Há 30 anos o CR Guará era campeão do DF

No dia 4 de agosto de 1996, cerca de 7 mil torcedores lotaram o estádio do Cave para comemorar o único título do Lobo da Colina, na vitória sobre o Gama por 3 a 1. Mas ficou apenas a história, porque o clube não existe mais há 12 anos

O domingo de 4 de agosto de 1996 ficou marcado como um dos dias mais importantes da história do esporte na cidade e inesquecível para a apaixonada torcida do lendário Lobo da Colina. Naquela tarde, diante de cerca de 7 mil torcedores que lotaram o Estádio do Cave, o Clube de Regatas Guará vencia o Gama por 3 a 1 para conquistar o único título do Campeonato Brasiliense de sua história. Três décadas depois, a conquista permanece viva apenas na memória dos torcedores, já que o clube deixou de existir oficialmente há 12 anos.


A vitória sobre o então bicho papão do futebol brasiliense coroou uma campanha empolgante do time guaraense, comandado em campo por Eder Aleixo, ídolo de Atlético Mineiro, Palmeiras, Cruzeiro e um dos expoentes da seleção brasileira de 1982 na Espanha, considerada até hoje como a melhor de todos os tempos, embora não tenha sido campeã.

Também foram protagonistas Éder Antunes, Missinho, Júlio César, Zinha, Marquinhos Paraiba… Comandado fora de campo pelo técnico Deo de Carvalho, o Lobo havia desclassificado o Luziânia na semifinal em dois jogos, um deles ao virar o segundo jogo em 5 a 4 após estar perdendo por 4 a 2 na cidade goiana, numa noite de quarta-feira. No domingo anterior ao título, ganhou do Gama com no Bezerrão por 1 a 0, gol do centroavante Missinho. Na final, no Cave, o time saiu perdendo por 1 a 0, gol de Anderson, ex-jogador do próprio Guará, mas virou por 3 a 1, gols de Rogerinho (duas vezes) e Júlio César. A festa se estendeu por toda a cidade, com desfile dos jogadores e comissão técnica em carro do Corpo de Bombeiros, acompanhado por uma carreata de eufóricos torcedores. Foram 12 vitórias, 10 empates e apenas uma derrota.
O título garantiu o direito do clube representar o Distrito Federal na Copa do Brasil, mas deu azar de pegar o Internacional de Porto Alegre no primeiro jogo, quando perdeu no antigo estádio Mané Garrincha por 7 a 0 e foi sumariamente eliminado.


História de paixão
Fundado em 1957, antes mesmo da inauguração de Brasília e da criação da própria cidade do Guará, o Clube de Regatas Guará foi o mais antigo clube de futebol do Distrito Federal e marcou época no esporte local.
Durante muitos anos, o Estádio do Cave foi o principal ponto de encontro da cidade nas manhãs de domingo. Em uma época anterior à Internet e aos canais de televisão dedicados ao futebol internacional, acompanhar os jogos do Lobo da Colina era uma das principais opções de lazer para os moradores. Pais, filhos, homens e mulheres ocupavam as arquibancadas vestidos com as cores preta, amarela e branca do clube, enquanto entoavam o tradicional grito de “Lôôôbôôô…”. O ambiente era completado pelos vendedores ambulantes que comercializavam churrasquinho e cerveja na parte superior das arquibancadas, ao lado da tribuna.
Nos intervalos das partidas, outra tradição animava o público. O locutor oficial do estádio, Heleno Carvalho, promovia sorteios de rapaduras, queijos e outros brindes oferecidos pelos comerciantes da Feira do Guará, além de camisas do clube e até bicicletas para as crianças, estratégia utilizada para atrair famílias e formar uma nova geração de torcedores.
O Clube de Regatas Guará também inovou na relação entre clube e torcida em um período em que o futebol brasiliense ainda era incipiente e praticamente semiprofissional. Enquanto muitos clubes eram sustentados por dirigentes que pouco se preocupavam em formar uma base de torcedores, o Guará investia na aproximação com a comunidade. Naquele período, apenas Guará, Gama e Ceilândia possuíam torcidas realmente identificadas com seus clubes, já que o Brasiliense ainda não existia. A média de público no Cave variava entre 2 mil e 3 mil pessoas por partida, números expressivos para o futebol do Distrito Federal, que frequentemente registrava jogos com menos de 100 espectadores.

