Obra de fé e coragem

Mantido exclusivamente por doações, Centro Socioeducativo Santo Aníbal Maria atende 430 crianças e adolescentes no Guará e enfrenta desafios diários para garantir alimentação, educação e atividades complementares

Na QE 40 do Polo de Moda, no Guará II, uma obra construída com fé, determinação e solidariedade transforma a realidade de centenas de crianças e adolescentes. Desde 2009, o Centro Socioeducativo Santo Aníbal Maria oferece atividades no contraturno escolar para jovens de 4 a 15 anos em situação de vulnerabilidade social. Idealizada pela missionária Diane Galdino, a instituição atende atualmente 430 crianças e adolescentes, dos quais 382 frequentam regularmente o espaço. Toda a estrutura, incluindo alimentação, funcionários e manutenção, é mantida exclusivamente por doações, sem receber recursos públicos.
O centro oferece muito mais do que um lugar seguro para deixar os filhos enquanto os pais trabalham. As crianças e jovens participam de oficinas de teatro, desenho, leitura, música, dança, artesanato e capoeira, além de atividades esportivas, reforço escolar e passeios. Os menores que permanecem em período integral recebem três refeições diárias, enquanto os atendidos em meio período têm direito a duas refeições. A alimentação é uma das prioridades da instituição, que procura oferecer um cardápio variado e de qualidade.
“Viver de doação é um desafio diário. Nas refeições diárias, consumimos, por exemplo, 20 quilos de arroz e duas caixas de leite”, conta Diane. Parte dos alimentos chega por meio de doações de estabelecimentos comerciais, inclusive produtos em boas condições que seriam descartados pelos mercados.

A preocupação com a dignidade também está presente no atendimento às famílias. Para Diane Galdino, a assistência social precisa oferecer acolhimento e respeito, independentemente da condição econômica de quem procura ajuda. “Infelizmente, no nosso país, existe uma mentalidade de que as coisas da assistência social precisam ser pobres. Aqui não. As famílias são tratadas com dignidade”, afirma.
O trabalho alcança famílias do Guará e de outras regiões administrativas, além de cidades do Entorno. Muitas mães trabalham como empregadas domésticas, diaristas ou em atividades informais no Guará e não têm com quem deixar os filhos durante o expediente. A instituição também atende crianças que enfrentam situações de violência, abandono e vulnerabilidade econômica, oferecendo um ambiente seguro e oportunidades de convivência e desenvolvimento. “O objetivo é oferecer referenciais de vida para que essas crianças encontrem alternativas para superar a situação de pobreza, miséria e violência. Aqui são ensinados mais do que conteúdos, são vivências que transformam visões de vida. Eles aprendem a conviver, a se relacionar com o mundo, com os colegas e a cuidar de si e do outro”, explica a diretora e idealizadora do projeto.
Uma conta que nunca fecha
Apesar da dimensão do trabalho, o maior desafio continua sendo financeiro. O Centro Santo Aníbal mantém 26 funcionários e precisa arcar mensalmente com salários, encargos sociais, alimentação, água, energia elétrica, gás e manutenção. Somente as despesas com água, energia e gás chegam a aproximadamente R$ 8 mil por mês. “A conta nunca fecha. Todo final de mês é um desespero para arrecadar o suficiente para o pagamento de salários, encargos, água, energia e manutenção. A situação fica pior no final do ano, por causa do 13º salário”, relata Diane.
A instituição sobrevive por meio de contribuições de pessoas físicas, bazares, eventos beneficentes e iniciativas de solidariedade, como o grupo Amigos em Ação, que promove rifas para arrecadar recursos. Mesmo com as dificuldades, a diretora não abre mão de manter a qualidade dos serviços e das instalações. “Costumo dizer que tenho a ajuda da Providência Divina. Só mesmo um milagre para conseguirmos manter uma instituição deste tamanho e dessa importância sem ajuda do governo”, afirma.
A capacidade física do centro também poderia ser ampliada para atender até 500 crianças e adolescentes, mas a falta de recursos impede que todas as vagas sejam ocupadas. Embora a instituição já tenha conseguido as certificações necessárias para buscar apoio governamental, ainda depende de editais e oportunidades de financiamento. No último edital do GDF, somente instituições com até 100 crianças poderiam se inscrever, o que excluiu o Santo Aníbal.

