O fim de uma farsa

Moradora do Guará inventou doença para comover o marido que queria se separar. Depois, passou a tirar proveito financeiro. História foi destaque na imprensa do DF

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A saga dela comoveu imprensa, grupos sociais da Internet, ONGs, autoridades, amigos, família… Mas a máscara da farsa inventada por Telma Cristina Saraiva, 44 anos, morada da QI 20 do Guará I, caiu. Ela não tinha câncer, como fez acreditar muita gente, inclusive familiares, durante algum tempo. Mas, como toda história (ou estória), inventada, uma hora a verdade aparece.
Telma, que chegou a ser capa do Jornal do Guará, do Jornal de Brasília e ter sido eleita Miss Superação por uma ONG, teria fingido o câncer para não ser abandonada pelo marido, receber ajuda financeira e conseguir notoriedade. Dois grupos de mulheres da Internet se mobilizaram para ajudá-la com doações e manifestações de apoio e carinho. Alguns parentes chegaram a raspar o cabelo em solidariedade a ela. Mas o cerco se fechou e ela teve que confessar para a polícia que tinha inventado a doença.
O “câncer” teria sido descoberto há quatro anos, quando o marido resolveu se separar dela, de acordo com amigos e familiares. Comovido, ele desistiu da ideia e permaneceu em casa e mesmo assim não desconfiou da farsa, nem os três filhos do casal, de 15 a 20 anos. Inicialmente, a doença teria começado nos seios, passado para o intestino e depois para o reto. Desmascarada, Telma vai responder na Justiça por estelionato continuado (quando há mais de uma vítima). Caso seja condenada, poderá pegar pena de um a cinco anos de prisão. A Coordenação de Repressão aos Crimes Contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf), que investigou a denúncia contra Telma, pede que outras vítimas dela registrem ocorrência.
A polícia ainda não estimou o valor arrecadado pela guaraense ao longo dos anos, mas confirmou que as doações ocorriam em dinheiro, transferências bancárias, além de cestas básicas e até tratamentos estéticos em SPA.


Marido descobriu primeiro
O coordenador da Corf, delegado Wisllei Salomão, conta que no ano passado o marido teria descoberto a mentira e se separado dela. Ele, nem os filhos, que também foram informados da farsa, no entanto, denunciaram o crime à polícia.
A denúncia que embasou as investigações da farsa foi feita em fevereiro pela Organização Não Governamental (ONG), Vencedoras Unidas, responsável por acolher mulheres diagnosticadas com a doença. Telma procurou a entidade pedindo ajuda financeira e oferecendo palestras motivacionais. Uma das diretoras da ONG, Lilian Kelly de Oliveira, informa que a instituição trata o assunto com cautela e prefere aguardar o resultado das investigações, mas contou que Telma teria chegado à ONG informando que já havia se curado de três câncer – dois de mama e um no intestino – e estaria em tratamento de um terceiro, no reto. Telma teria alegado também ter sofrido um AVC no passado.
De acordo com a denúncia feita à Polícia Civil, Telma teria pedido ajuda a participantes do grupo e ao “público em geral”. Teria dito que passava por enormes dificuldades financeiras, inclusive com falta de alimentos, e, ainda, que estava prestes a perder o plano de saúde por causa do abandono do marido.
A princípio, diz Lilian, ninguém suspeitou de nada. “Muita gente abraçou a causa dela”. Em setembro do ano passado, Telma participou e ganhou um concurso estético promovido pela ONG, em parceria com um programa de TV, com pessoas que realizaram a cirurgia bariátrica. Entre as 38 finalistas, a história da moradora do Guará foi a que mais comoveu os jurados. Com o título de “Miss Superação” ela passou a fazer palestras e participar de eventos para pessoas em tratamento de câncer. O título aumentou a quantidade de doações em dinheiro, roupas e até um tratamento em Spa. Ele passou ser o símbolo da campanha “Outubro Rosa” do ano passado, que previne para as mulheres para o diagnóstico precoce e tratamento de câncer.
O grupo Mães e Filhas do Guará foi um dos mais atingidos pela fraude. “Quando descobrimos ficamos sem chão. Confiamos nela, ajudamos, divulgamos , abrimos espaço em nossos eventos, enfim, colocamos nosso nome em jogo, apenas para sofrer esta decepção. Demorou muitos dias para acreditar que nós e todas as integrantes de nosso grupo fomos vítimas de um golpe”, conta Mayara Franco, uma das coordenadoras do grupo. O Mães e Filhas chegou a promover arrecadação de donativos e incentivar a venda de torradas feitas pela estelionatária para custear o falso tratamento.
Quando começaram
as suspeitas
As suspeitas começaram em dezembro de 2018. “O comportamento dela não condizia com o de quem está em tratamento. Quando a questionávamos, entrava em contradição. Começamos a reparar que ela raspava o cabelo”, completa a representante do Vencedoras Unidas. “Os tipos de câncer que ela disse ter, como o de mama e de intestino, não fazem o cabelo cair. Isso chamou atenção, assim como a estrutura física dela, que não era compatível com a de uma pessoa que tem a doença”, diz a representante da ONG que a acolheu.
Depois, segundo Lilian, Telma teria dado o nome falso do médico que fazia o tratamento. “Disse também que precisava fazer quimioterapia manipulada em farmácia. Perguntamos ao oncologista se esse procedimento existia e a resposta foi ‘não’. Ficamos dois meses tentando entender a história”, acrescenta Lilian. O grupo procurou informações sobre o tipo de tratamento, bem como pelo médico indicado pela mulher e descobriu-se que todas as informações eram falsas. Neste momento caiu a ficha de que elas haviam sido vítimas de golpe.
Mesmo após anos convivendo com a doença, Telma não apresentou nenhum laudo médico que comprovasse a condição. “Ela fingia ir ao tratamento no hospital, mas com o tempo, a família ficou muito desconfiada. Ao ser descoberta, disse que mentiu porque queria chamar a atenção de quem a amava e, ainda, por não querer perder o marido (que à época, ameaçava pedir o divórcio)”, explica o delegado Wisllei Salomão.
Após a desconfiança, Telma apagou suas contas nas redes sociais e fotos e saído do grupo de WhatsApp do Vencedoras Unidas, sem aviso prévio. “Nunca imaginamos que alguém pudesse mentir sobre isso. Estamos todas revoltadas”, lamenta Lilian (com informações do Metrópoles).

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