uma praça, distância equivalente a poucos minutos de caminhada.
As ciclovias fazem parte da mesma proposta. O planejamento prevê uma rede cicloviária conectada às vias da quadra, além de calçadas mais largas e arborizadas. O conceito urbanístico procura priorizar pedestres e ciclistas nos deslocamentos internos e diminuir a dependência do automóvel dentro do próprio setor.

A localização contribui para esse modelo. A QE 60 ficará próxima a grandes centros comerciais, concessionárias, serviços, shoppings e importantes corredores de transporte. Ao mesmo tempo, essa posição estratégica coloca sobre o projeto a necessidade de criar boas conexões com a malha urbana já existente.
Além dos lotes destinados ao mercado imobiliário, o planejamento reserva áreas para equipamentos públicos. Estão previstos dez lotes institucionais, que poderão receber estruturas voltadas a serviços como educação, saúde e segurança.
Parte dos terrenos urbanizados também será transferida à Codhab para projetos de habitação de interesse social. A ocupação será coletiva e vertical, sem lotes individuais para construção de casas. A definição dos empreendimentos habitacionais, quantidade de apartamentos e participação de cooperativas ou associações dependerá das etapas conduzidas pela companhia habitacional.
A mistura entre moradia, comércio, serviços, equipamentos públicos, praças e circulação de pedestres é o elemento central da proposta. Em vez de uma quadra exclusivamente residencial, a QE 60 foi planejada para funcionar como um pequeno núcleo urbano dentro do próprio Guará.
Impacto para todo o Guará
A chegada de mais de 8 mil moradores não produzirá efeitos apenas dentro dos limites da futura QE 60. Uma população desse tamanho ampliará a movimentação em todo o Guará II e aumentará a demanda por transporte, comércio, escolas, unidades de saúde, segurança e demais serviços públicos.
O trânsito é um dos impactos mais imediatos a serem acompanhados. A área está ao lado da QE 46 e próxima à EPIA, corredor que já concentra grande fluxo nos horários de pico. Mesmo com um projeto que procura estimular deslocamentos a pé e de bicicleta, milhares de novos moradores significarão também novos veículos entrando e saindo diariamente da região.

A capacidade dos acessos e a integração da nova quadra com as vias existentes serão fundamentais para determinar a dimensão desse impacto. Também terá importância a oferta de transporte coletivo, capaz de reduzir a dependência do automóvel nos deslocamentos para outras regiões do Distrito Federal.
Para a QE 46, a transformação será ainda mais próxima. Uma área que durante anos permaneceu praticamente vazia passará a ter ruas, prédios, comércio, circulação de pessoas e uma população de milhares de moradores. O fluxo local deverá aumentar e novas conexões serão criadas entre a quadra existente e o novo setor.
A pressão sobre os serviços públicos também deverá crescer gradualmente. A simples reserva de terrenos para escolas, saúde e segurança não significa que os equipamentos estarão prontos quando os primeiros edifícios forem ocupados. O ritmo de implantação dessas estruturas será determinante para evitar que a nova população dependa exclusivamente da rede já existente no Guará.
O abastecimento de água, o esgotamento sanitário e a energia elétrica são outros pontos que precisarão acompanhar o avanço das construções. Embora as obras atuais representem a etapa mais concreta do empreendimento até agora, a infraestrutura em execução não esgota as necessidades da futura quadra.
Por outro lado, o crescimento populacional também deverá movimentar a economia local. Mais moradores representam novos consumidores para supermercados, restaurantes, escolas, academias, farmácias, serviços pessoais e estabelecimentos de diferentes setores. A própria QE 60 terá áreas comerciais, mas parte dessa demanda também deverá alcançar as quadras vizinhas.
A construção dos futuros prédios deverá gerar outra fase de movimentação econômica. Depois da conclusão da infraestrutura e da comercialização dos terrenos, incorporadoras, construtoras e empreendimentos habitacionais poderão iniciar suas obras, prolongando por alguns anos a transformação da área.
A QE 60, portanto, ainda está longe de pronta. O que mudou é que o projeto entrou em uma etapa concreta. Depois de anos de planejamento, tentativas frustradas de venda e dificuldades para contratar a infraestrutura, as máquinas chegaram ao terreno e as primeiras redes começaram a ser implantadas.
Nos próximos meses, o avanço da drenagem e das ruas mostrará progressivamente o desenho da futura quadra. Depois virão as demais redes de infraestrutura, a retomada da comercialização dos terrenos e a construção dos edifícios.
Para o Guará, será uma das maiores transformações urbanas dos últimos anos. Uma área de aproximadamente 283 mil metros quadrados hoje ocupada por máquinas e escavações deverá se tornar um novo setor vertical, com comércio, serviços, equipamentos públicos e população superior a 8 mil pessoas. A infraestrutura já começou a ser construída. A partir de agora, o desafio será fazer com que o crescimento da nova QE 60 seja acompanhado pela estrutura necessária para receber seus futuros moradores sem transferir para as quadras vizinhas os custos do adensamento.










