CATEQUISTA E PEDÓFILO

Professor de catequese e monitor de escola de futebol do Guará é acusado de abusar de crianças. Já são mais de 20 denúncias. Ele continua foragido



A cidade volta a ser um dos assuntos mais preferidos da mídia e da população brasiliense. Desde a semana passada, a história do professor de catequese de uma paróquia e monitor de uma escolinha de futebol do Guará faz parte da maioria das discussões e leituras diárias dos brasilienses. Mais do que a votação da Previdência Social. Pior, discutido com indignação, por se tratar de crime contra crianças indefesas, um dos mais odiados e combatidos pela sociedade.
A notícia estourou como uma bomba na comunidade guaraense, revoltada com a acusação de pedofilia, que teria sido praticada pelo catequista e monitor de futebol José Antônio Silva, 47 anos, acusado de abusar sexualmente de quase 20 crianças – a polícia acredita em cerca de 30 – entre 4 e 10 anos de idade. O que mais chama a atenção da população é que o acusado cometia os crimes há mais de 20 anos e ninguém desconfiava, pelo menos até maio deste ano, quando a polícia recebeu a primeira denúncia e passou a investigar o caso. Na semana passada, a notícia “vazou” para a imprensa, o que facilitou a fuga de José Antônia para lugar ignorado.
A acusação causou surpresa principalmente nos pais de alunos e nas pessoas que conviviam com José Antônio, com exceção de algumas vítimas e de familiares dele, que tinham conhecimento dos crimes, mas não tinham coragem de denunciar, por vergonha ou medo.

Denúncias começaram há dois meses
O primeiro a denunciar os abusos foi um sobrinho do próprio José Antônio, que, em maio, procurou a 4ª Delegacia de Polícia do Guará para relatar o crime cometido contra ele há 25 anos, quando tinha 5 anos de idade. Ele decidiu registrar a ocorrência por ter um filho também de 5 anos e temia que ele fosse molestado pelo tio.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, Paulo* (nome fictício), hoje com 23 anos, detalha como foi violentado, junto com seus primos, por alguém que era de sua confiança. “Ele convencia a gente a ir para o quarto dele para ver os desenhos que ele fazia e estuprava a gente. Fazia sexo oral e em alguns dos meninos ele tentava fazer sexo anal também”, relata. Além disso, de acordo com a polícia, José Antônio também forçava os meninos a praticar relações sexuais entre si enquanto ele assistia. “Meu filho foi o motivo que me fez denunciar porque percebi que ele seria mais uma vítima”, afirma Paulo. “Ele se aproximou e tocou na mão do meu filho e eu vi tudo passando pelos meus olhos do que aconteceria se eu não fizesse nada”, desabafa.
Foram quatro anos de abusos — dos 4 aos 8 anos –, conta o sobrinho. “Ele fez isso com todos os meninos da família a partir de uma certa idade. Temos conhecimento de um deles, que é mais velho que eu, e depois de mim, todos os mais novos também foram abusados”, completa
Depois da iniciativa desse parente, outros membros da família foram encorajados a contar à polícia o que também sabiam. Segundo a maioria das denúncias, José Antônio praticava os abusos na casa da mãe, na QE 17, onde morou até os 40 anos, e onde era conhecido como “Toin”, e depois de casado na QE 40 enquanto a mulher saia para trabalhar. Mas as vítimas não eram somente os parentes. A polícia havia recebido até esta quinta-feira, 11 de julho, 18 denúncias contra José Antonio, de pais ou de vítimas dele aliciados durante as aulas de catequese na paróquia Divino Espírito Santo (Entrequadras 32/34) e na escolinha de futebol que ele mantinha nas QEs 38 e QE 40. A polícia trabalha com a hipótese da quantidade ser muito maior, à medida que a notícia vá incentivando outras vítimas que até então não tinham coragem de denunciar os abusos contra si.
De acordo com o delegado Douglas Fernandes, da 4ª DP, no núcleo familiar está a maior parte das vítimas identificadas até agora. “São pessoas que foram abusadas por mais tempo, pois tinham mais contato com ele, que se aproveitava até das reuniões familiares de domingo para assediar as crianças”, conta o delegado. As vítimas mais recentes são da catequese e, principalmente, da escolinha de futebol.
Para convencer as crianças da escolinha de futebol ou da catequese, Toin as buscava em casa no seu próprio carro e depois distribuía doces, salgados e refrigerantes a elas, no seu apartamento. A grande maioria das vítimas era de meninos, convencidos por ele a praticarem sexo entre si, principalmente oral. Ele estimulava uma espécie de orgia entre as crianças, de acordo com a investigação.