Reforço com
craques conhecidos
Outro fator que ajudava a fortalecer a ligação entre o clube e seus torcedores era a contratação de jogadores consagrados do futebol brasileiro, muitos deles já em final de carreira. Entre 1989 e 1993 defenderam o Guará nomes como Beijoca, ex-Bahia e Flamengo; Ailton Lira, ex-Santos, São Paulo e Seleção Brasileira; Dema, ex-Santos e Seleção Brasileira; Mauro, ex-Corinthians e Seleção Brasileira; e Ataliba, ex-Corinthians.
Entre 1993 e 1995 chegaram Josimar, ex-Botafogo e Seleção Brasileira; Nunes, campeão pelo Flamengo e também ex-Fluminense; e Lela, ex-Coritiba, São Paulo e Fluminense. Em 1996, ano da conquista do título brasiliense, o elenco ainda contava com Éder Aleixo, ex-Atlético Mineiro, Cruzeiro, Grêmio, Palmeiras e Seleção Brasileira, além de Lúcio, que mais tarde faria carreira no Internacional, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, Inter de Milão e Seleção Brasileira. O clube também foi comandado por treinadores de grande expressão, como Djalma Santos, bicampeão mundial, e Brito, tricampeão mundial pela Seleção Brasileira.

Começo do
fim há 12 anos
A trajetória do Lobo da Colina começou a mudar na década de 2010. Em 2016, o clube foi definitivamente desfiliado da Federação Brasiliense de Futebol por falta de atividades. Desde 2013 já estava licenciado, após um período marcado por ingerência política de integrantes ligados a um partido político e por tentativas frustradas de terceirização da gestão do futebol, que culminaram no rebaixamento para a então terceira divisão do Campeonato Brasiliense. O episódio representou o encerramento definitivo das atividades do clube.
Enquanto esteve em atividade, o Clube de Regatas Guará foi considerado um dos grandes do futebol brasiliense, ao lado de Brasília, Tiradentes, Taguatinga e Gama. Antes da conquista de 1996, o clube foi quatro vezes vice-campeão do Distrito Federal entre 1990 e 1995, além de manter campanhas de destaque nas temporadas anteriores.
O Guará também disputou duas edições da terceira divisão do Campeonato Brasileiro e participou uma única vez da Copa do Brasil. Na competição nacional enfrentou o Internacional, no Estádio Mané Garrincha, e foi derrotado por 7 a 0. Apesar do resultado, a partida ficou marcada porque integrantes da comissão técnica do clube gaúcho observaram o zagueiro Lucimar, que posteriormente foi contratado, adotou o nome Lúcio e construiu carreira internacional, tornando-se capitão da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010, quando defendia o Bayer Leverkusen.

Desmoronamento
do patrimônio
Nos últimos anos de existência, sob o comando do presidente do Conselho Deliberativo, Márcio Antonio da Silva, o Marcinho, que representava os interesses de um grupo político ligado ao então PMDB do Distrito Federal, o clube acumulou dívidas trabalhistas e fiscais e perdeu praticamente todo o patrimônio. A área de mais de 200 mil metros quadrados onde atualmente está localizada a Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante, foi vendida ao investidor Sérgio Naya. O direito de uso do Clube de Vizinhança do Guará I foi repassado ao Sesc. Ao final do processo, o clube perdeu inclusive sua filiação à Federação Brasiliense de Futebol.
Para os antigos torcedores do Lobo da Colina, que ainda alimentam a esperança de ver novamente um time representando o Guará nos gramados, a realidade é que o Clube de Regatas Guará deixou de existir. A única possibilidade seria a criação de uma nova agremiação que representasse a cidade, utilizasse as mesmas cores e recuperasse parte da antiga torcida. Essa alternativa, no entanto, depende diretamente da concessão do Estádio do Cave, processo que se arrasta há mais de dez anos e já foi tema de reportagem publicada pelo Jornal do Guará.