Fé para continuar
A história do Centro Santo Aníbal Maria é marcada por construções feitas aos poucos, sempre com recursos provenientes da solidariedade. Durante anos, parte das instalações funcionou em estruturas de madeirite. Com o tempo, novas salas, espaços de convivência e uma quadra esportiva foram incorporados ao terreno, melhorando as condições de atendimento.
Diane reconhece que a responsabilidade de manter uma estrutura desse porte, sem receita garantida, provoca momentos de preocupação e até vontade de desistir. Mas a convivência com as crianças renova sua disposição para continuar. “Não sei como ergui tudo isso. Só sei que tenho conseguido, mas, até quando, não sei”, revela. Ainda assim, eça encontra nas transformações proporcionadas pelo trabalho a principal razão para seguir em frente. “Nada paga o olhar dessas crianças”, resume.
Para ela, cada contribuição representa a possibilidade de manter abertas as portas de um espaço que oferece proteção, alimentação, educação e perspectivas de futuro a centenas de famílias. No Santo Aníbal, a solidariedade não é apenas uma forma de arrecadar recursos: é o que permite que a instituição continue existindo e realizando seu trabalho todos os dias.
As doações podem ser feitas pelo Pix, utilizando o CNPJ 05.568.980/0001-51. Também são recebidos alimentos, roupas, agasalhos e objetos em bom estado para os bazares e para atendimento às famílias.

 

DIANE GALDINO – Uma vida de doação

Aos quatro anos de idade, Diane Galdino chegou ao Guará, onde cresceu em uma família simples e tradicionalmente católica. Desde a adolescência, demonstrava uma preocupação incomum com as pessoas em situação de pobreza. Participava de projetos da Igreja e da Pastoral da Criança, arrecadava alimentos no comércio local e ensinava bordado, crochê e pintura em tecido a mulheres de famílias carentes, incentivando a produção de peças para geração de renda.
A vocação social acabou se transformando em missão religiosa. Como missionária rogacionista consagrada secularmente, Diane assume os compromissos de pobreza, castidade, obediência e vivência do carisma do Rogate. “Uma vida de plena doação”, resume. Para explicar sua escolha, utiliza uma imagem que acompanha sua trajetória: “Nossa vida deve ser como uma vela, ela só tem sentido se estiver acesa, iluminando a escuridão e, consequentemente, se gastando aos poucos. A vida de um missionário deve ser da mesma forma, se gastando pelo próximo e por uma sociedade fraterna, mais justa e sustentável”.
Influenciada por lideranças católicas como Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga, Diane construiu sua formação acadêmica em Filosofia e especializou-se em Política e Gestão no Terceiro Setor, Psicopedagogia e Administração Escolar. Ao longo da trajetória, trabalhou com crianças em situação de rua, alfabetização de jovens e adultos e projetos sociais em comunidades ribeirinhas do Amazonas e áreas rurais da Bahia e do Maranhão.

Simplicidade
A experiência reforçou sua convicção de que a assistência social precisa ir além da ajuda imediata. “É importante despertar nas pessoas a ideia da dignidade humana e a não dependerem do assistencialismo para sempre”, afirma. Para ela, conhecer os próprios direitos é fundamental. “Saúde e educação é para todos, não é favor”, ressalta.
A simplicidade que defende também orienta sua vida pessoal. “Para mim, basta estar vestida, com um calçado nos pés, ter um local para dormir. Não me importo com quantidade de bens, me importo com o ser humano, com meu próximo. Do que adianta ter 40 pares de sapatos no meu armário se não consigo usá-los todos de uma vez?”, questiona.