Preferia meninos
Uma única mulher, sobrinha do acusado, apresentou denúncia contra José Antônio até agora, mas a polícia não descarta o surgimento de outras. De acordo com a vítima, hoje com 18 anos, ele aproveitava todos os momentos em que estavam na casa dela ou da avó, ou no carro dele, para molestá-la (ver abaixo).
Pelas apurações da polícia, os abusos fora do núcleo familiar duravam menos tempo. “As crianças da catequese ou da escolinha de futebol sofreram um ou dois assédios no máximo. Depois que desistia de praticar os crimes, ele continuava a tratar a vítima com naturalidade, como se nada tivesse acontecido, o que provocava confusão na cabeça da criança. Ele a convencia que era apenas uma “brincadeira”, por isso, a criança não ficava com ódio dele”, explica o delegado Douglas Fernandes. José Antônio dava preferência às crianças mais novas porque elas não entendiam o que estavam acontecendo e quando entendiam não tinham mais coragem de denunciar.

Não provocava desconfianças
A esposa, como trabalha o dia todo como professora, não desconfiava do que o marido fazia na sua ausência. Os pais das crianças também não, porque José Antônio era muito gentil e respeitoso na frente deles. Vizinhos o descrevem como uma “pessoa tranquila e amorosa” com todos que conhecia. O curioso é que o acusado não tinha amigos adultos e nem renda fixa. Ele vivia cercado apenas de crianças, o que provocava admiração dos pais, segundo a polícia. Um dos pais que fez uma das denúncias conta que só ficou sabendo que seu filho, hoje com 11 anos, contou que José Antônio tentou pegar no pênis dele, mas que recusou o contato. “Meu filho jogava futebol com ele. Como iria desconfiar de um cara que era também professor de catequese?”, pergunta o pai. Assim que soube das denúncias, a esposa dele saiu de casa e não fala com a imprensa.
Maria Leodenice Alves Magalhães, coordenadora da Paróquia Rogacionista Divino Espírito Santo, onde José Antônio dava aula de catequese para a Eucaristia 1, contou aos repórteres do Jornal de Brasília ter ficado espantada com o caso. “Nunca percebemos isso nesse rapaz. Ele era tranquilo e bem atuante na Paróquia, jamais imaginamos isso”, diz ela.
Diretor do colégio Rogacionista, instituição de ensino da mesma congregação da Igreja Divino Espírito Santo, o padre Marcos De Ávila informa que José Antônio não atua mais como catequista da paróquia. “Fiquei chocado com a notícia. Muito triste e terrível esta conduta. Não tínhamos nenhum conhecimento sobre os fatos”, garante.
A família do abusador está dividida. O delegado conta que os irmãos que não tiveram os filhos abusados não acreditam que José Antônio seja criminoso. “A imagem dele era de uma pessoa do bem. Até mesmo os pais das vítimas que chegavam na delegacia diziam não conseguir acreditar”, relata. “Para os meus parentes, eu sou um traidor da família. São 13 irmãos e estão todos contra mim”, conta Paulo.
A Justiça do DF expediu mandado de prisão preventiva contra o suspeito. Quem tiver informações sobre o paradeiro de José Antônio Silva, contatar o telefone 197, ou enviar mensagem pelo e-mail: denuncia197@pcdf.df.gov.br.

 

Enteada sobre abuso de catequista: “Sofri sozinha todos esses anos”

Jovem de 18 anos conta que foi molestada dos 5 aos 7 anos. Já adulta, resolveu denunciar o caso e tem o apoio da mãe

POR NATHÁLIA CARDIM, DO METRÓPOLES

A única vítima do sexo feminino que acusa José Antônio Silva, 47 anos, de abuso sexual disse que morou durante uma década sob o mesmo teto do seu algoz, que está foragido. Hoje, ela está com 18 anos. O catequista teve um relacionamento com a mãe da jovem. A violência, no entanto, segundo a denunciante, aconteceu antes do casamento dos dois. “A primeira vez, eu tinha 5. Isso durou até eu completar 7 anos. Depois, nunca mais ocorreu”, contou ao portal Metrópoles.
A enteada ressalta que tinha medo de denunciar o agressor. “Não sabia que ele fazia a mesma coisa com outras crianças. Quando fui crescendo, comecei a entender o que ele tinha feito comigo. Tive de sofrer sozinha todos esses anos, sem poder contar para ninguém”, revela.
A vítima frisou ainda que a convivência entre os dois, após o casamento da mãe, era superficial. “Falávamos só o que era necessário. Tão logo tomei conhecimento de que meu primo denunciou, resolvi contar também (para a polícia). Achei que ele tivesse parado, não fazendo isso com mais ninguém. Até eu ir à delegacia e saber de mais pessoas. Isso foi um choque para mim. Fiquei traumatizada”, afirma.
A mãe dela se separou de José Antônio depois da denúncia. De acordo com a jovem, a mulher está muito abalada, mas, ainda assim, tem apoiado a filha. “Esperamos que ele seja encontrado o mais rapidamente possível. E seja punido”, cobra.

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